sábado, 31 de dezembro de 2011

Silogismo

Freud queimava cubanos.
Hitler, judeus...
      Dia desses escrevi sobre a desconfiança do Hugo Chávez a respeito da "coincidência" de cinco presidentes sulamericanos (entre eles o próprio) terem sido acometidos recentemente pelo câncer.
       Lembrei-me, quando fazia isso, de já ter lido em algum lugar que os nazistas, quando se decidiram pela "solução final", terem descartado continuar a chacina dos judeus (e dos outros "inimigos do Reich") a bala. Afinal, balas deveriam ser reservadas a uso "mais nobre": às batalhas contra os exércitos aliados.
       Antes de partirem para o uso do Zyklon B, o gás empregado nos infames campos de extermínio, houve, por parte dos "cientistas" alemães, estudos (baseados em horripilantes experiências com cobaias humanas) considerando a hipótese da utilização de Raios X para fins de esterilização em massa. Mas, como o destino da Guerra já se invertia àquela altura, os gastos para tanto não compensariam os resultados, que seriam alcançados somente a longo prazo.
       Procurei entre meus livros esse assunto. Não encontrei o texto específico. Mas, em compensação, no livro Os Cientistas de Hitler - Ciência, Guerra e o Pacto com o Demônio (John Corwell, Imago, 2003), achei algo muito interessante: o registro da preocupação dos nazistas com o câncer. Essa preocupação chegou a ensejar, por parte deles, via de consequência, medidas contra o cigarro (foi à época que restou demonstrada estatisticamente relação entre o tabaco e o câncer de pulmão).
       Conforme Cornwell, "A batalha contra o hábito de fumar incluiu uma gama de medidas que só recentemente foram vistas nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, e que ainda avançam devagar na maior parte da Europa. Os nazistas proibiram o fumo em muitas áreas públicas, incluindo escritórios e salas de espera. Houve proibições à propaganda de cigarros, com referência especial ao fato de os fumantes parecerem varonis, esportivos ou sexualmente atraentes, e ubíquos avisos de saúde visando especialmente os jovens. Ofereceram-se vagões de não-fumantes nos trens, com multas legais. O presidente da Universidade de Jena, Karl Astel, diretor do Instituto de Pesquisas dos Riscos do Tabaco ali,  proibiu o fumo no campus e era conhecido por arrancar cigarros da boca dos alunos. Houve casos até de motoristas presos por causarem acidentes quando fumavam. O tabaco, segundo a propaganda, reduzia a energia para o trabalho, causava impotência nos homens; era um "epidemia", uma "praga", uma forma de "masturbação pulmonar"."
       Com essa, antes da virada do ano vou sair e comprar uma carteira de Minister curto. Nunca é tarde para se começar um hábito nocivo ao autoritarismo.
       (E que se danem - por tabela - a Globo, o Fantástico e o Dráuzio Varela!)

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Gênero

       Morreu a Chita. É, a Macaca Chita, dos filmes do Tarzan. Tinha mais de setenta aninhos e, na verdade... era macho! Isso mesmo: a Macaca Chita era Macaco Chico.
       Isso me fez lembrar coisa parecida que se sucedeu quando da morte de outra famosa personagem roliudiana, a Lassie. Pois é, o mundo ficou sabendo, pasmo, que a Lassie (amiguinha canina da Liz Taylor-criança) também era macho, era cachorro!
       Só falta revelarem, agora, que o Bambi não era viado... 

O feijão e o sonho

Fotografia (fantástica!) de Alexandre Schlee Gomes
(o título, lá em cima, vai por minha conta e risco)  

No creo en brujas, pero...

       Esta semana a Zero Hora publicou notícia - sob a chamada "Suspeita infundada" - de que o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, manifestou, na quarta-feira, desconfiança de que pode não decorrer de simples coincidência o fato de que, assim como ele, Fernando Lugo, Cristina Kirschner, Dilma Rousseff e Lula, terem, num período bem curto de tempo, sido diagnosticados como portadores de diferentes tipos de câncer.
       Sugeriu, com base nas leis das probabilidades, que essa sequência de doenças que acometeram presidentes de países sulamericanos pode não ser obra do acaso.
       Mesmo salientando não ter qualquer prova a respeito, levantou a hipótese de que os Estados Unidos estejam, de alguma forma, por trás de tudo.
       Lembrou os experimentos "médicos" realizados pelos norteamericanos na Guatemala na década de 1940, recentemente revelados (e que mereceram hipócritas pedidos de desculpas por parte do governo Obama).
       Chávez comentou, então, se não seria de se imaginar que os americanos já tenham desenvolvido tecnologia capaz de induzir o câncer e que isso somente venha a ser revelado daqui a uns 50 anos.
       Evidente que Chávez tem suas razões para nutrir a desconfiança que agora expressou publicamente. A paranóia do venezuelano justifica-se pelo manifesto interesse americano de que ele amanheça "com a boca cheia de formiga".
       De resto, como mera "teoria da conspiração", daria um bom thriller, um filme de suspense. O roteiro, para mim, seria bem verossímil (ao contrário do que "pensa" a Zero Hora, pelo que se depreende do título dado à matéria). 

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Boxing Day

       O dia 26 de dezembro, de acordo com a tradição dos países de colonização britânica, é chamado de Boxing Day. Embora nesses países seja feriado público e bancário, o comércio abre e todas as lojas fazem grandes liquidações, ofertando mercadorias com preços reduzidos.
       Aqui no Brasil, mesmo não se tendo nada a ver com essa tradição inglesa, nossas lojas ficam, no dia 26 de dezembro, cheias de gente. É o pessoal que vai ao comércio trocar os presentes que "não serviram" ou "não agradaram" os presentados.


       No Boxing Day o pessoal acaba saindo para tentar "recuperar o prejuízo". Na foto vê-se uma mocinha, coitada, que apesar de ser tamanho P, acabou ganhando de Natal um negão XXG.  

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Casamento (Ângelo Alfonsin)


kama sutra
cama surta

cama salta
cama pula
cama sonho

cama sono
cama calma
cama e mesa
cama ronca
cama engorda
cama quebra
cada um na sua

cama

*publicada hoje no Irresistivelmente inútil (aalfonsin.blogspot.com)

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Grecin 2000 no Bill Bonner

       Vocês viram? Viram a cara de preocupação do Bonner hoje, no Jornal Nacional, fazendo considerações a respeito do perigo que a transição do poder na Coreia do Norte, em razão da morte de Kim-Jong Il, poderá representar? Notaram as mãozinhas dele, se esfregando sofregamente enquanto lia/interpretava o texto que tratava da insegurança das relações entre as duas Coreias e do problema que um eventual acirramento dessas relações poderá gerar para a região "e para os 300 mil militares que os Estados Unidos mantêm por lá".
       Uau! Os Estados Unidos da América têm 300 mil mariners na península coreana! Lá no oriente, prontos para livrar o mundo do "arsenal atômico" nortecoreano (mesmo que para isso tenham que - de novo - fazer uso de um "Little Boy", de um "Fat Man"). Titia Hilária está atenta! Pai Obama não vai deixar barato

Que feio! Quem será que fez isso?

domingo, 18 de dezembro de 2011

Jingoubél, jingoubél...

Calvin & Haroldo - Bill Watterson 


* Quadrinhos colhidos no Facebook, compartilhados pelo amigo Cristian Costa.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Guantánamo

       A Zero Hora deste domingo publicou uma noticiazinha com o título "Flotilha de exilados parte para Cuba". Diz o texto que "Um grupo de exilados cubanos partiu dos Estados Unidos, na sexta-feira para Cuba, onde deve realizar um protesto em águas internacionais contra o histórico desrespeito aos direitos humanos promovido no país. Os manifestantes pretendem usar fogos de artífício para chamar atenção dos habitantes da ilha. Saída de Key West, na Flórida, a embarcação pretende ficar a 20 quilômetros de distância de Havana.".
       Ao ler a notícia fiquei pensando se tal manifestação, com o uso de fogos de artifício, não vai acabar perturbando os Mariners instalados em Guantánamo, campo de concentração mantido pela "maior democracia do planeta" em pleno solo cubano.
E o Obama, hein?! Bush colored!
       Sobre o assunto Cuba/Estados Unidos, o BF sugere a leitura do livro Os Últimos Soldados da Guerra Fria (Companhia das Letras), de autoria de Fernando Morais (que recentemente esteve aqui em Pelotas, autografando a obra na Feira do Livro).

domingo, 11 de dezembro de 2011

A foto de Dilma (por Moisés Mendes)*

Dilma: "Sabe por que gosto daquela foto?
Porque ela é verdadeira. Foi o que aconteceu."
        Enquanto alguém fotografava Dilma Rousseff naquele interrogatório da Auditoria Militar do Rio, você fazia o quê? Você que era jovem, com idade para duelar com a ditadura e cometer loucuras em nome da democracia ou de uma revolução, o que você fazia naquele novembro de 1970 enquanto Dilma encarava os militares com o nariz empinado e você nem sabia que Dilma existia?
       Admita: você, seus irmãos, seus colegas, seus vizinhos não faziam quase nada. Eu confesso: tinha 17 anos, dormia escutando as baladas da Rádio El Mundo de Buenos Aires e acordava pensando no milagre que eliminaria minhas espinhas da cara. Como nos empurraram para a alienação naquele 1970, em Alegrete ou em Porto Alegre!
       E agora você, que tem hoje a idade de Dilma em 1970, que tem 22 aninhos, que já postou mais de mil fotos suas no Facebook: você já tem uma foto síntese como aquela de Dilma? Tem a imagem que revele sua alma, que dispense legendas, que esteja para você como a Mona Lisa está para todas as mulheres e como a Guernica de Picasso está para todas as guerras? Você tem uma imagem que tenha condensado tudo de você?
       Se ainda não produziu a foto reveladora de sua presença neste mundo, não se penitencie. A foto de Dilma é única. Não acredite na conversa de que todos os jovens daquele 1970 enfrentavam a ditadura com o olhar de laser de Dilma. Os jovens de 1970 estavam anestesiados por quatro anos de regime militar, pelo Tri no México, pela censura.
       A edição número 115 da Veja, de 18 de novembro daquele 1970, trazia esta capa: Em quem os jovens votaram. A repotagem tratava de uma pesquisa com mil jovens de 18 a 22 anos, de São Paulo, Rio, Porto Alegre e Recife, que votaram pela primeira vez no dia 15  daquele mês para eleger senadores e deputados.
       Algumas revelações da pesquisa: 52% não sabiam por que os militares fizeram o golpe de 64; outros 25% disseram que o golpe evitara o comunismo; 71% achavam que o povo estava feliz com a situação do país; 51% dos jovens gaúchos votariam na Arena (o partido do governo) e 44% no MDB (da oposição); e 55% de todos os pesquisados no país votaram "por obrigação" (só 10% entendiam que votar era um direito). E quem tinha sido Oswaldo Aranha? 83% não tinha a menor noção. E qual seria a nota para o presidente Médici? Um 8,4. E assim por diante.
       Na eleição, de 70, o MDB levou uma lambada de dois votos por um da Arena. A Arena elegeu 41 senadores e 223 deputados federais. O MDB, apenas seis senadores e 87 deputados. No estado, Daniel Krieger e Tarso Dutra, arenistas, foram eleitos senadores com o dobro de votos dos emedebistas Paulo Brossard e Geraldo Brochado da Rocha.
       Foi uma goleada do partido do governo, com o voto faceiro dos jovens. Vão dizer que havia a campanha do voto nulo, que o país ainda estava confuso, que faltava coesão ao MDB, aos democratas e às esquerdas. Nessa confusão, os jovens eram, como escreveu Mino Carta, o diretor de Veja, "pouco politizados, muito práticos e eventualmente ingênuos".
       Éramos alienados, seu Mino. Jovens com o perfil de Dilma, comunistas, democratas ou anarquistas, que provocaram o confronto do regime com suas próprias vergonhas, eram quase todos da minoria da militância estudantil. Só leve a sério quem aparecer contando vantagem, com histórias de resistência e bravura naquele 1970, se conhecer sua trajetória.
       A foto de Dilma no interrogatório não é a síntese da juventude brasileira de quatro décadas atrás. É apenas a foto de uma moça destemida diante de dois homens torturados pela desonra.

*Jornalista da Zero Hora, na qual este artigo foi publicado (edição deste domingo, 11 de dezembro).

sábado, 10 de dezembro de 2011

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Eu hoje não tô bom...

Foto da Flor

Comemorar o medo

       Nascido em 1955, Mia Couto (António Emílio Leite Couto) é o mais famoso escritor moçambicano, já tendo publicado 28 livros (traduzidos e distribuídos em 27 países), que lhe renderam inúmeras premiações, especialmente no exterior. Quando jovem, abandonou o Curso de Medicina para se juntar à luta anti-colonialista em Moçambique. Após a independência do seu país, em 1975, trabalhou como jornalista em Maputo por mais de dez anos. Licenciado em Biologia, atualmente realiza pesquisas na área ambiental no seu país. 


       Em 2011, Mia participou das Conferências de Estoril, em Portugal, quando personalidades do mundo todo trataram do tema "segurança". Entre os participantes, foi o único escritor. E, por ser escritor, optou por ler o breve (mas preciso) texto que escrevera e ao qual dera o título "Comemorar o medo". Vale a pena ver, ouvir e ler o recado dele a todos:

       "O medo foi um dos meus primeiros mestres. Antes de ganhar confiança em celestiais criaturas, aprendi a temer monstros, fantasmas e demônios. Os anjos quando chegaram, já era para me guardarem. Os anjos atuavam como uma espécie de agentes de segurança privada das almas. Nem sempre os que me protegiam sabiam da diferença entre sentimento e realidade. Isso acontecia, por exemplo, quando me ensinavam a recear os desconhecidos. Na realidade a maior parte da violência contra as crianças, sempre foi praticada, não por estranhos, mas por parentes e conhecidos. Os fantasmas que serviam na minha infância reproduziam esse velho engano: de que estamos mais seguros em ambientes que reconhecemos. Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais protegido apenas por não aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura e do meu território. O medo foi, afinal, o mestre que mais me fez desaprender.
       Quando eu deixei a minha casa natal, uma invisível mão roubava-me a coragem de viver e a audácia de ser eu mesmo. No horizonte vislumbravam-se mais muros do que estradas. Nesta altura algo me sugeriu o seguinte: que há neste mundo mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas. No Moçambique colonial onde nasci e cresci, a narrativa do medo tinha um invejável casting internacional: os chineses que comiam as crianças, os chamados que turistas lutavam pela independência, e um ateu barbudo com um nome alemão. Esses fantasmas tiveram o fim de todos os fantasmas: morreram quando morreu o medo. Os chineses abriram restaurantes à nossa porta, os ditos turistas são hoje governantes respeitáveis, e Karl Marx, o ateu barbudo, é um simpático avô que não deixou descendência.
       O preço dessa construção de terror foi, no entanto, trágico para o continente africano. Em nome da luta contra o comunismo, cometeram-se as mais indizíveis barbaridades. Em nome da segurança mundial foram colocados e conservados no poder alguns dos ditadores mais sanguinários de toda a História. A mais grave desta longa herança da intervenção externa é a facilidade com que as elites africanas continuam a culpar os outros pelos seus próprios fracassos. A guerra fria esfriou, mas o maniqueísmo que a sustinha não desarmou, inventando rapidamente outras geografias do medo a oriente e ocidente. E porque se trata de entidades demoníacas, não bastam os seculares meios de ordenação, precisamos de intervenção com legitimidade divina. O que era ideologia passou a ser crença, o que era política tornou-se religião, o que era religião passou a ser estratégia de poder. Para fabricar armas é preciso fabricar inimigos. Para produzir inimigos é imperioso sustentar fantasmas. A manutenção desse alvoroço requer um dispendioso aparato e um batalhão de especialistas que, em segredo, tomam decisões em nosso nome. Eis o que nos dizem: “Para superarmos as ameaças domésticas, precisamos de mais polícia, mais prisões, mas segurança privada, e menos privacidade. Para enfrentarmos as ameaças globais precisamos de mais exércitos, mais serviços secretos, e a suspensão temporária de nossa cidadania”. Todos sabemos que o caminho verdadeiro tem que ser outro. Todos sabemos que esse outro caminho poderia começar, por exemplo, pelo desejo de conhecermos melhor esses que de um e de outro lado aprendemos a chamar de “eles”. Aos adversários políticos e militares, juntam-se agora o clima, a demografia e as epidemias. O sentimento que se criou é o seguinte: a realidade é perigosa, a natureza é traiçoeira, e a humanidade é imprevisível. Vivemos como cidadãos e como espécie, em permanente situação de emergência. Como em qualquer outro estado de sítio, as liberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode ser invadida, e a racionalidade deve ser suspensa. Todas essas restrições servem para que não sejam feitas perguntas, como por exemplo, estas: por que motivo a crise financeira não atingiu a indústria de armamento? Por que motivo apenas no ano passado se gastou um trilhão e meio de dólares em armamento militar. Por que razão os que hoje tentam proteger os civis na Líbia, são exatamente os que mais armas venderam ao coronel Kadafi? Por que motivo se realizam mais seminários sobre segurança do que sobre justiça?
       Se queremos resolver, e não apenas discutir, a segurança mundial, temos que enfrentar ameaças reais e urgentes. Há uma arma de destruição massiva que está sendo utilizada todos os dias, em todo mundo, sem que seja preciso o pretexto da guerra. Essa arma chama-se fome. Em pleno século XXI, um em cada seis seres humanos passa fome. O custo para superar a fome mundial seria uma fração, muito pequena, do que se gasta em armamento. A fome será, sem dúvida, a maior causa de insegurança do nosso tempo. Menciono ainda outra silenciosa violência: em todo mundo, uma em cada três mulheres, foi ou será vítima de violência física ou sexual durante o seu tempo de vida. É verdade que sobre uma grande parte do nosso planeta, essa é uma condenação antecipada pelo fato, simples, de serem mulheres. A nossa indignação porém, é bem menor que o medo. Sem nos darmos conta, fomos convertidos em soldados de um exército sem nome e como militar sem farda deixamos de questionar. Deixamos de fazer perguntas e discutir razões. As questões éticas são esquecidas por estar provada a barbaridade dos outros. E porque estamos em guerra, não temos que fazer prova de coerência, nem de ética, nem de legalidade. É sintomática que a única construção humana que possa ser vista do espaço, seja uma muralha. A Grande Muralha foi erguida para proteger a China das guerras e das invasões. A Muralha não evitou conflito nem parou os invasores. Provavelmente morreram mais chineses construindo a Muralha do que vítimas das invasões que realmente aconteceram. Dizem que alguns dos trabalhadores que morreram foram emparedados na sua própria construção. Esses corpos, convertidos em muro e pedra, são uma metáfora do quanto o medo pode nos aprisionar. Há muros que separam nações; há muros que dividem pobre dos ricos; mas não há, hoje no mundo, muros que separem os que têm medo dos que não têm medo.
       Sob as mesmas nuvens cinzentas vivemos todos nós: do sul e do norte, do ocidente e do oriente. Citarei Eduardo Galeano acerca disto, que é o medo global. E diz ele:“Os que trabalham têm medo de perder o trabalho; os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho. Quando não têm medo da fome, têm medo da comida. Os civis têm medo dos militares, os militares têm medo da falta de armas, e as armas têm medo da falta de guerras”. E se calhar, acrescento agora eu: há quem tenha medo que o medo acabe."

sábado, 3 de dezembro de 2011

Viagem mexicana (por Andrey Schlee)

         Ari:
       Voltei do México! Foram dez dias espetaculares!! Desta vez visitei Guadalajara e Zapopan (Jalisco) e Mérida (Yucatán). Participei de dois colóquios sobre patrimônio cultural como “conferencista magistral”. Foi realmente muito bom! Também compareci a 25º FIL – Feira Internacional do Livro de Guadalajara, a segunda maior do mundo (que só perde para a de Frankfurt). Entre milhares de livros, autores e leitores, pude encontrar algumas raridades. Entre elas os escritores Mário Vargas Llosa (Nobel em 2010) e Herta Müller (Nobel em 2009), que não são meus favoritos...
       Mas estou escrevendo para contar outra estória de avião. Desta vez, sentei na poltrona da janela. A central coube a um senhor mexicano engravatado que, cuidadosamente retirou e dobrou seu paletó, guardando-o, com o mesmo zelo, na parte superior do avião. Na hora do jantar, uma aero-gorda nos ofereceu: “– carne, frango ou massa?” Eu optei por massa, enquanto o meu vizinho atirou-se na carne com legumes. Ao abrir o escaldante pacotinho prateado, servido em bandeja com pão e “mantequilla”, percebi que se tratava de “penne” com molho branco gratinado (ou seja, uma paçoca branca...). Na primeira garfada que dei, ocorreu o desastre! O garfinho de plástico transparente, como uma poderosa catapulta, atirou um “penne” na camisa do hermano mexicano (que, felizmente, não percebeu a condecoração italiana...). Nervoso, continuei na batalha entre lágrimas de risos e nervosismo (afinal ele estava comento CARNE!). Muito simulado, bolei um plano. Quando o pessoal de bordo ofereceu a segunda rodada de bebidas, aproveitei o momento de desatenção do vizinho e apliquei-lhe um único e certeiro “pimbarote” (sic) jogando a massinha no espaço sideral... A operação foi um sucesso! Apenas sobrou uma gordurinha como prova de meu  involuntário crime (e que bem poderia ser da CARNE!).
       Trinta minutos mais tarde, quando já estava me preparando para dormir, eis que descubro, colada na calça de outro passageiro (sentado nas poltronas centrais do avião!), a minha velha, resistente e grudenta massinha... No mais, a viagem foi sem turbulências.
       Andrey
      PS: mando a foto da aeromoça mexicana conferindo a documentação.
Srta. Garcia

I'm free

Ken Russell
       Na semana passada, dia 27 de novembro, morreu o cineasta inglês Ken Russell, aos 84 anos. Nascido em Southampton, foi batizado com o pomposo nome Henry Kenneth Alfred Russell. Quando jovem chegou a engajar-se à marinha mercante britânica e, depois, teve uma passagem pela Royal Air Force. Nos anos 60 e 70 trabalhou na BBC (especialmente dirigindo documentários). Para o cinema, seu primeiro filme foi Mulheres Apaixonadas (uma "adaptação livre" do clássico de D. H. Lawrence). Sua obra contém outros títulos importantes, vários deles ligados à música e a grandes compositores clássicos.
       Foi Ken Russell que dirigiu (em 1974) meu filme favorito. Na verdade meu conceito de "filme favorito" é amplo, admitindo nesse singular um plural: meu filme favorito "são" vários (O Ouro de Mackenna, Jesus Cristo Superstar, Minha Vida de Cachorro, Vá e Veja, Um Dia Perfeito, Pulp Fiction, por exemplo). São os que revejo sempre e sempre gosto de rever.
       Estou falando de Tommy. Acho que vi Tommy, pela primeira vez, no Cine Pelotense, quando lançado por aqui. Adorei! Uma novidade aquela "ópera rock" do Who (conjunto inglês que conhecia através do Ângelo, amigo que carregava no porta-luvas do fusca branco dele um montão de fitas cassete, entre as quais algumas dos britânicos).
Tommy
       Tommy era diferente de qualquer músical visto antes. Roger Daltrey - vocalista do Who - interpreta o cara que, ainda criança, sofreu um trauma, ficando cego, surdo e mudo e, mesmo assim, se tornou um ídolo, campeão de fliperama e líder espiritual. Ótimos nos papéis coadjuvantes, Oliver Reed (o padrasto), Ann-Margret (a mãe) e Jack Nicholson (médico safado), cantam convincentemente. Rock a mil, pelo Who (leia-se Pete Townsend, Keith Moon e John Entwistle) e por mais um punhado de estrelas do nível de Eric Clapton, Tina Turner e Elton John.
       Em homenagem ao falecido, aí vai Pinball Wizard, com o Elton John e The Who (botando para quebrar, "literalmente"):


PS: aí Ângelo, o resto é contigo...

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Intolerância máxima (por Cláudio Brito)*

       Não sou igual ao senhor Bolsonaro. Sua intolerância, se fosse minha também, me inspiraria a chamá-lo de retrógrado, preconceituoso, fascista ou neonazista. Não vou por aí. Compreendo que existem milhares de pessoas como o deputado que o Rio de Janeiro reelegeu várias vezes. Votam para premiar sua arrogância, seus excessos de linguagem e seu descompasso com o tempo. Votam como todos, projetando-se, votando em quem pensa e age como o eleitor. O que nos espanta , mas não pode atemorizar.
       À máxima intolerância de Jair Bolsonaro e seus seguidores, respondamos com a tolerância que sintoniza com a liberdade de expressão.
       Essas pessoas têm o direito de dizer o que bem entenderem. Melhor que digam. Assim, fora das tocas e do submundo em que vivem, dando-se a conhecer, serão responsabilizadas. É esse o sistema, ou deve ser.
       Diga o que quiser e pague pelos excessos.
       É proibido proibir. Arquem todos pelas consequências sobre o que fizerem ou disserem.
       O senhor Bolsonaro feriu o decoro parlamentar? Que o atentado ganhe a resposta de séria apuração e justo julgamento.
       Há quem esteja indignado porque o deputado "acusou" Dilma Rousseff de simpatia ou gosto pela homossexualidade. E desde quando dizer que alguém tem esta ou aquela tendência é uma acusação? Não existe acusação, pois não há crime algum em ser ou admitir-se homossexual. Só na cabeça vazia ou mal preenchida dos intolerantes.
       Quem não peca pela intolerância desaprova, não aceita e repele, mas não impede um intolerante de praticar seus disparates. Só não se põe a rir do que diz o intolerante porque, na verdade, o que cabe talvez seja chorar. De vergonha e de pena. Com a advertência e a atenção que impeçam o avanço de ideias que nos lembram os trogloditas. Por isso, tolerância é a oposição certa ao retrocesso que os "bolsonaristas" pretendem. Sermos tolerantes é o que nos autoriza a conhecer o que pensam verdadeiramente os que pregam democracia querendo o autoritarismo.
       O grave, significativo e preocupante no discurso de Bolsonaro é a sinalização de que há muitos como ele. Falem à vontade, expressem livremente os horrores de seus ideais, melhor assim. Ouvindo-os é que saberemos quem são e quantos são. Para combatê-los no campo da democracia e da liberdade. Tolerando-os, assegurando-lhes todos os direitos e prerrogativas, mas levando-os à responsabilização.
       Se eu fosse igual ao Bolsonaro - Deus me livre disso -, diria que ele é um retrógrado, preconceituoso, fascista ou neonazista. O que se estenderia aos que o elegeram. Não posso fazê-lo. Há muita gente que se enganou votando nele, tenho certeza. A generalização seria outro pecado. O que o Brasil precisa é saber muito bem quem é Bolsonaro. Para responsabilizá-lo e impedir que outros preconceituosos vinguem e triunfem.

*Artigo publicado na Zero Hora de ontem.

"O conflito do homofóbico é que a homossexualidade deve ser eliminada do planeta porque a homossexualidade lhe é tentadora, convidativa e perturbante."

Vivendo e aprendendo, hein, Dona Maria?!

Por que em português os dias da semana acabam em "feira"?
Boicote à mitologia romana começou no século 5 em Braga e dura até hoje.

       O Sol, a Lua e os deuses da mitologia romana (que batizaram os primeiros planetas descobertos: Saturno, Júpiter, Marte, Vênus e Mercúrio) são os homenageados nos dias da semana em quase todos os idiomas ocidentais. Na língua inglesa, os agraciados são deuses nórdicos - Tyu (irmão de Thor) em Tuesday, Odin em Wednesday, Thor em Thursday e Fraye em Friday. Os portugueses, no entanto, quebraram essa tradição.
       Roma chamava os dias de Solis dies (dia do Sol, domingo), Lunae dies (dia da Lua, segunda), Martis dies (dia de Marte, terça), Mercurii dies (dia de Mercúrio, quarta), Iovis dies (dia de Júpiter, quinta), Veneris dies (dia de Vênus, sexta) e Saturni dies (dia de Saturno, sábado). O imperador Constantino (272-337), cristão, mudou Solis dies para Dominica dies, o dia do Senhor. Em português, acabou virando "domingo". No século 5, Martinho de Dume, bispo de Braga (noroeste de Portugal), iniciou forte campanha para substituir os nomes pagãos dos dias por expressões da liturgia católica: feria secunda, tertia feria, quarta feria, quinta feria, sexta feria. Feria, em latim, significava "dia de festa", "dia de descanso". Mas seu sentido, por força do cristianismo, alterou-se para "dia sagrado". Assim, Portugal, depois de chamar os dias de domingo, lues, martes, mércoles, joves, vernes e sábado, passou a ser o único país do mundo a usar a forma canônica para os dias úteis, mantendo o "domingo" e criando "sábado" a partir de shabbat - o dia de repouso na tradição judaica. Martinho, que virou santo, também tentou mudar o nome dos planetas, mas isso ele não conseguiu.
       Apesar do nome em português, a segunda-feira é, para a International Organization for Standardization (ISO), o primeiro dia da semana.

       Este texto foi retirado da revista Aventuras na História (Abril, ed. 98), que se encontra nas bancas. A informação contida no seu último parágrafo me faz lembrar da vizinha cidade de Rio Grande, de marcante influência lusitana. Logo ali, depois do São Gonçalo - sempre ressaltava o Fernando Lessa Freitas (filho de portugueses, diga-se) - havia a tradicional "Esquina da Sorte", que ficava localizada no meio de uma quadra; a Quinta, que, na realidade, era a quarta estação da linha férrea entre Pelotas e Rio Grande; a Junção, onde os vagões dos trens eram separados; o Povo Novo, que, em verdade, é o povoado mais antigo da região... 

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Grandes quadrinhos III

ANGELI

  


*Essas geniais tirinhas foram copiadas da revista Histórias de Amor (Chiclete com Banana Especial, nº 23A - Ed. Circo - 1990)

Mondo cane

       Está na Internet a notícia de que foi preso na Flórida, Estados Unidos, um "falso médico" que, pelo equivalente a R$ 1.200,00, injetou uma mistura de cimento, cola e selante de pneu na bunda de uma "paciente" (a qual, em decorrência dessa "intervenção", veio a sofrer sérias complicações de saúde). O tal médico, Oneal Morris, já teria feito a mesma coisa em outras mulheres e nele próprio que, conforme se vê nas fotos abaixo, "tem formas femininas".
Foto: Reprodução de TV       Ouvido a respeito da acusação, Dr. Morris alegou inocência. Disse que só está interessado na difusão do kuduro.

domingo, 20 de novembro de 2011

Vereditos (por Cláudio Moreno)*

      Num restaurante da capital, os ocupantes da mesa ao lado, mais interessados na bebida que na comida, discutiam se filé a pé leva ou não leva acento de crase. Estão naquele "leva", "não leva", quando um deles me reconhece e me cumprimenta. "Pronto", pensei, "sobrou para mim". E não deu outra, porque lá veio a consulta: "Professor, aprendi com o senhor que filé à Osvaldo Aranha leva acento porque se subentende à moda, e estou aqui tendo um trabalhão para provar para eles que filé a pé não é a mesma coisa; se não tem moda, não tem crase. Qual é o seu veredito?". "Você está certo, certíssimo", respondi. "O filé a pé, assim como o filé a cavalo, não são pratos batizados em homenagem a alguma celebridade, como o filé à Chateaubriand. Meu ex-aluno comemora ruidosamente sua vitória moral, e já estou sentindo uma ponta de remorso por tê-lo subestimado em seu tempo de estudante quando ele, para tripudiar ainda mais sobre os amigos, acrescenta: "E filé a cebolado também não tem, não é?". Como dizia o Millôr, pano rápido!

- Garçom: o meu com bastante crase, por favor!

*Texto publicado no caderno Cultura, da Zero Hora de ontem.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Photoshopagem alternativa

"Veja errou..."

      Sob o título "Refluxo gregoriano", em 18 de outubro postei: olhando para o chão/o homem reconheceu a própria cara/na do sapo entocado/em que recém escarrara. O "gregoriano" do título evidentemente fazia referência ao poeta Gregório de Mattos (o "Boca do Inferno"), a quem, erroneamente, atribuia a autoria dos célebres versos "O beijo, amigo, é a véspera do escarro/A mão que afaga é a mesma que apedreja". Na verdade, Gregório de Mattos nada tem a ver com isso, nem com beijo, nem com escarro (muito menos com sapo entocado!). Os versos que justificavam a citação são de outro poeta, Augusto dos Anjos - sequer contemporâneo dele.
       Ainda bem que não preciso fazer a prova do Enem! Aliás, os professores de Literatura reclamam que esse tipo de conhecimento não é cobrado no Enem.


Gregório de Mattos e Guerra nasceu em Salvador, na Bahia, em 1633. É considerado o primeiro de nossos poetas satíricos. Apelidado de "Boca do Inferno", tinha a "língua destravada" e "fácil veia poética". Estudou humanidades em Portugal, completando o Curso de Direito na Universidade de Coimbra. Chegou a exercer a magistratura em Portugal.  Por aqui, foi por algum tempo protegido do arcebispo da Bahia. Entretanto, devido a seu comportamento pouco ortodoxo, perdeu esse peneplácito, sendo degredado para Angola. Posteriormente, reabilitado, voltou ao Brasil, indo morar em Recife, onde morreu em 1696. Além de versos satíricos e humorísticos, escreveu poesias eróticas com grande incontinência verbal.  É o patrono da cadeira n.º 16 da Academia Brasileira de Letras.

A UM LIVREIRO QUE HAVIA COMIDO
UM CANTEIRO DE ALFACES COM VINAGRE

Levou um livreiro a dente
de alface todo um canteiro,
e comeu, sendo livreiro,
desencadernadamente.
Porém, eu digo que mente
a quem disso o quer taxar;
antes é para notar
que trabalhou como um mouro,
pois meter folhas no couro
também é encadernar.

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos nasceu no interior da Paraíba, em 1884. Desde muito cedo era tido por "doentio e nervoso". Formou-se na Faculdade de Direito do Recife (mas não chegou a exercer profissão ligada à área jurídica, ganhando a vida como professor de português e de geografia). Teve somente um livro publicado, "Eu", em 1912, que é considerado parnasianismo sob alguns aspectos e simbolista sob outros. Nele "canta a degenerescência da carne e os limites do humano". Morreu de pneumonia aos trinta anos de idade, em 1914. Ignorado na sua época, tornou-se, com o passar do tempo, um dos poetas de maior aceitação popular no país.

VERSOS ÍNTIMOS

Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - essa pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro, 
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija! 

*BF consultou "Roteiro Literário de Portugal e do Brasil - vol 2" (Ed. Civilização Brasileira, 1966), de Álvaro Lins e Aurélio Buarque de Hollanda,  para aplacar sua ignorância. A do responsável pelo blog, evidentemente. 

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Direto da eletrola


O disquinho, com Os Santos
       Apesar de ter sido campeão da Copa Governador do Estado em 1972, no ano seguinte o Grêmio Esportivo Brasil (por causa dos sérios problemas financeiros que atravessava) viu-se na contingência de "licenciar-se", deixando, assim, de participar das atividades oficiais da FGF durante dois (longos) anos.
       Voltou em 1975, numa divisão inferior (com Tino na zaga e Bino de centroavante!). O retorno xavante rendeu um samba, de autoria de José C. Braga, que, tempos depois, foi gravado pelOs Santos no lado B de um compacto simples de vinil (a raridade que ilustra esta postagem). Vale a pena ouvi-la no endereço  http://www.blogxavante.com/2011/10/07/audio-volta-xavante/, apreciando os doídos versos:

O recesso terminou
O Xavante voltou
Ô ô ô ô ô
A alegria do povo chegou

Os contrários me diziam
O teu time fechou
Mas agora eu respondo
Nosso Xavante voltou

O recesso terminou
O Xavante voltou
Ô ô ô ô ô
A alegria do povo chegou

O futebol da cidade
Estava acabado
Com a volta do Xavante
Ele foi ressuscitado

sábado, 12 de novembro de 2011

Cartas do Rio IV

       Ari:
       Nos últimos dias estive em Nova Friburgo. A cidade, em janeiro de 2010, foi terrivelmente afetada por uma tragédia que envolveu inundações, desabamentos de edifícios e deslizamentos de terra. A coisa foi realmente feia e resultou em centenas de mortes. As marcas de tal tragédia ainda podem ser constatadas por todos os lados. Ou seja, Nova Friburgo mostra-se como um triste exemplo da maneira irresponsável de construir cidades e de tratar a natureza. A população local está traumatizada e apreensiva. As chuvas de verão brevemente chegarão... Pouco foi feito e vários integrantes da administração municipal encontram-se afastados por desvio de recursos públicos. A coisa toda é muito triste!!!
       No entanto, durante a viagem Rio-Friburgo, para variar, o meu motorista perdeu o rumo, necessitando pedir informações. Paramos na frente de uma grande construção. Um hospital psiquiátrico. Na fachada estava escrito: “Somos loucos por você!”. Ao lado do simpático manicômio, havia uma padaria divertidamente chamada de “Miolo Mole”. Viva o bom humor! Viva o politicamente incorreto! Viva Nova Friburgo!
       Andrey

Em primeiro plano, o hotel onde fiquei
 

Até Urutu, Brutus?

       A Zero Hora propôs aos seus leitores que, através do endereço debates@zerohora.com.br, opinassem sobre "como podem ser evitados vazamentos, fraudes e erros nas provas do Enem?".
       Então, na semana passada, assinado-se "Luiz Franco, de Manaus", um velho conhecido deste BF, Ariovaldo Teixeira, respondeu: "É só dizer que o Enem é assunto de segurança nacional e colocar na pasta da Defesa. Os militares têm as melhores instituições de ensino do país, do Fundamental ao Superior e o MEC já provou que não consegue fazê-lo."
       Puxa vida, que saudades no Newton Cruz, do Leônidas Pires Gonçalves, do Otávio Medeiros e de gente da estirpe desses generais. Segurança Nacional é coisa séria, devendo ser tratada por gente que manja da "inteligência". Colocar o Enem na "pasta" deles é garantia de que a coisa vai funcionar, por certo.


A menos que tudo exploda antes do tempo! 

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O orfeão do Santa Margarida

       Houve uma época em que eu pensava assim: "estudei toda minha vida no Santa Margarida". Claro, a minha perspectiva era de quem tinha menos de duas décadas de existência. Então, os onze anos (da 1ª Série do Primário à 3ª do 2º Grau) em que estudei no colégio verde e branco da Anchieta eram, pelo menos, "a maior parte da minha vida".
       Foi lá que tive minha única experiência com a música. Não com o gosto por ouvir música, que eu nem tinha quando criança e adolescente. Mas a experiência de cantar (ou  tentar cantar). Foi no tempo que o colégio mantinha seu orfeão, ou seja, um grande coral, composto pelos alunos todos, dos mais novos aos mais velhos, sob o comando da inesquecível professora Eunice Lamego.
       Dona Eunice era uma figura pequeninha, frágil, mas que impunha respeito aos alunos que lotavam, duas vezes por semana, o auditório. Sob o comando dela aprendemos todos os hinos possíveis - do nacional, evidentemente, ao do Santa Margarida (que até hoje me arrepia e que começava com os versos "Aos acelos da glória e da alegria/a dominar os corações e a mente/percorremos a estrada que nos guia/a ciência e a verdade onipotente". Também cantávamos os hits ufanistas de então, como "Eu te amo, meu Brasil" e "Este é um país que vai para a frente" (estávamos em plena ditadura militar!), músicas do Roberto Carlos ("Debaixo dos caracóis dos seus cabelos" e "Jesus Cristo") e coisas do folclore ("Balaio", "Coco Peneruê). Ah, pelo menos uma gospel, em inglês, que falava da travessia do River of Jordan (!) e, por incrível que pareça, num colégio ligado à Igreja Anglicana, uma música que perguntava: "quem é esse cacique/glorioso e guerreiro/é Oxossi em seu cavalo/com seu chapéu de banda"... e lá iam as vozes da gurizada, uníssonas: "é de Aruanda-ê/é de Aruanda-á". Puro sincretismo!


Acima, nosso orfeão, numa pausa do ensaio.
Quase todos os que são identificáveis na fotografia pertenciam à quinta série do nosso saudoso Margarida.
O ano: 1971!
De frente, olhando para o "retratista": Maria Brasília (nasceu no dia da fundação da "nova" Capital Federal), Ivan Medeiros (nosso regente-mirim, que hoje se assina Iwan), Luciano Piltcher (envergando o uniforme da escola), Victor de Paula Palombo (tenho notícia de que virou militar) e um menino mais novo, cujo nome não lembro. Na segunda fileira: Fani Lewin (tem loja de produtos Hering na Osório), Lourdes Helena Pereló (era nossa vizinha; encontro de vez em quando, no súper), Ana Lúcia Guimarães (a filha do diretor, Rev. Eloí), Miriamar Barcelos (nunca mais vi), Marcel Power de Oliveira (é psicólogo, acho) e Dulce Rosane Timm (filha do Rudi, que trabalhava no colégio). Mais atrás, Walter Edemar Pottin (o CDF da turma), eu e Álvaro "Gordorréia" (já falecido). Bem no cantinho, à direita, a prima Claudia Schlee Gomes (que, como o Álvaro, não era da minha aula).

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Jaguar


Essa o BF foi buscar no fundo do baú: nA Vida Sexual do Jaguar (Ed. Codecri, 1979)

domingo, 6 de novembro de 2011

Jaguarense (por Andrey Schlee)


       A sensação que tenho é que ele sempre esteve ali. Ou eles... De um lado, um casarão com dez sacadas, e de outro, outro, mas com doze! Dois palacetes, dois edifícios singulares, dois clubes, muitas lembranças. Sobre cada porta central, na platibanda, uma estatueta. Simbólicas figuras femininas representativas do Harmonia e do Jaguarense. Clubes sociais e recreativos mantidos por estratos de uma mesma classe dominante em competição, por vezes, incessante. Separando os dois, um pavoroso hotel Sinuelo. Ligando os dois, um conjunto infinito de memórias...
       E é exatamente por isso que a sensação que tenho é que ele sempre esteve bem ali. Na tradicional esquina da Praça Alcides Marques com a rua Carlos Barbosa.
       No Jaguarense desfrutei de muitos bailes infantis. Vestindo “badeca” e camiseta listrada comprada nas Pernambucanas aproveitei cada momento burlesco. De bermuda, arrastava meus joelhos pretos no piso do salão principal. Como era divertido catar confetes! Algo psicodélico, piso geométrico desenhado pelo meu pai com confetes multicoloridos... Nas noites de carnaval, o programa era esperar o corso. Em torno da meia noite as rainhas chegavam, ou passavam. Carros alegóricos, as respectivas cortes, alguns mascarados e dois ou três bêbados (os cachorros fugiam com o estrondo dos foguetes!). Os adultos acompanhavam o desfile até os clubes e os bailes finalmente iniciavam. Os velhos e as crianças voltavam para casa. Certa vez, orgulhoso, vi passar um carro desenhado pelo pai. Era do Jaguarense, com uma rainha branca, uma choupana africana e dois grandes coqueiros. Segundo a Danda, era coisa de dar inveja ao carnaval carioca...
       No Jaguarense, frequentei pelo menos um memorável baile de debutantes – eu, o Carlos e a Cláudia (mas essa é outra estória). Um Clube onde o tio Tato não permitia beijos na boca!
       Também no Jaguarense participei de meu único campeonato de botão, jogando com todos aqueles craques, especialmente os baianos (o Dartanhã, o Jomar, o Hozaná, o Bury). O campeão foi outro baiano, mas com nome estranho: Moscovits. Foi também no Jaguarense que o Ari (Aldyr) mostrou que era bom mesmo! Sagrando-se campeão brasileiro de futebol de mesa em 1986(*). Por outro lado, o Cruzeiro do pai foi só uma bela promessa... E o Artigas nem decolou! Mas deixou saudades...
       Por tudo isso, e muito mais, quando o pai me mandou uma mensagem contando que o forro do Jaguarense havia desabado, eu não acreditei. Quando recebi um telefonema da Superintendente do IPHAN no Rio Grande do Sul, relatando a tragédia de Jaguarão, eu relutei em ouvi-la. Quando as primeiras fotos do Clube arruinado foram colocadas na minha mesa de trabalho, eu preferi não vê-las. Mas elas estavam ali.
       Como o Jaguarense sempre esteve lá. Repleto de memórias. Inclusive as minhas.
       Mãos à obra!!!!

*Na realidade o título referido no texto foi conquistado no Ginásio João Carlos Gastal, em Pelotas, em 1986.  

sábado, 5 de novembro de 2011

Clube Jaguarense - a queda

       O pai me disse, pelo telefone, que uma "coisa chata" tinha acontecido: o telhado do Jaguarense tinha desabado. Emocionado, chegou a comparar o  à própria decadência "da nossa família" (ancestralmente ligada a esse clube) em Jaguarão. Descoversei, tentei afastar, no breve diálogo telefônico, a procedência da comparação.
       Não imaginava, no entanto, a real dimensão do desastre (do prédio do clube, não da família).
       Então fui a Jaguarão e vi, com tristeza, o que sobrou do casarão do Jaguarense. A situação parece não ter volta: como se vê nas fotos abaixo, com a ruína do telhado, na parte do salão principal, nada sobrou além das paredes externas (porém estas acabaram se projetando para a frente, rachando praticamente de cima a baixo em ambos os lados da esquina). As estacas seguram-nas, para que não venham, também, ao chão.





       Lembro-me das vezes em que, pela mão do Tato (querido tio-avô) eu e meu irmão, crianças, íamos, faceiros, ao clube. Mas tarde, meados dos anos 70, foi naquele salão - hoje tomado por escombros - que disputei meus primeiros campeonatos importantes de futebol de mesa.     
       Acaso não seja possível salvar-se o centenário prédio do Jaguarense, é provável que no seu lugar venha a ser construído outro monstrengo como os que foram erguidos por Bancos em esquinas centrais da "Cidade Heróica" (e, à época, saudados como sinal de progresso).



       As fotos acima foram copiadas do blog confrariadospoetasdejaguarao.blogspot. Na da esquerda encontra-se retratado o prédio que deu lugar à horrenda agência do Banco do Brasil; já o palacete de dois andares, à direita, foi demolido para que, no seu terreno, fosse erguido o pavoroso prédio do Banrisul. Na frente deste último, onde havia o café (ponto de encontro diário dos cidadãos jaguarenses) - incendiado nos anos 70 -, surgiu a modernosa agência da Caixa Econômica Federal. Quem sabe não é o momento desses Bancos resgatarem a dívida que, por isso, têm com Jaguarão? 

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Ucho, ucho, ucho...

      Mais uma epopeia gaúcha!
      Domingo passado, no Estádio Olímpico, o Grêmio (9º colocado no Campeonato Brasileiro!) ganhou do Flamengo por 4x2. Ronaldinho, o "Gaúcho", foi estrepitosamente insultado durante toda a partida. A execução do Hino Nacional foi vaiada; depois, a plateia tricolor-bombachuda cantou efusivamente - mão no coração e lágrimas nos olhos - o Hino Riograndense.
       A propósito, bem se encaixa ao fato a charge do Iotti na ZH, sobre as comemorações da recente "Semana Farroupilha".

       Fico aqui imaginando: Ronaldinho nem deve ter dormido desde o fatídico fim-de-semana.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Carlos Drummond de Andrade

Na cidade de Itabira-MG,
há exatos 109 anos, nasceu o poeta


Brindemos...

sábado, 29 de outubro de 2011

Sobre mulheres e bolachas (por Pedro Jaime Bittencourt Jr)*

       Outubro é o mês de aniversário da minha mulher. Ela está ficando mais velha, e mais bonita! É o que eu acho, como admirador da beleza que ela me transmite a cada dia. Eu gosto de admirar a beleza de mulheres mais velhas, como é a beleza da minha mulher, que está ficando mais velha, e mais bonita.
       Eu sei que os homens, aliás, a maioria das pessoas, costuma vincular a beleza à juventude. Existe até uma expressão que se costuma usar, uma expressão debochada, criativa, onde se diz que "não existe mulher bonita, o que existe é mulher nova!"
       Eu acho a frase até bem bolada, "sutil", engraçadinha, mas não concordo muito com ela não.
      Como assim - "mulher nova"??? Nova, que eu saiba, tem que ser bolacha, ou empada, ou picanha, essas coisas. A gente passa pela padaria e já vai perguntando: - A bolacha é nova? A empada é de hoje? Ou então vai até o açougue e diz: - Me vê uma picanha, mas nova, hein, porque senão ninguém consegue comer! Até aí tudo bem: empada, bolacha, picanha, tudo isso tem que estar novinho, de forma a ser aceito pelo paladar dos comensais.
       Mas mulher, não. Onde já se viu comparar mulher a picanha, a quindim, a rapadurinha. É bem verdade que existe mulher melancia, mulher morango, mulher pêra, e essas realmente tem que ser novas, pois com o passar do tempo deverão perder o prazo de validade, e, aí sim, tal como as frutas, haverão de se tornar também incomíveis para qualquer um.
       Mas mulher, mulher de verdade, não precisa ser assim não. Mulher não é só carne, ou peito, ou bunda... Mulher é cheiro, é pele, é perspicácia, é intuição, é segredo, é mistério... Mulher - diz o poeta - tem até alma, embora a alma de uma mulher contenha tantos mistérios que é mais fácil descobrir os segredos do universo do que uma simples partícula da alma feminina.
       As mulheres são assim, e mais, são decididas, dinâmicas, resolvidas. Elas - sabe-se já há algum tempo - possuem a tal visão periférica, que lhes permite ver e fazer várias coisas ao mesmo tempo. Por isso podem ser mães, trabalhadoras, donas de casa e amantes, tudo a um só tempo, diferentemente dos homens que não conseguem sequer falar ao telefone enquanto assistem ao jogo de futebol. E olha que ainda são as mulheres que alcançam a cerveja...
       Então, que história é essa de que mulher tem que ser nova, ou tem que estar "no ponto"? Mulher não é chuleta, não é bife, e o verdadeiro ponto de uma mulher passa as vezes a vida inteira sem ser descoberto.
       Mulher não tem que ser nada disso, não precisa ser nova, e, aliás, nem necessita se manter permanentemente uma deusa da beleza.
       Mulher tem que ser mulher, simplesmente, e, principalmente, tem que ser descoberta pelo seu parceiro como tal. Mas essa, provavelmente, deve ser a parte mais difícil para os homens...

*O Pedro é meu velho amigo, colega de Santa Margarida e da Faculdade de Direito. Sou seguidor fiel do blog dele, www.autoretratopedro.blogspot.com , de onde copiei/colei (sem sequer perguntar se me autorizava) esta crônica maravilhosa. Pura sensibilidade! Parabéns Pedro e parabéns, duplamente, Verônica!

Decisão histórica

       Movimento Gay brasileiro comemora mais uma vitória.
       Na semana que passou o Superior Tribunal de Justiça reconheceu o direito ao casamento entre pessoas do mesmo sexo.
       É, mas a decisão foi pau a pau.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

DKW (outro)

Fotografia de Alexandre Schlee Gomes

A literatura e a banca do lado (pequena homenagem ao escritor Aldyr Garcia Schlee) por Paulo José Miranda*

Há no Brasil, ao nível das artes em geral e da literatura e poesia em particular, um desfasamento enorme, quanto à chegada das mesmas ao público, entre aquilo que é produzido em São Paulo e aquilo que é produzido no resto dos estados do país. Isso deve-se em grande medida à dimensão continental do Brasil e a uma provinciana atitude, muito comum no humano, de viver num centro.
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Schlee e Marlene
Foto de L. C. Vaz
Imaginemos a Europa, por um instante. Se pensarmos no continente Europeu em moldes antigos, em moldes pré-queda do muro de Berlim, podemos traçar um mapa de Portugal até à Alemanha, integrando ainda os países não continentais, o caso dos países escandinavos, como sejam a Dinamarca, Suécia, Noruega, Finlândia, e Islândia, e ainda os anglo-saxónicos do Reino Unido e Irlanda. Por conseguinte, para além dos países citados, temos ainda a Espanha, a França, a Bélgica, a Holanda, a Áustria, a Itália e a Grécia. Este território é bem menor que o território do Brasil. Imagine-se agora que todo ele era um só país? Imaginemos também que um imaginário centro seria, por razões de geografia, Paris.
A ser assim, como não seria difícil que as literaturas de países mais afastados do centro se tornassem conhecidas? Como não julgá-las, erradamente, como literaturas regionais? Ora, é precisamente isto que acontece no Brasil. Erradamente se julga de literatura regional o que não é produzido em São Paulo. Por outro lado, São Paulo em relação ao mundo todo, não é ela mesma uma região e, assim, a sua literatura, uma literatura regional? Do mesmo modo que respondemos não à última pergunta, teremos de dizer que a literatura feita no Rio Grande do Sul ou em Mato grosso é uma literatura universal e não regional, se ela realmente for.
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O que define a universalidade de um texto é a escrita do mesmo e não o local de sua produção. Dublin, no início do século XX, era tão provinciana quanto a maioria das capitais de estado do Brasil hoje. E foi dai que surgiu James Joyce. E da provinciana Lisboa saiu Fernando Pessoa. E da provinciana Praga, do início do século XX, surgiu Kafka. A boa literatura é uma erva daninha, cresce em qualquer lugar, onde menos espera e a despeito de todos os esforços para que isso não aconteça.
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Julgo, humildemente, que a grande saída para uma melhoria na literatura brasileira seja a descentralização da mesma, isto é, a descentralização das editoras e revistas da especialidade. Nenhuma grande literatura se faz com grandes editoras. As grandes editoras não semeiam escritores, colhem aqueles que já existem. E fazer existir um escritor é uma tarefa árdua, difícil, demorada. Como não se faz um bom vinho de uma hora para outra. Num primeiro momento, demora ao autor o acto de ler, ler, ler e escrever; e depois demora ao editor o acto de editar, divulgar, divulgar, divulgar.
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A literatura não é novela. Uma editora não é a rede Globo. As mais prestigiadas editoras em Portugal, por exemplo, são pequenas, e são nelas que os grandes escritores se fizeram e ainda se fazem. Publicaram e ainda publicam.
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O romance EXCELSO de Aldyr Garcia Schlee, Don Frutos, foi rejeitado por duas grandes editoras nacionais. Mas o mais importante que aqui temos a reflectir, neste caso, é a demora. A demora que levou a se decidirem a não publicar, que foram anos. Porquê? Porque as grandes editoras têm no seu corpo de decisão pessoas que não têm poder de decisão. Precisam do aval do departamento económico ou financeiro, para saber se podem ou não podem editar determinado livro. Depois, para além disso, muitas das vezes as pessoas responsáveis pela decisão literária, se o livro é bom ou não, deixam muito a desejar em termos de referências, em termos de leituras feitas da história da literatura universal e nacional. E, deste modo, deixam muito a desejar quanto ao seu gosto e aos seus juízos acerca do bom e do mau.
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Assim, e como não podia deixar de ser, Don Frutos, livro de seiscentas páginas (600), denso, profundo, sem qualquer receita para o que devemos ou não fazer quando um celular toca durante um jantar, ou o que fazer quando o marido não elogia a mulher, é um livro condenado a não ser entendido pela lógica de uma multi-nacional ou, muito simplesmente, multi-estadual. A literatura não é um negócio, ponto final. E enquanto não se entender isto e não se mostrar claramente isto aos leitores e potenciais leitores, não vamos passar da cepa torta, escritores e leitores.
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O que é um negócio é a venda de livros. Mas um livro pode ser uma coisa muito feia, desastrosa, entediante... em suma, um livro pode ser uma merda. E esta merda, sim, é um negócio. As centenas de títulos de livros de auto-ajuda que pululam o mercado, e outras coisas da mesma laia, não são literatura e não deveriam sequer ser vendidos no mesmo espaço que se vende literatura. Nós não gostaríamos de ir no açougue (talho) e encontrar ao lado, na banca do lado, quantidades de estrume à venda, pois não? O estrume tem utilidade, claro, mais do que os livros de auto-ajuda, mas não vamos pôr o estrume ao lado da carne.
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Esta falta de coragem de clarificação, de distinguir o trigo do joio, de distinguir a literatura da merda, está a dar cabo da literatura, dos escritores e dos leitores. O modo mais eficaz e rápido de repor a literatura nos seus eixos é, precisamente, conferir autoridade às pequenas editoras e aos diversos estados do país. Ou então assumam que não querem literatura, mas roteiros de novelas e de séries televisivas e livros de trocadilhos escritos por empregados de empresas de publicidade.
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Felizmente tem ainda quem lute contra isto! A ARDOTEMPO pôde editar e fazer chegar até mim o livro Don Frutos, de um dos maiores escritores que li em minha vida: Aldyr Garcia Schlee. Bem haja!

*Reprodução de postagem do http://velhaguardacarloskluwe.blogspot.com/