sexta-feira, 13 de maio de 2011

Fundação do faroeste (por Eduardo Galeano)*

       Os cenários dos filmes do Oeste, onde cada revólver disparava mais balas que uma metralhadora, eram cidadezinhas de meia-tigela, onde a única coisa sonora eram os bocejos e os bocejos duravam mais que as festanças.
       Os caubóis, esses cavalheiros taciturnos, ginetes erguidos que atravessavam o universo resgatando donzelas, eram peões mortos de fome, sem outra companhia feminina que as vacas que comboiavam, através do deserto, arriscando a vida a troco de um soldo miserável. E não se pareciam nem um pouco com Gary Cooper, nem com John Wayne ou Alan Ladd, porque eram negros ou mexicanos ou brancos e desdentados que nunca tinham passado pelas mãos de uma maquiadora.
       E os índios, condenados a trabalhar como figurantes no papel dos malvados malvadíssimos, não tinham nada a ver com aqueles débeis mentais, emplumados, pintados, que não sabiam falar e ululavam ao redor da diligência crivada de flechas.
       A gesta do faroeste foi invenção de um punhado de empresários vindos da Europa oriental. Bom olho para os negócios tinham esses imigrantes, Laemmle, Fox, Warner, Mayer, Zukor, que nos estúdios de Hollywood fabricaram o mito universal de maior êxito no século XX.

* extraído do livro Espelhos - Uma História Quase Universal (L&PM Editores)

       A leitura deste texto de Galeano favorece o pleno entendimento do argumento de Tao Golin sobre a "imaterialidade da coisa", bem como de como se dá a manipulação do autenticamente tradicional pelo autoproclamado "tradicionalismo". Tivesse um conhecido cantor e compositor "tradicionalista" desta terra a chance de ler os dois últimos textos neste BF postados (e de compreendê-los!), jogando longe seu chapéu da Real Polícia Montada Canadense e o pala que traz dobrado - inverno e verão - sobre um dos ombros, proclamaria: "É aí que eu me refiro!"

Um comentário:

  1. Bem, na qualidade de "mestre", sugiro a todos a litura do Eric Hobsbawn, A invenção das tradições.

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