sábado, 30 de abril de 2011

BRA Tchê! (por Andrey Schlee)

              Existem frases reservadas ao cinema: "Siga aquele taxi!", "Play it again, Sam!",  "Por pior que seja a noite, amanhã é outro dia!" ...

              Certa vez, eu, a Zyndya e o Andreyzinho embarcamos em um vôo da “finada” BRA, de Madri rumo ao Rio de Janeiro. Estávamos cansados depois quinze dias de intensa programação (quem já viajou comigo sabe que eu gosto de aproveitar cada momento...). O avião era grande e não estava lotado. A idéia era dormir a noite (viagem) inteira e só acordar na terra do Cristo Redentor.
            Com aproximadamente uma hora de vôo, ocorreu o inesperado. As aeromoças começavam a servir o jantar quando um comissário perguntou em alto e bom som: "Há algum médico a bordo?"
             Eu lembrei das frases do cinema...
             A Zyndya deve ter lembrado do juramento de Hipócrates, e levantou a mão. E lá se foi ela, para o fundão do avião, onde um jovem estava em convulsão (epilepsia). Todos os passageiros ficaram, de joelhos, olhando o “salvamento”. Mas a coisa demorou e o jantar estava sendo servido.
             Quando ela voltou, ficamos sabendo tratar-se de um rapaz que, na sala de espera, a Zyndya já havia “diagnosticado” com problemas neurológicos (a família, de Tocantins, havia tentado entrar com ele na Espanha em busca de tratamento. Foram descobertos e deportados).
             Passados aproximadamente trinta minutos, mais uma vez a Zyndya foi chamada. Agora, outra heroína apresentou-se: uma radiologista!
             O jovem havia piorado e o avião não contava com equipamento apropriado para o salvamento. A coisa ficou feita, e progrediu para parada cardíaca...
            Depois de horas de trabalho e de muita massagem cardíaca, a Zyndya retornou. Antes, foi até a cabine do piloto e exigiu que o avião aterrissasse imediatamente! Eu não acreditei: só no cinema alguém pode pousar um avião...
            Não demorou descemos em Natal. O paciente foi retirado do avião (Não ficamos sabendo o que ocorreu com ele). E nós levamos mais algumas horas até o Rio (eu sentado ao lado da Zyndya que, finalmente, dormiu).
             Duas frases de cinema em uma única viagem da BRA!            

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Na onda britânica

GOD SAVE THE KIM
Joaquim José Tavares Neto, o Kim, é o mais novo contratado do G. E. Brasil. Nasceu em Goiânia, em 18/11/1985. Tem 1,78 m de altura e fez toda a base no Vila Nova/GO, onde jogou dos 12 aos 22 anos. Depois disso ele foi para o futebol do eixo Rio-São Paulo, até vir para o Bento Freitas, para a disputa da Segundona Gaúcha deste ano. O meia-atacante "joga no estilo camisa 10", considera-se bastante calmo e com condições de colocar os atacantes na cara do gol. Ou seja, é o nosso Giggs! Te cuida Cerâmica!

Ingraterra


Já estamos no dia 29 de abril.
Dia do casamento do (outro) príncipe com a (outra) plebeia.
Puro glamour!, como dizem os desprovidos de macheza.

Nosso convite desta vez não chegou a tempo. Possivelmente por atraso dos Correios

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Encontros


        Com a presença do familião, dos amigos fiéis e de um público que praticamente lotou o auditório do Instituto João Simões Lopes Neto, o "encontro dos professores" transcorreu num clima de grande empatia entre os ditos cujos. Literatura, tradicionalismo, jornalismo, imprensa, recordações mútuas e, até, um pouquinho de futebol, foram os assuntos dominantes, "conversados" por quase duas horas. Ao final, participação dos presentes, com perguntas. Dona Marlene foi diversas vezes chamada pelo marido a intervir durante o "colóquio", tornando precisas reminiscências nem tanto, por ele trazidas.
        Conferir em www.encontroscomoprofessor.com.br, oportunamente.

Gaivota (Gilberto Gil)


Fotografia de Andrey Schlee

Gaivota menina
De asas paradas
Voando no sonho
Díaguas da lagoa
Gaivota querida
Voa numa boa
Que o vento segura
Voa numa boa
Gaivota na ilha
Sem noção da milha
Ficou longe a terra
Gaivota menina
Gaivota querida
Voa numa boa
Que o alento segura
Voa numa boa
Gaivota, te amo e gaivotaria sempre em ti
Gaivotar seria poder te eleger para mim
Eu te quero, e se fosse o caso, quereria mais ainda
Ser, eu mesmo, gaivota sobre mim
Sobrevoar meus temores, meus amores
E alcançar o alto, alto, o mais alto dos teus sonhos
Dos teus sonhos de subir
De subir aos ares
Gaivota querida
Gaivota menina
Pousa perto de mim

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Programa para amanhã


 
Ruy e Schlee
no IJSLN

            Amanhã, às 19 horas, no Instituto João Simões Lopes Neto, ocorrerá mais um programa da série Encontros com o Professor, conduzido por Ruy Carlos Ostermann e que, desta feita, terá papai (como diria o Dr. Alcides de Mendonça Lima) como convidado. A proposta é de uma conversa o mais informal possível, contando com ampla participação dos presentes. Grande expectativa!


Bojorito

Fotografia de Andrey de Aspiazu


Dia do Goleiro

         Ontem, 26 de abril, foi "comemorado" o Dia do Goleiro. Na verdade eu nem sabia que existia uma data "consagrada" aos goal keepers, mas, aproveitando a oportunidade, resolvi homenagear essa raça que trabalha onde não cresce grama. Elegi, então, os "10 maiores de todos os tempos".
          Vamos lá: Lev Yashin, Gordon Banks, Sepp Mayer, Georgio Geóvio (na foto), Suli Cabral Machado, Sérgio Furtado, Gilberto Pires, Mauro Caetano, João Luis Tegon e Osvaldo Moacir Rolin. 
          Alguém discorda? Cartas à redação.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Na calada da noite sempre alerta ele está

         Achei esta raridade em um blog muito legal (schmidttvalenha.blogspot.com), que tem muito "lixo" do nosso passado (longínquo ou mais recente). Trata-se da abertura do desenho do Homem Aranha, com a letra da música vertida para o português (que se cantava, no colégio: "Homem Aranha, Homem Aranha, nunca bate, sempre apanha"). Embora a precariedade da animação, é uma jóia.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Mistééério!

        Tv ligada no programa 15 Minutos, da MTV. Marcelo Adnet aparecia em primeiro plano no vídeo e, ao fundo, na estante que compunha o cenário... O LIVRO DO PAI!!! Pois é, atrás do Marcelo aparecia, numa prateleira da estante, com a capa voltada para o telespectador, o livro Linha Divisória. Por quê? A troco de quê? Quem o colocou lá? O próprio Adnet? Será que leu?
 
olha lá atrás, sobre o ombro direito do cara


Salve, salve, ó Pelotas querida!

O legítimo cinquentão (ou pertinho disso) pelotense é o cara ...

que frequentou a praça dos macacos
que continua chamando o IF-Sul de Etepê
que viu corrida de kart no largo da estação férrea
que comprou botões na Casa Tupã
que pergunta ao amigo, na Páscoa, se já foi ao Centro de Saúde
que comeu empada na Confeitaria Brasil
que assistiu aos melhores filmes de sua vida no Cine Rei
que bate na madeira quando algum incauto pronuncia aquele

       maldito sobrenome basco
que viu o Bloco do Abdala no carnaval da XV
que cortou o cabelo no Salão Elegante

que vibrou com a vitória xavante no derradeiro BraPel do seletivo
que fez guerra de barro nas águas do Laranjal
que participou da gincana da 1ª FADA
que curtiu o programa da Salma Costa na TV Tuiuti
que foi Margaridense
que completa: "que o Canelão", quando alguém comenta que o
       outro "está mais magro"
que fez lanche no Cachorrão
que viu o Alfredinho desfilar na sua famosa bicicleta
que conheceu os canteiros da Osório e o canalete da Deodoro
que comeu quéqui com caçulinha na Nogueira
que esteve nos bailes de carnaval do Guarany
que acompanhou o julgamento da Maria Aidil
que sentiu o cheiro a mijo do banheiro dA Gruta
que ainda passa a mão na bunda do amigo e pergunta: “tens
       pente?”
que dançou no Direito e na Leiga
que se cagava de medo do Casacão, do Sebinho e do Pardal
que marchou na Parada da Juventude, sob a vigilância do Apodi
que comprou figurinhas no Padilha
que ouviu a estridente cigarra do Índio da Sorte
que jogou bola na quadra do América
que nunca ficou sabendo se o tarado da bicicleta azul existiu 
       mesmo

Rebajas natalinas

Fotografia de Andrey de Aspiazu

Cordel do ilusionismo agalopado*

             Mr. M estava na Praça Coronel Pedro Osório. Para espanto geral da mutidão presente, auxiliado por duas belas partners em trajes sumários, fez ele surgir, por trás de uma cortina de veludo vermelho (igual à futura do Teatro Guarany), o Titanic. Com um passe de mágica, o velho transatlântico voltou à tona, cabendo e boiando surpreendentemente no laguinho de águas fétidas da praça.
            Uri Gheler, então, ascendendo ao tombadilho enlameado do barco, avistou a carcaça do seu capitão e, percebendo a existência de um rústico marcapasso nas entranhas do marujo, concentrou toda a sua força mental naquela peça, tocando-a com a ponta dos dedos. Ao grunhir "funxiona!", em um português carregado de sotaque, fez com que, de imediato, o marinheiro (mesmo fisicamente descomposto pelas décadas subaquáticas), com o peito pulsando, se erguesse e acenasse ao público para, logo a seguir, desfazer-se todo nas tábuas podres do convés.
             Para o atônito povo o prefeito anunciou então, solene, que na próxima sexta-feira, bem cedo, em um hotel de Porto Alegre, oferecerá um café-da-manhã à imprensa gaúcha, oportunidade em que fará um relatório sobre os acontecimentos, bem como a respeito de sua moderna forma de administrar.
             Esses discos voadores me preocupam demais!

* inspiração em Oliveira de Panelas

domingo, 24 de abril de 2011

Estilo DP


E o Rango?
GASTRONOMIA

Receitas que seguem a tradição dos cristãos

De entrada, uma salada; no prato principal, carré de cordeiro junto de um risoto com cogumelos; como sobremesa, cupcakes de chocolate

* Chamada de contracapa do Diário Popular de sábado e domingo de Páscoa

Domingo de Páscoa (por Andrey Schlee)


Foto de Andrey Schlee

          Para comemorar a nossa Páscoa, mando a foto dos Toritos de Pucará com a Cruz. Os toritos são colocados nas cumeeiras das residências tradicionais do Peru. Trata-se de uma manifestação do sincretismo local. Os Toritos, símbolo de procriação, representam a prosperidade, a fertilidade e a felicidade dos casais; enquanto a cruz demonstra a religiosidade dos proprietários das moradias.
 

Parabrisas alternativos

Fotografia de Andrey de Aspiazu

Em busca da música perdida

              Certa vez, há muitos anos, o Alexandre, meu primo, voltou do veraneio em Balneário Albatroz com uma fita cassete contendo músicas gravadas do rádio, de uma FM de Porto Alegre.
          Ouvi a tal fita e me apaixonei pela primeira música do lado A. Não descansei enquanto não fiquei com a fita, que acabei trocando com ele por um goleiro de futebol de mesa (o "Batman", que, aliás, fez longa e brilhante carreira no time dele, o Bahia).
        Pois bem, durante anos e anos ouvi essa música sem sequer saber seu título. Apenas conseguia identificar uma das duas vozes masculinas que a interpretavam: a do mestre Zé Ramalho.
        Recentemente, fazendo uma busca na Internet, finalmente descobri que tal música se chama Cauromi (Terra do Nunca) e que seu autor e co-intérprete é o mineiro Eustáquio Sena (já falecido). Não existe em nenhum disco do Zé Ramalho (nem mesmo numa coletânea há pouco lançada, chamada "Zé Ramalho da Paraíba", com registros inéditos, de apresentações ao vivo entre 1973 e 1976, antes da fama).
        Vale a pena ouvir a música, encontrada no YouTube (e, depois, concordar comigo que valia o goleiro pela qual foi trocada).
        

Se alguém souber da existência de Cauromi (Terra do Nunca) em LP ou CD, contatos urgentes com este BF.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Como era bom ir ao cinema II (por Andrey Schlee)

          Houve uma época em que eu não perdia um único filme (recomendado!). Ia ao cinema sempre e em todos os horários disponíveis. Na maioria das vezes sozinho, outras tantas, acompanhado. A Marli Schlee foi minha maior companheira, nas sessões noturnas e frias do Cine Rei ou nas longas caminhadas domingueiras até o Tabajara.
           Mas na trilha estabelecida pelo Bipolar, quero contar da minha experiência com O Iluminado. Sim, O Iluminado (“The Shining”), filme de Stanley Kubrick baseado no livro de Stephen King. Todos sabem, trata-se de um clássico do suspense. O crítico Jack Kroll, do Newsweek, chegou a chamá-lo de “o primeiro épico do terror”!
           Pois bem, fui assisti-lo sozinho no Guarany. Devo ter cumprimentado o Beto, comprado um saquinho de balas azedinhas e sentado bem no meio da sala de projeção, como de costume.
           O filme é incrível! E Jack Nicholson, no papel de Jack Torrance, esta fantástico. O escritor Jack, aceita o emprego de zelador em um grande hotel fechado e isolado pela neve. Com ele, convivem apenas a esposa (Shelley Duvall) e o filho pequeno. Mas, de alucinação em alucinação, ele resolve matar a família! E aí, é tarde demais! A ficção passa a ser a própria realidade, angustiadamente vivida em menos de duas horas. O enlouquecido pai com um machado na mão perseguindo o filho... A mãe trancada no banheiro e a porta sendo quebrada a machadadas... O olhar doentio de Jack caminhando em nossa direção... Quando então, no clímax do filme, alguém bateu nas minhas costas e perguntou:
— tens horas?"


           (PS.: Até hoje não me recuperei de tamanho cagaço!)

Como era bom ir ao cinema

            Recife, 1996 (acho). Eu e a Fernanda estávamos em um hotel na Boa Viagem e resolvemos ir a um shopping center que, segundo informações, era perto. Disseram-nos que era só chegar na rua Padre Carapuceiro (nunca mais esqueci o nome desse desgraçado homem da fé!).
           Calorão, caminhamos muito (muito mesmo!) e suamos mais ainda. Finalmente chegamos ao destino e, depois de uma breve voltinha (o cansaço era grande), fomos descansar numa das salas refrigeradas do cinema lá existente. Filme: Todos os Corações de Mundo, um documentário dirigido por Murilo Salles sobre a Copa do Mundo de 1994. A Fernanda nem reclamou da "escolha", já que é fã do Romário.
        Na cena culminante, no clímax do filme/da copa, Baggio coloca a bola na "cal", Taffarel se posicional, o juiz autoriza a cobrança... (na sala somente o som de um coração pulsando "a mil") e... o italiano da colinha manda a "negrinha" lá longe! Vibração geral no cinema. Alguém berra: É TRETRA!!!
        Voltamos de táxi.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

O Guarany (índio descarado)

Fotografia de Fernanda Schlee

Fim de jogo (por Andrey Schlee)

          Nos últimos seis anos estive Diretor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília. Algo muito marcante e que, por se tratar de um curso na Capital, me obrigou a manter contato com um mundo completamente estranho, cheio de códigos próprios e de um ritmo particular – marcado pelas datas oficiais de cada país e das cerimônias de chegada ou de partida dos representantes do corpo diplomático.
          Um mundo, na maioria das vezes agradável, mas muito esnobe e até preconceituoso, mascarado por rígidos cerimoniais e por regras de etiqueta. Um mundo onde cada um tem o seu lugar previamente e hierarquicamente definido. Um mundo de fantasia, com residências quase sempre belas, jantares quase sempre saborosos, festas quase sempre divertidas.
           Da ilusão, ficaram boas estórias! Como saborear, nos jardins da Embaixada da França, e em petit-comité, um intragável coq au vin (no caso, o “pato” era tão velho e duro que, mesmo preparada no tradicional Borgonha, o embaixador solicitou retirar a comida toda... ). Ou ser recebido para jantar formal, portanto sentado, na residência oficial da Finlândia, por uma embaixatriz saudosa de sua terra natal e completamente bêbada! Ou ouvir de um embaixador da Comunidade Européia exclamar, frente ao atraso de um colega da Nicarágua: – Tinha que ser latino! Divertido foi comemorar a data oficial da Itália – nos magníficos jardins da chancelaria – comendo pasta chî sardi, ou seja, a terrível e econômica “massa com sardinha”! (a embaixatriz era siciliana...). E, um tanto surrealista, foi ser convidado para comemorar o aniversário da Rainha britânica, com direito a God save the Queen... Long to reign over us (tradução: Deus salve a Rainha...que ela “tenha um longo reinado sobre nós”).
         Mas, para não ser injusto, tenho que também lembrar do estimulante convívio com as embaixadoras da Romênia e do México, por quem sempre fomos bem recebidos e onde sempre se comeu esplendidamente. Curiosamente, as duas não eram diplomatas de carreira...
         Fica uma saudade do mole poblano e deixo o meu cartão de visita. R.S.V.P.

51 anos de Brasília (por Andrey Schlee)

                  21.04.1960
Andrey, de Brasília para o BF

            Brasília foi inaugurada em 21 de abril de 1960. Mas foram quatro dias de festa para comemorar a instalação do governo federal na nova Capital. Na véspera, no púlpito do Palácio do Planalto, o presidente Juscelino Kubitschek recebeu as “chaves da cidade” das mãos do engenheiro Israel Pinheiro, presidente da Novacap e primeiro prefeito. Logo depois, com honras militares, desembarcou na estação de passageiros do aeroporto o cardeal Dom Manuel Gonçalves Cerejeira. O legado pontifício, após passar a tropa em revista e cumprimentar as autoridades presentes, seguiu solenemente em cortejo pela cidade. Poucos minutos antes da meia-noite, em uma Praça dos Três Poderes com piso de pedra portuguesa ainda incompleto, e servindo a varanda do Supremo Tribunal Federal  como  altar, ocorreu a missa campal. Segundo o programa oficial, a cruz então utilizada era a mesma diante da qual foi celebrada a “primeira missa no Brasil”(sic). No exato momento em que o cardeal elevou o Santíssimo, a banda do corpo de fuzileiros navais executou o hino nacional e Brasília foi toda iluminada por grandes refletores. Seguiu-se a locução radiofônica, diretamente do Vaticano, de uma saudação do papa João XXIII.
             Já na alvorada do dia 21, JK recebeu os embaixadores para, a seguir, em sessões simultâneas, ocorrerem às cerimônias de instalação dos três poderes da República. No Palácio do Planalto, fraque e cartola; no Palácio do Congresso, traje de passeio escuro; e no Palácio da Justiça, toga e capelo. Na Praça fronteira, permaneceram os candangos – os construtores de Brasília – com suas roupas simples, vestes de domingo ou mesmo macacões de obra. Aos edifícios “pioneiros” do Palácio da Alvorada, Brasília Palace Hotel e Igreja Nossa Senhora de Fátima – de 1958 – juntou-se um significativo, e representativo, número de outras obras igualmente projetadas por Oscar Niemeyer. As formalidades protocolares afastaram o arquiteto das solenidades oficiais, que preferiu participar das festas populares. Lucio Costa, o urbanista da Capital, permaneceu no Rio de Janeiro. No local da futura catedral, o núncio apostólico do Brasil instalou a arquidiocese de Brasília e deu posse ao seu primeiro arcebispo. Todos voltaram a se encontrar na Praça quando, após a oração do poeta Guilherme de Almeida, foi inaugurado o monumento comemorativo à efeméride, o Museu da Cidade. No eixo rodoviário, ocorreu o desfile militar e a grande parada dos operários da Novacap. À noite, o casal presidencial ofereceu recepção de gala nos salões do Planalto para convidados de uniforme ou de casaca, mas, desta vez, exibindo as respectivas condecorações. Para a festa, improvisados buffets, bares e chapelarias foram adaptados no Palácio.
             Com gosto de ressaca, na manhã do dia 22, foram instalados os tribunais Superior Eleitoral e Federal de Recursos no edifício do Ministério da Justiça; enquanto a primeira dama, Sarah Kubitschek, inaugurava o Centro de Recuperação. Após a cerimônia de despedida do cardeal, as autoridades prestigiaram a abertura do Cine Brasília e, já ao anoitecer, assistiram ao concerto-sinfônico-coral regido pelo maestro Eleazar de Carvalho.
             Por fim, o quarto dia de festas foi dedicado a atividades menos protocolares, como o Grande Prêmio Automobilístico de Brasília (na Esplanada dos Ministérios), o Campeonato Brasileiro de barcos (na enseada fronteira ao Palace Hotel, no Lago Paranoá), e o espetáculo “Festival Brasília”, de autoria do escritor Josué Montello, com música de Heitor Villa-Lobos e Hekel Tavares.
                 Mesmo assim, muito ainda faltava para consolidar a Capital.
A foto (reproduzida do Arquivo Histórico do DF)  mostra os acampamentos dos trabalhadores que construíram Brasília



quarta-feira, 20 de abril de 2011

Dalí da janela

Foto de Ana Carolina Schlee (Flor)

Sessão da Tarde (pela manhã)

                Hoje eu acordei meio gripado, com dor de cabeça e garganta arranhando. Véspera de feriadão, serviço em dia, resolvi ficar em casa. A Fernanda e a Flor sairam cedo, para seus colégios. Coloquei Mississipi em Chamas, de Alan Parker, para ver.
            No filme, de 1988, Gene Hackman e Willian Dafoe interpretam uma dupla de agentes do FBI que são mandados a uma pequena cidade do Mississipi em 1964, para investigarem o desaparecimento de três jovens ativistas dos Direitos Civis naquela localidade marcadamente segregacionista.
            Seguindo velho clichê de filmes policiais norteamericanos, o primeiro é o velho agente da lei, experiente e já meio desiludido, enquanto o segundo representa os novos padrões, segue estritamente as normas, é ético e "quer mudar o mundo".
            Evidentemente, sob o comando do policial inexperiente as investigações não chegam a resultado algum, em que pese os meios materiais que lhe são disponibilizados pelo "Bureau". É necessário que o calejado policial lance mão das suas manhas para que se comprove o que já era sabido de antemão por todos: os ativistas tinham sido mortos por membros da Klu Klux Klan (vale dizer, pelos homens brancos da cidade, incluindo o xerife e seus ajudantes).
            A primeira vez que vi esse filme foi no início de 1989, na Cinelândia, no Rio de Janeiro. Eu e o Andrey tínhamos ido a Recife para jogar botão e, no retorno, passamos pelo Rio para ver o Grande Prêmio Brasil de F1 (última vez que se realizou em Jacarepaguá). Naquela época os filmes que concorreriam ao Oscar (e Missisipi em Chamas concorreu a sete) ainda eram apresentados antes no centro do país e, só depois, na "periferia". Naquela época ainda valia a pena ver os filmes que concorreria ao Oscar!
            No desenrolar do filme há uma cena emblemática em que uma dúzia de racistas da KKK, metidos em seus assustadores capuzes pontudos e brancos, aterrorizam negros que saiam de um culto religioso em uma igreja. A socos e pauladas, agridem e ferem aqueles que não conseguem deles fugir. Apavorado, um adolescente negro opta por ajoelhar-se à porta da igreja, rezando enquanto a selvageria campeia à sua volta. Nesse momento se aproxima dele um dos mascarados que, contrariando a impressão inicial do expectador, de que se comoverá com atitude passiva do negrinho, desfere-lhe um pontapé na cara.
            Nunca me esqueci dessa cena porque, no exato momento em que foi projetada no cinema lá do Rio, um sujeito (nem sei se era branco ou negro) pulou da cadeira e, como se ele tivesse levado a patada, injuriado, berrou: "FIADAPUTA!"
           




Velhas pedras pelotenses

Fotografia de Fernanda Schlee

terça-feira, 19 de abril de 2011

Meu umbigo é GreNal

        Na sua coluna de hoje, na Zero Hora, o cronista esportivo Wianey Carlet escreveu o seguinte tópico:
         "O Cruzeiro faz jus a sua tradição de pequeno entre os grandes. É semifinalista, posição conquistada com autoridade e bom futebol. Apesar de time qualificado, o São Luiz dançou na Montanha."
           Inaugurado em 1941, o Estádio da Montanha foi considerado, na época, um dos mais completos e modernos do país. No final da década de sessenta o Cuzeiro vendeu a “Colina Melancólica”, tendo em seu lugar sido construído o cemitério João XXIII. O último jogo do Cruzeiro na Montanha ocorreu no dia 8 de novembro de 1970 (vitória por 3 a 2 sobre o Liverpool do Uruguai).  
           Em 1977 o Cruzeiro inaugurou o "Estrelão", na Av. Protásio Alves, onde, desde então, manda seus jogos.

           Não bastasse isso, comemorando a "heróica" vitória do Grêmio nos pênaltis sobre o Ypiranga (depois do empate em 1x1 no jogo), a ZH estampou em manchete "Victor salva o Grêmio", enaltecendo o fato do goleiro gremista ter defendido uma das cobranças dos batedores de Erechim (outra bateu na trave). Detalhe: o goleiro do Ypiranga, Luiz Carlos (que não mereceu qualquer destaque no jornal), também defendeu uma das cobranças do tricolor e, mais importante ainda, não falhou no gol marcado por Douglas no desenrolar do tempo normal. Já o gol do Ypiranga aconteceu numa falha (mais uma!) do goleiro do Grêmio.
            É assim que se produz um goleiro para a seleção!
                         (Viva o Mazembe, viva o Oriente Petrolero!) 

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Morde, mas não assopra

Serra: - Vai uma 51?
Pingucinho: - Boa ideia!
                 Pingucinho Neves foi pego em uma blitz da "Lei Seca" no Rio de Janeiro. Dirigia uma Land Rover (êta trem bão, sô!) com a carteira de motorista vencida. E se negou a fazer o teste do bafômetro.  
            Conforme nota de sua assessoria de imprensa, o "Bob Esponja das Alterosas" não assoprou no aparelhinho porque, "uma vez constatado o vencimento do documento de habilitação foi providenciado outro motorista para a condução do veículo".
           Ah, tá!

domingo, 17 de abril de 2011

Twelve Angry Men

                     Há uns anos, uma colega Pretora, a Suzana, organizou uma série de sessões de cinema no auditório da OAB local. Era o "Cine Diálogo", projeto que já vinha sendo realizado com sucesso pelo pessoal da área do Direito em Porto Alegre.
                   O filme escolhido para a estreia foi 12 Homens e uma Sentença (uma versão mais recente, de 1997, feita para a tv). Ela me encarregou de, no dia da "projeção", fazer uma espécie de apresentação. Como convidado especial, estaria presente o Professor Joary Reis, apaixonado e crítico da Sétima Arte, a quem caberia fazer o fecho, encaminhando o debate final.
                   Para cumprir minha tarefa, fiz um texto em duas laudas, contando sobre a peça que, depois, foi adaptada para o cinema, em 1957, e para a televisão, em 1997 (versão que veríamos); expliquei sobre o significado do título original (Twelve Angry Men); relacionei diretores, atores e sei-lá-mais-o-quê.                    
                   No dia, porém, o Professor Joary, alegando necessidade de sair mais cedo, solicitou que se invertesse a ordem da sua participação, o que, evidentemente, foi aceito pela organizadora do evento. Então, com a palavra, ele contou sobre a peça que, depois, foi adaptada para o cinema, em 1957, e para a televisão, em 1997 (versão que veríamos); explicou sobre o significado do título original (Twelve Angry Men); relacionou diretores, atores e sei-lá-mais-o-quê.
                  Ou seja: liquidou comigo. Antecipou tudo, esvaziou o que eu tinha preparado para dizer. 
                  Então, encerrada a projeção (já sem a presença do convidado especial), confessando isso aos presentes (e tinha bastante gente!), limitei-me a distribuir-lhes cópias das minhas folhinhas.

                           
                  Vi 12 Homens e uma Sentença (com o Henry Fonda e o Lee J. Cobb) pela preimeira vez há muito tempo, quando era guri. Daí em diante, por muito tempo, inclui esse filme na lista dos meus 10 favoritos. Hoje, acho que o filme ainda cabe numa eventual lista dos meus 50 bests.
                  Semana passada "peguei" 12 Homens e uma Sentença já em andamento na tv. Sentei e assisti até o fim, até a cena em que os jurados nºs 8 e 9 (assim tratados durante todo drama) se despedem nas escadarias da Court, apertando as mãos e dizendo um ao outro seus respectivos nomes, Davis e McArdle.
                  Pensei em escrever a respeito, para publicar aqui no BF. Mas, surpresa das surpresas, acabei mais uma vez sendo "atropelado" na minha pretensão. Desta vez por um texto da página 2 da ZH deste sábado. Então, em vez de distribuir minhas anotações à plateia, agora colo abaixo o que escreveu, com absoluta propriedade, a Claudia Laitano: 
                  Quando o cineasta Sidney Lumet morreu, no sábado passado, aos 86 anos, o veterano crítico americano Roger Ebert dedicou-lhe um tocante texto de despedida, qualificando o diretor nova-iorquino como um dos grandes humanistas da história do cinema. Produtivo e lúcido até os últimos anos, o autor de clássicos como Um Dia de Cão, Serpico, e Rede de Intrigas conseguiu um feito não muito comum na carreira de artistas longevos: entrou e saiu de cena com duas obras-primas.
                  Seu último trabalho, o impactante thriller Antes que o Diabo saiba que Você está Morto (2007), é daqueles filmes que saem com você do cinema e o deixam desassossegado por alguns dias, antes de repousar definitivamente no arquivo vivo da memória. Mas a obra-prima que eu queria lembrar aqui é aquela que marcou a estreia de Sidney Lumet no cinema: 12 Homens e uma Sentença (1957), um dos filmes que talvez expliquem por que aquele jovem diretor seria lembrado no futuro como um dos grandes humanistas da sua geração.
                  Apesar de aparentemente se encaixar na categoria "drama de tribunal", 12 Homens e uma Sentença não é um título convencional do gênero. O suposto criminoso, um garoto de 18 anos de um bairro pobre de Nova York, mal aprece no filme, e ao final da história nem sequer ficamos sabendo se ele realmente matou o próprio pai ou não. o que está em jogo ali não é a construção dedutiva da verdade aos moldes de uma trama policial ou mais uma reflexão sobre os limites da Justiça em uma democracia. Tudo isso está no filme, operando na superfície da história, mas o que torma 12 Homens e uma Sentença uma obra-prima é menos a trama em que os persongens estão envolvidos (O garoto cometeu o crime? Há evidências suficientes para condená-lo à morte?) mas a forma como os juradoss interagem. O filme nos apresenta uma espécie de sinfonia humana - com cada um dos jurados encarnando tipos universais e atemporais, facilmente identificáveis em qualquer grupo de pessoas.
                  Há o sujeito irascível, que bate na mesa e se impõe mais pela intensidade da voz do que pela força dos argumentos. Há a turma dos retraídos, dos quais com dificuldade se extrai uma posição firme. Há os que oscilam ao sabor das opiniões alheias. Há os que querem se livrar rapidamente de qualquer tarefa para voltar logo a dedicar-se à própria vida. Há o velho sábio, mas já sem forças para se impor. Há o homem que não consegue percber os próprios preconceitos e pensa estar exercendo o direito de opinião quando, na verdade, está questionando o próprio sentido da democracia - o princípio da igualdade.
                  E há, claro, o personagem de Henry Fonda. Herói do tipo "homem comum honrado", que caía como uma luva no ator, o jurado número 8 representa a grandeza de todas as pessoas que lutam pela justiça e se empenham por causas alheias como se fossem suas, mesmo quando elas parecem perdidas.
                  Todas as vezes em que você navegar contra a maré para fazer aquilo que, intimamente, acredita que é certo, pode se orgulhar de estar sendo como o jurado número 8 - gente que faz diferença.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Que beleeeeza!!!


Pedacinho de disputadíssimo jogo de vôlei ocorrido no verão passado na Superliga Mundial do Sítio São Marcos. Pela amostra é possível ter ideia de toda ginga e malemolência dos atletas que aparecem na telinha.

Ari
Adorei o vídeo! O pessoal aí no sul joga muito! São profissionais?  Finalmente algo de novo no vôlei internacional. Jogadas que poderiam ser batizadas como “retroescavadeiras” e “mãos de manteiga”. Acho que vi uma pequena conduzida, mas nada que ofusque o brilho dos atletas. Falando em atleta quem é aquele com chapéu branco?  Joga um bolão!!! (será que também sofre de hipotireoidismo?). Mas como o Ronaldo, ele é o cara!  Quando visitar a terrinha, quero conhecer esse pessoal.
Um abraço, Andrey

Reação fant(asm/ástic)a

                 Já passa da meia-noite e eu acabei de ficar sabendo que o Grêmio Bagé venceu o BaGuá por 3x2. Esse resultado tem duas consequências importantes. A primeira é a lamentável queda dos dois times bageenses (apesar de toda a tradição que têm no futebol gaúcho)  para a Terceira Divisão (que será reeditada pela FGF a partir de 2012); a segunda é a classificação do Farroupilha para a segunda fase da Segundona (e sua permanência - na pior das hipóteses - nessa mesma divisão, no próximo ano).
            Eu e meu pai estivemos no sábado passado no Nicolau Fico e, ao lado - literalmente - do Coronel Evaldo Poeta, testemunhamos os 4x0 que o Farrapo meteu no "Mais Velho". Foi uma memorável tarde de futebol à antiga, de absoluta interação entre os que estavam na torcida e os que se desdobraram em campo, dando o sangue, jogando com alma, muito além das próprias condições técnicas e físicas.
            Quem, como nós, viu aquela mescla de veteraníssimos e jovens jogadores aplicar uma goleada no Rio Grande, ficou com a certeza absoluta de que o Farroupilha não perderia para o 14 de Julho, lá em Livramento, no jogo seguinte. Essa certeza acabou se confirmando: o tricolor ganhou de novo, de virada, por 2x1. E porque não merecia outra sorte, diante da postura guerreira assumida num momento em que tudo parecia perdido, está classificado para seguir na luta na Segundona (neste e no ano que vem). 
            Meu primo Alexandre - xavante como eu e todos os Schlee que se prezam - costuma afirmar que os que se dizem torcedores do Farroupilha são, na verdade, aureocerúleos enrustidos.

eis o futuro técnico
xavante
             Mesmo temendo a ira sagrada do Alexandre, confesso que essa "façanha" do Farrapo me tocou. Quem viu o que nós vimos no sábado passou a torcer (ainda que temporariamente) para aquele pessoal do Fragata que, não se pode esquecer, está sendo comandado pelo nosso Luisinho.
            

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Cão cinéfilo

         Visitando um amigo, o sujeito nota que o cachorro do anftrião, sentado na sala, ri muito do filme que passa na tv. Espantado, comenta:

- Rapaz, o teu cachorro está rindo do filme!

- Também achei estranho (responde o dono), ele tinha detestado o livro. 


(Piada chupada do Almanaque da ZH, aqui adaptada para "caber" na figurinha do Bulldog, achada ao acaso)

Um 32 e um 38

               No dia 23 de outubro de 2005 todos os brasileiros foram chamados a decidir a respeito da manutenção, ou não, do texto do art. 35 do Estatuto do Desarmamento (que previa a proibição da comercialização de armas de fogo e munição no território nacional, salvo para as entidades especilamente previstas no próprio Estatuto).
                A consulta popular foi feita através da seguinte questão: "O comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido no Brasil?".
                Ao final,  o "não" alcançou 59.109.265 votos (63,94%), enquanto o "sim"  obteve 33.333.045 votos (36,06%). O Rio Grande do Sul foi o estado em que, proporcionalmente, o "não" obteve a maior "vitória", com 5.353.854 votos (86,83%).
                 Não bastasse o imenso "lobby" da indústria e do comércio ligados ao armamento, determinante para esse resultado foi, sem dúvida, a disseminação de ideias como a de que "o cidadão de bem tem o direito de ter uma arma para exercer sua defesa", ou a de que "não é o cidadão de bem que deve ser desarmado, mas o bandido".
                 Antes de cometer o fuzilamento das crianças na escola de Realengo o assassino se enquadrava no conceito de "cidadão de bem", na medida que sem qualquer antecedente criminal. Estava apto, então, conforme esse entendimento dos opositores do desarmamento, a dispor de arma de fogo e de munição. O fato de as armas por ele usadas na chacina serem "ilegais", bem como de que não tinha "porte" dessas armas, não afastava - até então - sua condição prévia de "cidadão de bem". Além disso, é sabido que a esmagadora maioria do armamento guardado nas casas e veículos neste país são, da mesma forma, obtidas e mantidas clandestinamente por respeitáveis pais de família.
                 Armas de fogo servem exatamente para a finalidade que o matador do suburbio do Rio deu a elas: matar. Quem adquire uma pistola, um revólver, munição, quer, no fundo, no fundo, meter umas balas em alguém (exatamente como o infame carioca fez). Aguarda apenas uma oportunidade.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Palpabilidade

                        Lá na metade dos anos oitenta comprei um videocassete. Philco-Hitachi, grandão e, como era fundamental frisar na época, com "quatro cabeças". Comecei, então, a colecionar filmes em VHS. Uns precariamente gravados direto da televisão, sem muito critério; outros, bem escolhidos, especialmente gravados para mim (meio "na moita") pelo dono de uma videolocadora que ficava ali na praça.
                 Orgulhoso da minha coleção, fui surpreendido, uma vez, por uma pergunta de um amigo a respeito da minha filmoteca: "para que tu queres isso?" Como esse meu amigo, muitas pessoas não se preocupam em ter as coisas. Pensam: se quero ver um filme, pego na locadora; se quero qualquer coisa, busco na internet.
                 Eu, ao contrário, não "funciono" assim. Preciso ter por perto as coisas das quais gosto. À mão. Tenho dificuldade em descartar e com o descartável.Assim como meu velho videocassete e minhas fitas VHS (mofadas e tudo), estão comigo até hoje a máquina de escrever Olivetti Lettera dos tempos de Panambi; meu "som" Technics (incluindo toca-disco e gravador com double cassete deck); assim como centenas de LPs. Todos os meus botões antigos estão guardados, juntamente com os Matchbox da infância. (Acho até que, se, a partir deste momento, passasse exclusivamente à tarefa de ler todos os livros que tenho e ainda não li, a ver todos os filmes que juntei e ainda não vi, a ouvir os discos que estão aqui  e ainda não ouvi, o que me resta de vida não seria suficiente - e  isso que ainda pretendo viver muitos e muitos anos!)

Eu Te Amo (1981)
                  Não me serve o virtual. Preciso tocar as coisas. Para mim elas têm que ter forma, peso, cor, cheiro. Não me conformo com o virtual, o que só está no ar. O virtual não tem a tal palpabilidade que a Sônia Braga e o Pereio imortalizaram em Eu Te Amo.
                 Um tempo atrás um estagiário que estava trabalhando comigo me mostrou, no modernoso celular dele, a fotografia de uma guria muito bonita. Era, segundo disse, a namorada dele. Tinham se conhecido pela internet. Ele morava aqui e ela em... Vila Velha, no Espírito Santo (!). "Namoravam" há semanas e estavam planejando se encontrar em breve.
                 Como o Analista de Bagé, fui curto e grosso: "mandei" que deixasse de ser bobo, que não existe essa estória de namoro virtual!  
                 Acho que a "terapia do joelhaço" funcionou com o (ex)estagiário. Nunca mais falou da guria lá do Espírito Santo. Fiquei sabendo que arranjou um namorado, com quem vive nada virtualmente aqui em Pelotas. 

terça-feira, 5 de abril de 2011

Os hôme de preto, os hôme de preto...

                   Renato Marsiglia é riograndino e ex-árbitro de futebol. Desde que abandonou o apito amigo (da dupla GreNal), passou a ser comentarista da RBS. Vale dizer: passou a ser comentarista dos chamados "grandes", ignorando, olimpicamente, o futebol do interior. Apesar disso, o DP publica semanalmente uma coluna assinada pelo papareia, na qual ele trata dos assuntos ligados aos times da capital (exceto ao Cruzeiro, ao São José ou ao Porto Alegre, que, provavelmente, nem sabe que existem). Numa dessas, reclamou da forma rude como os jogadores dos clubes do interior se comportam contra os "grandes", perigando, assim, machucar algum milionário craque. Já pensou se um qualquer lá do Lajeadense dá uma chegada no Guiñazu (aquela "moça") e tira o cara de um jogaço da Libertadores (como esses que se tem visto, contra gigantes do futebol internacional, como o Boyacá Chicó, o Jorge Wilsterman e o Liverpool charrua!).
                  Outro que segue o mesmo caminho é o nosso glorioso conterrâneo, Leonardo Gaciba. Não tendo mais condições físicas para se manter como árbitro de futebol, aposentou seu apito e, imediatamente, foi contratado pela RBS como "comentarista de arbitragem". Achou perfeitos os 8 minutos de descontos dados "contra o Caxias" no jogo final do 1º turno do Gauchão. Acharia bem adequado, certamente, que estivesse o jogo se desenvolvendo até agora, se o Grêmio não tivesse, naquele "tempo extra", empatado e levado a decisão para os pênaltis.
                   Esse comportamento é ancestral! Comentam conforme apitavam.

No último dia de 1955 a Manchete Esportiva publicou a seguinte crônica de Nelson Rodrigues. (Há 55 anos ainda não existia o comentarista de arbitragem)

O Juiz Ladrão

                    De vez em quando, eu esbarro num saudosista. É um sujeito esplêndido, que vive enfiado no passado. Direi mais: — vive feliz e realizado no passado como um peixinho num aquário de sala de visitas. E convenhamos que isto é bonito, é lindo. Outro dia, um deles atracou-se comigo no meio da rua; arrastou-me para o fundo de um café, e, lá, com o olho rútilo e o lábio trêmulo, pôs-se a falar de Marcos de Mendonça, o “Fitinha Roxa”; da “espanhola”; do assassinato de Pinheiro Machado e do campeonato que o Botafogo tirou em 1910. Mas, nos vinte minutos da conversa retrospectiva, já lhe pendia do beiço uma grossa, uma espuma bovina, uma baba elástica. De mim para mim, compreendi essa nostalgia, louvei essa fidelidade ao passado. Amigos, eis uma verdade eterna: — o passado sempre tem razão.
                    Por exemplo: — o futebol antigo. Era, a meu ver, um fenômeno vital muito mais rico, complexo e intrincado. Hoje, os jogadores, os juizes e os bandeirinhas se parecem entre si como soldadinhos de chumbo. Não encontramos, em ninguém, uma dessemelhança forte, crespa e taxativa. Não há um craque, um árbitro ou um bandeirinha que se imponha como um símbolo humano definitivo. Outrora havia o “juiz ladrão”. E hoje? Hoje, os juizes são de uma chata, monótona e alvar honestidade. Abrahão Lincoln não seria mais íntegro do que Mário Vianna. E vamos e venhamos: — a virtude pode ser muito bonita, mas exala um tédio homicida e, além disso, causa as úlceras imortais. Não acredito em honestidade sem acidez, sem dieta e sem úlcera.
                     Mas ponha-se um árbitro insubornável diante de um vigarista. E verificaremos isto: — falta ao virtuoso a feérica, a irisada, a multicolorida variedade do vigarista. O profissionalismo torna inexeqüível o juiz ladrão. E é pena. Porque seu desaparecimento é um desfalque lírico, um desfalque dramático para os jogos modernos. Vejam vocês que coisa melancólica e deprimente: — um jogo de futebol tem 22 homens. Com o juiz e os bandeirinhas, 25. Acrescentem-se os gandulas e já teremos um total de 29. Vinte e nove homens e nem um único e escasso canalha, nem um único e escasso vigarista! Eis a verdade, que levaria um Balzac ao desespero e à úlcera: — as condições do futebol contemporâneo tornam impraticável a existência do canalha. Ou por outra: — o canalha pode existir, mas contido, frustrado, inédito, sem função e sem destino.
                     Mas em 1918, 17 ou 16, os gatunos constituíam uma briosa fauna, uma luxuriante flora. Evidentemente, havia as exceções. Mas os salafrários podiam apitar as partidas e com que glorioso, com que genial descaro! Certa vez, foi até interessante: — existia um juiz que era um canalha em estado de pureza, de graça, de autenticidade. Um domingo, ele vai apitar um jogo decisivo. Que fazem os adversários? Tentam suborná-lo. Ora, o canalha é sempre um cordial, um ameno, um amorável. E o homem optou pela solução mais equânime: — levou bola dos dois lados. Justiça se lhe faça: — roubou da maneira mais desenfreada e imparcial os dois quadros. Ao soar o apito final, os 22 jogadores partiram para cima do ladrão. Mas o gângster já se antecipara, já estava pulando muros e galinheiros. Era uma figurinha elástica, acrobática e alada. Isto foi em 1917. O juiz gatuno está correndo até hoje.

Encarnando o "juiz ladrão", Otávio Augusto está perfeito no filme Boleiros (1998), de Ugo Giorgetti.