segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Manchete do DP

Ontem, na praia do Laranjal, do nada surgiu um
jacaré do papo-cabeça.
Depois de disssertar alguns minutos sobre Heiddeger
e sua tentativa de encontrar nos gregos a substância
que de alguma forma amparasse o homem contemporâneo num mundo desesperançado de Deus, 
 a presença do anfíbio fez com que os fãs do som de Mumuzinho debandassem geral. 

"Olha o Pêndulo de Foucault aí, gente!"


domingo, 29 de dezembro de 2013

Vacaciones

Estava ainda no primário e finalmente entrara em férias. Para comemorar, desenhei numa folha inteira do meu grossão "caderno diário" um gato deitado preguiçosamente em uma rede esticada entre dois coqueiros. No detalhe caprichado, o exultante felino exibia um copo, adornado com uma pequena sombrinha, contendo alguma bebida geladérrima. Sob a figura, escrevi: "FÉRIAS PARA O GATO!"

Tentei reproduzir o tal desenho quando contei essa historinha para a Flor. Que dificuldade! Não consigo mais desenhar - e eu juro que desenhava direitinho há quarenta anos! Saiu isso aí - uma merda, mas, de qualquer forma, melhor que aquilo que se vê todo dia assinado pelo Marco Aurélio na ZH:
 

Até hoje não sei bem por que minha mãe ficou furiosa comigo por causa daquelel desenho. Mas ficou, achou uma barbaridade, um desperdício de material escolar, sei lá... Por causa disso, sempre que inicio novo período de férias, ano após ano, aviso para ela, fazendo uso do mesmo bordão que aprendi em um anúncio da época, do Ri do Rato (venenão ainda hoje disponível nas boas casas do ramo, que garantia sombra e água fresca aos gatos em geral).
Outros tempos. De Flit e Detefon. E de Sheltox ("é o melhor inseticida/mata moscas e baratas/todo inseto sabe disso/e se não sabe é um suicida"). E da Terra de Marlboro, de Hollywood ("o sucesso!") e de Tatuzinho ("é veludo no gogó!", "ai tatu, Tatuzinho/me abre a garrava/me dá um pouquinho"). Veneno para ratos, inseticidas, cigarros e cachaça. Não existia o politicamente correto. Mas a falta de seriedade com o "material de estudo" rendia pito.



segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Feliz Natal


Nota de rodapé: evito reproduzir no BF coisas que já se encontram na Internet. Mas desde o ano passado "guardei" esse genial presépio (cuja autoria é para mim desconhecida) que circula no meio virtual. Maravilha! (como aquela outra do Mussum relativa ao ano novo).

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

PORRA! (por Ângelo Alfonsin*)

a realidade
não sai na urina
é uma droga de qualidade
duvidosa
uma bad trip
faz mal às tripas
expulsa os tripanossomas
e outra tribos
a realidade é um tribufu
bufa todo dia no cangote
ameaçando da glote ao glúteo
na busca da grana
come-se grama pela raíz
granada que decepa a libido
transformando todos em um híbrido
da tecnologia
metade de nada com medo de tudo
arremedo de gente arremessada
contra os muros do ódio
vida é um negócio
que entrega-se à vista
a vida
realidade não é para cagão
só para quem leva o vermelho
cartão
vive-se em regime semiaberto
sair sem saber se o estado
das coisas irá permitir voltar
ao ponto de partida
cuidado onde pisa
a realidade é uma mina
daquelas chave de cadeia
cadela com uma explosão
entre as pernas
um passo em falso
e
somos tragados pela descarga
que puxada
provoca a mais bela das quedas
de água
formadora de um rio que leva
de volta ao paraíso
da puta que nos pariu


*publicada no irresistivelmente inútil (http://aalfonsin.blogspot.com.br/)

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Gênesis (por Fraga*)


Sica
E vendo que estava a Terra sujeita à sujeira, Ele criou Clorox, que gerou Rodox, que gerou Lux e Ajax, que gerou Polwax e Helix, que gerou Klinnex e Gumex, que gerou Tampax e Jontex, que não geraram ninguém. E essas gerações começaram a povoar lugares e a diminuir imundícies sobre a face da Terra.

E se espalharam por vales de moléstias e planícies manchadas até surgir o clã Dupont, que gerou Detefon, que gerou Tugon e Baygon, e este gerou Avon e Revlon, que gerou Koleston e Wellaton, que geraram Teflon, que nasceu estéril. E por onde passaram os filhos e os filhos de seus filhos, a superfície não era tão repugnante, e o fedor cheirava a novo.

E para prover o asseio iniciado veio Vasenol, que gerou Varsol, Rodasol e Castrol, que gerou Odol e Limpol, que gerou Ariel, que gerou L´oreal, que gerou clones. Da montanha ao campo, Ele viu que tudo tinha outra cor e olor.

E na pressa em ver a assepsia do Seu reino, Ele aceitou Gasolina, que gerou Querosene e Naftalina, que gerou Havoline e Valvoline, que geraram Creolina e Clorofina, que gerou Listerine e Dentyne, que geraram bate-bocas.

Eis que a rapidez clareava quase tudo, mas nem tudo era agradável como antes.

E outras gerações frutificaram e se multiplicaram, e assim chegou Flit, que gerou Loctite, que gerou os gêmeos Brasso e Silvo, que se uniram a Lever, que gerou Veja, Vim e Minerva, que geraram fortunas. E viu Ele que os lodos e as nódoas milenares ainda contaminavam as áreas habitadas, embora agora alvejadas.

E para acabar com as porcarias e o mau cheiro, Ele recebeu Neocid, que gerou a Tide e Odd, que gerou Raid e Glade, que tentaram purificar o ar empesteado. E dessa vez Ele nem desceu para aspirar a faxina.

E a faina ganhou o poder de Rinso, que deixou Modess porque era infértil, e com Qboa gerou Palmolive e Lifebuoy, que gerou Lisoform, que gerou Gillette, que se juntou a Omo e adotaram Ace e Axe, e Nívea que foi morar com Rexona e adotaram Dove e Autan. E como as bactérias também resplandeciam de felicidade, Ele espumou como os rios.

E por fim foi igual na vez de Colgate, que gerou Crest, que gerou Closeup, que gerou Harpic, que gerou Comfort, que gerou Fofo, que só gerou rinite. Até hoje Ele funga.

E ao ver que higiene se tornou praga entre as pragas, Ele cogita: talvez a saída seja deter gente.

*Publicado originalmente no jornal Extra Classe (nº 180/dezembro de 2014)

domingo, 8 de dezembro de 2013

Natalinando

No seio da família dos perus
o centro da mesa está enfeitado
c/ esmero. O prato principal
é um bebê humano gordinho c/ uma
maçã na boca, batatas doré e farofa.
O caçula da família dos perus desatou
a chorar qdo viu o amiguinho virar
banquete d Natal. Bebê e peruzinho
bricavam juntos no quintal.
Ô dó.

Do livro Storynhas, da Rita Lee. Comprem já, deem de presente de Natal. É ótimo! Comprei o meu meio por acaso, atraído pela capa (e das bárbaras ilustrações internas) do(a) Laerte. Ainda na livraria li para a Flor, minha filha adolescente, esta storynha aí de cima (releitura de clássica cena do filme Assim Caminha a Humanidade) e ela me disse: "parece aquelas bobagens que tu botas no teu blog!". Tuchê, Flor! Viva eu, viva tu e viva o rabo da Tia Rita (aquele mesmo, magricelo, que mostrou para a polícia que queria, durante um show dela, levar em cana o pessoal da plateia que fumava maconha).

sábado, 7 de dezembro de 2013

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Questã de cuidado

Em carta publicada hoje no Diário Popular o leitor Andrei (só Andrei, sem sobrenome) lamenta o falecimento de vítima de atropelamento. Na missiva dá seu testemunho: "Meus sentimentos aos familiares, presenciei o atropelamento, a mesma nem olhou para o lado na hora de atravessar a rua..."
 
Tem razão o Andrei: provelmente o que faltou à mesma foi o cuidado que se deve ter quando, por exemplo, se entra em qualquer elevador. Afinal, toda gente, alertada por aquela famosa plaquinha, sempre verifica se o irmão da finada, o mesmo, está parado naquele andar.
 
 
 
 

Globalização

BLACK FRIDAY
 
data especialmente criada para que os babacas troquem seus celulares,
o pessoal da classe C ascendente leve para casa tevês de 60 polegadas
e os fudidos comprem panelas de pressão baratinhas

Quem sabe faz a hora

 
A Ana Paula Maciel é a bióloga gaúcha que ficou conhecida mundo afora por ter sido (e mantida por dois meses) presa na Rússia em razão de sua participação, como ativista do Greenpeace, em uma operação/protesto contra a exploração de petróleo no Ártico. Ela deu uma interessante entrevista à Zero Hora (que foi publicada na edição de sábado passado do jornal).
 
Simpatizo muito com a Ana Paula, que demonstra em cada palavra e em cada atitude, um baita idealismo, uma baita consciência do seu papel. Mesmo presa, sem saber o que iria lhe acontecer na Rússia (com a possibilidade de ser julgada e condenada  por "pirataria"), sempre demonstrou serenidade e aproveitou cada momento (inclusive quando literalmente enjaulada durante as audiências) para dar seu recado de alerta ao mundo no sentido da necessidade de preservação ambiental, preservação da vida.
 
Disse ela: "Nós, do Greenpeace, trabalhamos em todos os países dessa maneira, pedindo e chamando a atenção para os problemas ambientais. E não é contra uma única companhia de petróleo. A campanha de salvar o Ártico engloba todas as companhias petrolíferas que estão indo para o Ártico procurar por petróleo. Todo o aquecimento global causado pelo uso desse combustível fóssil derreteu praticamente todo o gelo do Ártico durante o verão. Em uma única geração, a gente perdeu mais de metade de todo o gelo ártico durante o verão. Isso abriu mais fronteiras para que eles pudessem ir mais ao norte procurar petróleo onde era inacessível antes. É um ciclo vicioso que não faz o menor sentido, é muito louco. Eu causo o aquecimento global procurando petróleo e usando combustível fóssil, aí o gelo derrete e eu vou lá para procurar mais óleo e causar mais aquecimento global. Então, esse é um ciclo que tem de parar e que podemos controlar quando optarmos por energias limpas."
 
Ana Paula não está assustada. Está pronta para outra. Assim como aqueles que não ficaram parados vendo o tal Instituto Royal, em São Paulo, fazer "pesquisas" usando cachorros como cobaias. Sem esse pessoal, que não espera sentado, essas causas justíssimas sequer estariam hoje em discussão.
 

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Radicci Simca


VOCÊ É UM DINOSSAURO SE JÁ ANDOU EM UM SIMCA RALLYE


Por que não escolhi a Caras?

Na segunda-feira passada precisei ir ao médico. Ando meio surdo do ouvido direito, o que há meses vem me atormentando. Na sala de espera havia, à disposição dos pacientes que aguardavam suas consultas, revistas Veja e Caras. Então, naquela situação de "não tem tu, vai tu mesmo", abri uma Veja  que tinha na capa a foto de um cahorrinho beagle. A reportagem principal daquela edição evidentemente se posicionava contrária à operação levada a efeito por militantes da defesa dos direitos dos animais, que resultou na invasão de um laboratório e na liberação de uma grande quantidade de cães da raça beagle que lá eram usados, como cobaias, em experiências (pseudo)científicas. Claro que o argumento usado para a condenação dos ativistas pela revista foi o "desrespeito à propriedade privada", lembrando a frase, de autoria de não-sei-quem, "eles se sacrificam por nós" (como se algum animal usado como cobaia tivesse escolha).

Depois, li, meio por cima, a "crítica" - altamente favorável - a um livro escrito por um "colunista" da própria Veja (cujo nome não me interessa lembrar). Claro, é uma tese sobre o que denominou "esquerda caviar", aludindo a apontadas contradições genéricas nos comportamento de intelectuais de esquerda, os quais pregariam práticas socialistas, porém usufruiriam as benesses oferecidas pelo mundo capitalista. Coisa de quem está, como a Veja, engajada na -designo por minha conta - "direita massaroca".
Por último, antes de ser chamado pela secretária, cai numa "matéria" de duas páginas sobre "a questão cigana na Europa". Trata-se de texto odioso, preconceituoso e xenófobo que se inicia com a pergunta (acerca dos ciganos): "você iria querê-los como seus vizinhos?".


 Fundado em supostos dados estatísticos (sem qualquer referência às fontes) o texto dá conta de um alto índice de criminalidade entre os ciganos, afirmando, como fariam os nazistas em sua época, que essa criminalidade é inerente à própria etnia cigana. Hordas de ciganos - especialmente oriundos da Romênia e da Bulgária -, de forma previamente organizada e concebida, invadiriam de tempos em tempos os "países civilizados" da Europa Ocidental com o propósito de realizar toda série de delitos, especialmente roubos e furtos.
Pasmo, tentei obter na internet uma versão dessa ignóbil matéria. Não consegui, de jeito nenhum. Achei, isso sim, uma bem fundada "carta aberta", endereçada à Veja por um certo  Ruano Berenguel, que pode ser lida no seguinte endereço: http://amskblog.blogspot.com.br/2013/10/carta-aberta-revista-veja-por-ruano.html

Está lá, no clássico "Relatório Buchenwald" (org. David A. Hackett, p.78, Record, 1998): "A identificação externa dos prisioneiros consistia em sequência de números e num triângulo colorido portado no peito esquerdo e na perna direita da calça. O vermelho indicava os políticos, ao passo que os culpados por uma segunda infração, os chamados reincidentes, usavam uma tira da mesma cor acima do vértice. O verde era para os criminosos, o roxo para as testemunhas-de-Jeová, o preto para os anti-sociais e o cor-de-rosa para os homossexuais. Por vezes o marrom era usado para os ciganos e os anti-sociais recolhidos em certas "ações". Os judeus sempre usavam um triângulo amarelo por baixo do seu trângulo vermelho, verde, preto, roxo, ou outro, formando assim uma estrela de seis pontas."
A Veja, pelo jeito, pretende, por ora, pregar novamente um triângulo marrom nas vestes dos ciganos. Depois, quem sabe, partir para os triângulos vermelhos, os amarelos, os cor-de-rosa...

domingo, 17 de novembro de 2013

Triste!

Genoíno e Zé Dirceu estão presos em Belo Horizonte. Amanhã o juiz encarregado da execução definirá onde cumprirão as penas que lhes foram impostas pelo STF.
 
Pessoalmente acho muito triste este desfecho (já há muito desenhado). Triste se ambos efetivamente cometeram os crimes pelos quais foram condenados e triste também se não cometeram tais crimes e, ainda assim, foram condenados.
 
Mas, muito mais triste ainda é ver quem está tendo orgasmos múltiplos por causa da prisão de Genoíno e de Zé Dirceu.
 

sábado, 2 de novembro de 2013

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Aldyr Garcia Schlee trata da fronteira imaginada em sua literatura na sétima entrevista da série Obra Completa*


Em três décadas de uma carreira paciente, Aldyr Garcia Schlee tornou-se um dos grandes contistas do Estado. Nesta sétima entrevista da série, ele fala da Fronteira imaginada de sua literatura.
Zero Hora — Seu primeiro livro sai em 1983, em uma época em que o senhor já contava por volta de 50 anos e tinha uma carreira como ilustrador e artista gráfico. Por que tão tarde?
Schlee —
Acho que porque, naquela época, não havia muita oportunidade de publicação, ao contrário do que acontece hoje. Era caro e impensável alguém se lançar literariamente mandando imprimir por conta seu próprio livro. Não passava pela minha cabeça isso. Por isso, concorri em alguns concursos literários, em todos com alguma marca que me incentivou a continuar. Tentei primeiro aqui no RS, com um livro chamado Jaguarão e o Resto do Mundo, que ganhou menção honrosa. Depois, concorri duas vezes ao prêmio José Lins do Rego, também com um livro chamado Jaguarão Universo, em que, de certa maneira, recolhi uma parte do Jaguarão e o Resto do Mundo, e esses dois acabaram sendo publicados posteriormente em cada uma das partes do Contos de Sempre. Então, eu esperava uma oportunidade de publicar.

ZH — Contos de Sempre e Uma Terra Só, seus dois primeiros livros, parecem comungar de um propósito comum: mostrar a fronteira como uma região de identidade única no tempo, no caso de Contos de Sempre, e no espaço, em Uma Terra Só. Foi um projeto consciente?
Schlee —
Eu não gosto de dizer que eu tenha um projeto literário, que tenha pretendido exatamente: “vou fazer assim”. Não consigo entender nenhum colega meu, nenhum autor que tenha um projeto literário, não creio nessa definição. Comigo, o que aconteceu foi que eu tinha esses dois livros de contos que haviam vencido concursos, e os dividi no primeiro livro, mas tinha o impacto do tempo decorrido, e eu os inverti no volume, a seção que eu denominei Contos de Ontem eram os mais recentes, e os Contos de Hoje eram os mais antigos. Essa era uma perspectiva estritamente temporal. Já no livro seguinte, Uma Terra Só, eu tinha pretensão de fazer o leitor atentar para um mundo que não é o verdadeiro, e sim o meu mundo imaginado, meu mundo literário, que eu pretendi conquistar e acabei por ele conquistado, porque não tenho condições de sair dele.

ZH — É estranho o senhor falar na ausência de um “projeto”, já que os seus livros caracterizam-se por uma unidade temática (O Dia em que o Papa Foi a Melo, Contos de Futebol).
Schlee —
São livros em que trabalho em cima de uma tese. Há um determinado momento nesse meu mundo literário em que descubro alguma coisa para desenvolver em forma de tese, para demonstrar ao leitor minha visão de mundo. Nesse aspecto, há um certo conteúdo pedagógico. É uma pretensão grande, mas eu vejo assim. Então, quando eu parto para um livro como O Dia em que o Papa Foi a Melo, estou perplexo diante dessa visita do Papa, sendo o Uruguai um país laico declaradamente. Não só porque está expresso na Constituição, mas porque o Uruguai é laico de fato, e em 1904 já não havia mais crucifixos em repartições públicas, uma discussão que fomos ter agora aqui no Brasil. Sabendo que nesse país laico, na sua zona mais pobre, paupérrima, o papa iria fazer uma visita, fiquei atônito. Então resolvi não ir a Melo no dia 8 de maio de 1988, o dia em que ele foi. Mas fui na semana seguinte. E consegui entrevistas e toda uma documentação para escrever um livro de contos.

ZH — O Dia em que o Papa Foi a Melo é um relato da visita da maior autoridade da cristandade ao Uruguai, mas o primeiro conto, o que abre o livro, enfoca um padre em crise de fé que decide não ver o papa. É a representação desse confronto que o deixou perplexo entre a figura do papa e a laicidade do Uruguai?
Schlee —
Exatamente. Esse padre, que, de certa maneira, sou eu, vai negar tudo, mesmo com todo seu conhecimento do cerimonial religioso. Ele não nega apenas a questão da visita do papa, o que é elementar, superficial. Ele contesta tudo, e isso está representado em pequenos detalhes de sua indumentária, da desolação do espaço onde ele vai se meter, uma paisagem à qual o Papa não iria. Tudo isso está pesando em um conjunto do qual tentei fazer a receita desse conto, que é, de fato, uma história chave do livro. Depois tem algumas coisas no livro, como a negação do milagre, da possibilidade de um milagre... Eu não escrevi na ordem em que pus, fui alinhavando até chegar ao Conto do Turco Jaber, que é um conto louco, que denuncia, entre outras coisas, essa questão da gauchidade. Porque nós temos uma dificuldade muito grande de sermos sul-rio-grandenses. O gentílico é dominado pela palavra “gaúcho”, que se tornou sinônimo. A distância é tão grande entre o gentílico e o significado maior da palavra “gaúcho” que escandaliza.

ZH — Por que o conto? Ao longo de décadas de carreira, o senhor escreveu um único romance, e um livro de contos que se interligam, mas permaneceu focado na forma curta. Essa preferência é uma questão de fôlego literário?
Schlee —
Acho que sim. Tem aquela ideia do Cortázar de que o conto é um punch, como no boxe, no qual a gente luta com o leitor e tem a chance de ganhar por nocaute. No romance, a gente ganha por pontos. Acho que por trás disso está a capacidade que a gente possa ter de tratar de um assunto de modo a manter o leitor preso a cada parágrafo ou a cada página. O conto me garante também a proximidade do final. É um tiro curto, são mil metros no máximo, numa cancha reta, uma carreira de fôlego curto.
ZH — E o que o leva a Don Frutos, um romance de 600 páginas?
Schlee —
Eu não tinha alternativa. Estava atulhado de informação e comprometido com a necessidade de abordar o fato de que Fructuoso Rivera, duas vezes presidente do Uruguai, esteve em Jaguarão, minha terra... Um sujeito desses passando pela minha cidade não pode me escapar. Então eu tive que me atirar em cima dessa história, com a ajuda de um pesquisador chamado Amilcar Brum, que se deu ao trabalho de ir a Montevidéu para desencavar tanto material que eu poderia ter escrito três livros, separando por temas. Por exemplo, coisas que não aparecem muito no livro, como a intervenção brasileira, uruguaia e argentina no Paraguai, que não está lá porque o Rivera morreu antes. Mas eu tinha o tema do Rivera em Jaguarão e por ali fiquei.

ZH — Don Frutos parece singular não só pela extensão. É a única história em que o senhor enfoca diretamente uma figura de poder. O fato de Rivera estar doente quando chega a Jaguarão foi o elemento que tornou esse vulto “humano” para ser abarcado pela sua ficção?
Schlee —
Exato. No primeiro capítulo do Don Frutos, a decadência física dele é notória, com o homem se mijando, dependendo da mulher e de um outro cara para ajudar a se movimentar, sem ter mais nada. E adiante no romance, a morte do Rivera pode ser lida de várias maneiras, até mesmo por quem domina a grande literatura uruguaia moderna, ao saber que aquele militar que era o secretário particular do Rivera, Onetti, era de fato parente do Juan Carlos Onetti. Há um falso diálogo final, no qual Rivera se refere a seu ajudante Capitão Onetti, que é feito com uma colagem de textos do Onetti escritor.

ZH — Havia, então, uma dificuldade em lidar com o caráter biográfico da narrativa de um símbolo político, dificuldade expressa na estrutura do livro?
Schlee —
Tem outras coisas, como por exemplo a vinculação com os índios, ou o fato de ele os ter traído ou não, aquela famosa matança dos charruas. Eu estava sempre no fio da faca. O que eu tenho de documentação real do Rivera, conseguida pelo Amilcar Brum, são papéis do governo, da Assembleia Constituinte, da Câmara, do Senado, das igrejas. Agora, biografias do Rivera, eu tive que repassar todas as que havia disponíveis. Para as escritas pelos blancos, o Rivera era um bandido, ladrão, safado. Para os colorados, era um herói nacional, fundador do país. Eu tive que ficar em cima disso, e em nenhum momento pretendi que o leitor acreditasse que ele era bom ou mau, eu queria, como fiz em toda minha ficção, fugir do maniqueísmo.

ZH — O senhor é conhecido no Rio Grande do Sul e no Uruguai, mas não no Brasil. Crê que paga o preço por lidar com um território ficcional tão restrito?
Schlee —
No Uruguai eu sou considerado autor uruguaio, e fiz parte de uma coleção publicada pela editora Banda Oriental. Mas eu não quero me enganar em cima de proporções. Se em um país com 3 milhões de habitantes e um território menor do que o RS, se lá eu sou muito mais conhecido, proporcionalmente, do que no Brasil, é porque não há proporcionalidade cabível entre Brasil e Uruguai. A minha literatura, que pode ser muito conhecida dentro do Uruguai, é virtualmente desconhecida no Brasil, primeiro pela dificuldade temática. O meu mundo literário tem pouco a ver com o Brasil. E não sairei desse mundo em um esforço falso para ganhar leitores, porque se eu deixá-lo, estou perdido.

ZH — O senhor lida com o lado B da mitologia da formação do território. Quando lança Contos de Futebol, esse olhar se dirige ao lado avesso de outra mitologia, esta contemporânea, a do futebol. Foi um passo consciente?
Schlee —
Não, eu queria apenas escrever um livro de futebol. A explicação está em um conto chamado Encanto de Futebol, cujo título diz tudo. Esse “encanto de futebol” contaminou uma série de coisas relacionadas à minha vida, o encanto com o futebol uruguaio em particular. Por isso esse livro saiu como Cuentos de Fútbol primeiro no Uruguai. É um livro uruguaio, ainda que não tanto como o Limites do Impossível e principalmente O Dia em que o Papa Foi a Melo.

ZH — Em Contos de Verdades, o senhor escreve “causos”, mas os chama de “verdades”, mesmo sendo histórias que se apresentam como verdadeiras, mas podem não ser.
Schlee —
Eu não havia pensado nisso, mas é assim mesmo. Eu estou falando de “verdades” nesse livro mais ou menos do mesmo jeito que se desenvolvem os “causos”, as “fofocas”, para usar uma expressão mais vulgar, e que dão origem à construção de uma verdade que não é necessariamente verdadeira.

ZH — Em Contos de Sempre e Uma Terra Só seus personagens se expressam em uma mistura de espanhol e português, como na fronteira. A partir de Linha Divisória, não apenas o personagem no diálogo, mas o próprio narrador deixa um idioma contaminar o outro. Por quê?
Schlee —
Eu aprendi que é possível o narrador assumir a maneira de ser do personagem, deixando de narrar à sua própria maneira. Então, no momento em que estou fazendo uma narrativa referente a um personagem, eu me sinto autorizado a usar esse recurso. Porque há uma dificuldade muito grande para qualquer autor que, como eu, trabalha com personagens rústicos, geralmente pobres, sem educação formal, como são os párias. Os meus personagens são os rejeitados da sorte. Essas pessoas não têm a minha formação, mas têm seu próprio modo de pensar. E quando tento reproduzir o pensamento deles, eu me sinto autorizado a usar esse recurso. É uma coisa que eu vejo que enriqueceu muito a literatura do Simões Lopes Neto, por exemplo.

ZH — Os Limites do Impossível: Contos Gardelianos é um livro em que o senhor mescla conto e novela ao narrar uma trama única tecida das histórias das mulheres que orbitaram o pai de Carlos Gardel. Como chegou a essa história?
Schlee —
Essa história eu resolvi escrever no momento em que tive certeza de que era preciso denunciar as arbitrariedades do então presumido pai de Carlos Gardel a partir de tudo o que ele fez na política do Uruguai, mas particularmente em relação ao nascimento desse filho, fruto de estupro e incesto. Então achei que a narração não deveria se referir diretamente a ele, mas às mulheres que tiveram a ver, direta ou indiretamente, com o nascimento de Carlos Gardel.

ZH — O Dia em que o Papa foi a Melo e Os Limites do Impossível, a bem dizer, anteciparam respectivamente O Banheiro do Papa, longa ficcional de Cesar Charlone, e o documentário El Padre de Gardel, que teve uma sessão recente na Capital. Como vê essa circunstância, uma vez que em ambos os casos não parece ter havido menção a seu tratamento anterior do tema?
Schlee —
O que eu fiquei estranhando é o quanto sou desconhecido. O Banheiro do Papa tem uma história que poderia ser inspirada no Conto V de O Dia em que o Papa Foi a Melo, também chamado de Melo Era uma Festa, com todas aquelas decepções dos personagens... O clima é o mesmo, os acontecimentos correspondem, os caras que fizeram o filme tiveram o mesmo sentimento que eu tive de identificação com aquelas pobres pessoas que gastaram os últimos centavos que tinham, mataram um leitãozinho de estimação roubaram uma capivara para poder oferecer comida aos brasileiros, porque ia ter 40 mil brasileiros lá. Eram pessoas não à procura de um milagre, mas buscando criá-lo, e foram frustradas. O papa passou, virou lixo tudo aquilo. O filme mostra uma ideia que está lá no meu conto, a de alguém que pensa em fazer uma latrina. Mas o protagonista não está no conto, a guria que queria ser radioatriz não está no conto, e aqueles personagens me emocionaram às lágrimas. Não tenho do que reclamar, fico feliz que tenham feito um filme tão bom. Esse documentário do Gardel eu não vi. Os fatos, os acontecimentos históricos que sustentam a minha ficção no caso dos Contos Gardelianos, são comprovados e são os mesmos que devem ter sustentado o documentário. Não tenho como me queixar de nada. Só fico com pena que estejamos tão perto e tão longe do Uruguai ao mesmo tempo, o que comprova que meu mundo literário é limitado e distante.

ZH — Contos da Vida Difícil, seu livro mais recente, retrata um momento em que Jaguarão se torna ponto de passagem do tráfico de mulheres – na sequência da construção da ponte que liga a cidade a Rio Branco, no Uruguai. Havia a intenção de confrontar essa ponte, signo de passagem, com a situação dessas mulheres, presas à prostituição no município?
Schlee —
Bem observado. Se há alguma possibilidade de encantamento com esse tema, como também em relação ao futebol, é no fato de ser um assunto que Jaguarão considerou necessário esconder e fazer de conta que não é parte de sua memória. Isso aconteceu de uma forma que eu não procurei explicar, porque eu próprio não encontro explicação. Por que esses fatos raramente respingaram algumas famílias de Jaguarão? Por que a maioria das pessoas de Jaguarão esqueceu disso? Por que não se fala que o cabaré que foi tão importante, o do Tomazinho, ainda existe como prédio pertencente a um clube social, o Instrução e Recreio? Os sócios se envergonhariam de dizer “aqui funcionou um cabaré”? Não sei se terá sido isso, mas os acontecimentos eram tão contraditórios que em cima deles eu tinha de construir algo.

ZH — O primeiro conto desse livro, Carnet de Divertissement, é sobre um caderninho de nomes dos clientes dos cabarés. E o senhor o compara textualmente a um “caderno de venda”. Essa frase tem o intuito de equiparar as mulheres ali escravizadas a mercadorias de comércio, ?
Schlee —
Sim. Ao citar os fregueses cujos nomes aparecem nesse caderno, estou denunciando que muitos deles viraram nomes de rua e é melhor nem seguir adiante. É uma justificativa em parte para essa minha narrativa estar rompendo com esse pacto de silêncio e esquecimento.
 
*Publicada no Segundo Caderno da Zero Hora de 27.10.2013 

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Walking Deads II

No flagrante histórico, o encontro da realeza na Associação Rural de Pelotas. Nossa conterrânea Glória Menezes (no papel de Marquesa Zezé Macedo de Santos) e D. Bertrand Tarcísio Meira de Orleans e Bragança. Diante da cara de canastrão do príncipe falido e mal pago, Dona Bela exclamou: "Ele só pensa naquilo!"


Do correspondente Andrey Schlee, direto da Sucursal Brasília
 


sábado, 12 de outubro de 2013

Walking Deads

Segundo noticiado, esteve hoje em Pelotas D. Bertrand Maria José Pio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga de Orleans e Bragança e Wittelsbach, trineto de D. Pedro II e bisneto da Princesa Isabel. Veio participar de reunião-almoço promovida pela Associação Rural local e pela Aliança Pelotas (grupo composto por outras sete associações e sindicatos patronais do município). Veio disposto a falar sobre "o desafio do desenvolvimento sustentável brasileiro".
 
D. Bertrand mantém carreira
musical paralela,
com o nome artístico de Reizinho
(antes, mais novo, era conhecido como
o Pequeno Príncipe do Acordeão)
No seu blog "Paz no Campo", Dom Bertrand se apresenta como "advogado formado pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, da USP", sendo, porém, notório que jamais exerceu a profissão. Sustenta-se através de doações advindas de voluntários à causa monárquica (calculando que cerca de 120 pessoas depositem mensalmente a ajuda financeira necessária à sua manutenção). Para o recebimento de doações esporádicas, o nobre carrega sempre com ele uma máquina de cartão de crédito.
 
Coordenador e porta-voz do movimento Paz no Campo, percorre o Brasil fazendo conferências para produtores rurais e empresários, em defesa da propriedade privada e da livre iniciativa, alertando para os efeitos deletérios da Reforma Agrária e dos movimentos sociais, os quais, segundo D. Bertrand, "querem afastar o Brasil dos rumos benditos da Civilização Cristã, que seus antepassados tanto ajudaram a construir no País, hoje assolado por uma revolução cultural de carater socialista".
 
Amanhã saberemos quantos lambe-cus estiveram presentes na recepção a essa triste figura, membro da ultraconservadora Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade - TFP - que vive citando Plinio Corrêa de Oliveira a torto (muito torto) e a direito.
 
Anauê e vade retro! 

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Mute

Há muito tempo aqui em casa seguimos um ritual durante o almoço. Quando na telinha da tevê surge a "figura nefasta" do Lasier Martins para fazer seu reacionário comentário no JA, aquele que estiver mais próximo do controle remoto se encarrega de apertar o botão mute. E o xaropão fica lá, de cara séria, gravata colorida, só na mímica. (É uma experiência gratificante, que recomendaria a todos.)
 
Hoje, seguindo essa rotina, tão logo apareceu a margarida e já foi levando o mute pelas fuças. Mas a Fernanda ficou intrigada com a demora da intervenção e comentou: "como está comprido o Lasier!".
 
Era a despedida do homem!
 
Só ficamos sabendo que o Lasier está largando a "comunicação" agora à noite, noutro noticiário. "Vai que é tua Tafarel", vibramos!Finalmente o dia tão aguardado ao longo da vida chegou (quase chegou antes, naquela Festa da Uva em que o apresentador tomou um choque inesquecível). De agora em diante vamos almoçar sem precisar ficar com o controle remoto a postos.
 
Mas, como tudo que é bom tem seu preço, Lasier vai fazer o caminho inverso de tantas figuras notáveis, saindo da privada para  (tentar) entrar na vida pública. Anunciou que vai se lançar candidato ao Senado. E pelo PDT! Logo pelo PDT. Pobre Brizola, que deve estar se revirando em seu túmulo lá em São Borja.
 
 

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Licença poética

Do verbo ponhar, no Capão do Leão

Furou a rede

No Santa Margarida, a cada início de ano, a tradição era mantida. Em fase de definição das turmas, nos primeiros dias de aula os professores novos sofriam. Como não conheciam os alunos e as folhas de chamadas não lhes estavam à disposição ainda, viam-se obrigados a passar uma folha de caderno, dessas comuns, para que nela fossem registradas as presenças, com as assinaturas da gurizada. A graça estava em ver a cara dos professores quando constatavam que a listagem final apresentava um número muito maior de assinaturas do que de alunos na sala de aula. Claro, entre as assinaturas dos presentes apareciam, invariavelmente, as de Pedro Álvares Cabral, Duque de Caxias, Joaquim José da Silva Xavier, Capistrano de Abreu e até do Tarzan Minhoca (ninguém mais sabe quem foi Tarzan Minhoca!), entre tantas.

Hoje o Tribunal Superior Eleitoral decidiu pela não aceitação do pedido de criação da Rede Sustentabilidade (nome dado ao partido político pelo qual Marina Silva pretendia viabilizar sua nova candidatura à presidência, em outubro do ano que vem).
 
Eram necessárias 492 mil assinaturas para que o pleito fosse acolhido, porém grande parte das assinaturas lançadas no documento encaminhado à Justica Eleitoral foram consideradas inválidas (ou seja, carecedoras de autenticidade formal).

Assim, não tendo o TSE aceito as assinaturas de Pedro Álvares Cabral, Duque de Caxias, Joaquim José da Silva Xavier e Capistrano de Abreu (muito menos a do Tarzan Minhoca), acabou com o personalíssimo desejo de Marina de ter uma sigla só para ela. Agora Marina terá de recorrer a um partidinho qualquer, filiando-se a ele às pressas, para lançar-se candidata. 
 
De acordo com Carolina Bahia, na ZH de hoje, "...uma filiação de ocasião em uma legenda de aluguel mancharia a biografia de Marina". Ora, a biografia dela já está mais manchada do que lombo de cachorro Dálmata, afinal só deixou o PT quando foi preterida, na indicação de Dilma à sucessão de Lula. Depois, filiada ao Partido Verde, por lá ficou somente até perder o controle partidário para Sarney Filhote. De ambos saiu batendo o pezinho.

O negócio dela, então, é partir à procura nos classificados dos jornais, começando pela seção "aluguéis de partidos". Uma vez o Silvio Santos achou por lá o 26, lembram-se?



Feliciano: " - Encosta tua cabecinha no meu ombro e chora."

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Shopping

Danda. Era como chamávamos a madrinha do meu pai, Arminda Aymone, minha tia avó. Apesar de ter nascido em Piratini, era uma jaguarense convicta. Para ela, Jaguarão era o máximo! Quando éramos guris pequenos e íamos - eu e meu irmão - passar férias na Cidade Heroica, saíamos em companhia da Danda para passear no fim da tarde, 27 afora (a rua principal de lá, para quem não sabe, é a 27 de Janeiro), para ver as "casas dos ricos", como ela fazia questão de frisar. Pelas mãos dela, fomos conhecer o Armazém Oscar Amaro (uma espécie de supermercado pré-histórico), a piscina do Cruzeiro, o modernoso prédio do Cine Regente (onde uma vez assisti a um "filme de piratas" com Errol Flynn) e o recém inaugurado Hotel Sinuelo. Tinha ela fixação por velórios e enterros, o que aumentava seu orgulho pelo Cemitério das Irmandades, lá de Jaguarão, no qual, ressaltava com um brilho nos olhos, as cerimônias fúnebres podiam ser realizadas à noite (era dotado de iluminação).
 
A Danda morreu faz muito tempo. Foi enterrada no Cemitério das Irmandades. De dia.
 
Lembro-me dela muito seguidamente, mas hoje especialmente por causa da inauguração do Pelotas Shopping.
 
Percebo que está todo mundo meio Danda nesta quinta-feira. Se ela estivesse viva e fosse pelotense, estaria com o tal "brilho nos olhos" e, muito provavelmente, se disporia a, pelas mãos, levar a mim e a meu irmão até o novo prediozão da Ferreira Viana.
 
Em homenagem à Danda (e a todas as "dandas"), evitemos de observar a efeméride sob o "viés" (expressão muito em voga no meio acadêmico) da "alienação", tal qual pensada por um certo barbudo alemão do Século XIX. Relaxemos e gozemos, pois!

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Calote


Eike já tinha levado
o calote da Luma
O ex-mega-bilionário Eike Batista anunciou ontem que sua empresa petroleira, a OGX, "optou pelo não pagamento das parcelas referentes aos juros remuneratórios" da dívida que tem com bancos internacionais. A notícia causou alvoroço nas bolsas de valores. Dizem que, por causa dessa decisão, Eike terá que enfrentar a lista negra do SPC e da SERASA, além de arcar com os 16,56% dos juros remuneratórios do Hipercard. Seguindo assim, brevemente o bacanão vai sentir o bafo da "classe C ascendente" na nuca! Bem fez a Luma, que pulou fora antes que o barco começasse a fazer água.

Farináceos, Cap. 6, Ver. 7

 
Ninguém mais quer "um cacetimeio".
Não se ouve mais pedirem
"um pão de quartiquilo".
Sinal dos tempos...
Cacetinhos e babies imperam, soberbos.
1x0 para o individualismo.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Quarenta anos esta noite (pelo Vaz)


Conheci o Schlee no início de 1973. (Ele tinha a idade que tem hoje meu filho mais velho... ) Ainda conserva os mesmos cabelos longos, o mesmo jeito alegre e sincero, o mesmo senso de humor e as mesmas convicções. Não mudou nada. Alguns meses depois eu já frequentava sua casa como um membro da família. Ele era pai de dois meninos. Fui adotado pela Marlene como filho mais velho e passei a pertencer àquela casa. Tempos depois, já considerado seu fotógrafo oficial, fui levado a conhecer Jaguarão e o resto do MundoFiz as primeiras imagens de sua filha recém-nascida; fiz também fotos do Vô Augusto, da Vó Maria, da Vó Darcyla, do Tato, da Thereza e do Tio Tontom. Até o Fox Terrier, Toco, também conhecido como Sepé Tiaraju de Montes Claros, passou pelas minhas lentes. Num dia 18 de agosto, há exatos 40 anos, ganhei meu primeiro livro autografado. Era sua Tese de Livre Docência que, presa pela ditadura, ele só pode defender anos mais tarde na Faculdade de Direito da UFPel. Aprendi muito com ele nesses 40 anos. Inclusive sobre Ética e Jornalismo. E continuo aprendendo. Mais que um Professor ou um Mestre, é um Amigo que tenho orgulho de ter. 
Quarenta anos... 
Aldyr Garcia Schlee era um guri. Ele tinha a idade que tem hoje meu filho mais velho.
 

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Amém, porra!

Neste momento em que o Papa visita o Brasil, a mim parece que está todo mundo meio que em transe. Loucura geral atrás do "Supra Sumo Pontífice". Jovens de todas as partes do mundo, sorridentes, sob chuva, cantando hinos simplórios e louvando Nossa Senhora e o diabo-a-quatro (força de expressão, é claro). Todos prometendo que somente experimentarão sexo depois do casamento e baboseiras tais quais essa. 

Já vinha observando, nos jogos decisivos do Atlético pela Copa Libertadores, as imagens dos torcedores presentes no estádio mineiro a rezar convulsivamente, seguindo o patético exemplo do técnico do time, o Cuca (que ficava beijando um rosário, um escapulário ou um patuá dessa natureza nos momentos mais decisivos dos jogos). Aliás, na expectativa de agradar ao Divino - e, com isso, ser automaticamente beneficiado na Terra - Cuca vestia uma camiseta preta com a estampa da Virgem Maria no peito.

Hoje li uma postagem no Facebook em que alguém agradecia a Deus pelo fato de dispor de uma casa quentinha, roupas e cobertas aconchegantes, além de uma família para protegê-la.

Beleza! Thank God! Então tudo é uma questão de individualidade. Se eu abanar para o Papa tudo vai dar certo para mim. Se eu pedir "com fé", vou patrolar meus adversários. E, evidente,  vencerei o inverno com calorzinho em casa.

E os outros, negadinha? Os que fizerem sexo antes do casamento (mesmo que isso não tenha atrapalhado a cerimônia)? Os paraguaios que jogaram contra o Atlético do Cuca? E os que sentem frio, os sem-lareira? Deus é ruinzinho com eles, né?

terça-feira, 23 de julho de 2013

Capitalismo

      Detroit está uma Boston!      
"Se está assim agora, imagina na Copa do Mundo!"

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Mais sexo, menos rugas*

Durante dez anos Dr. Henry dedicou-se
de corpo e alma à pesquisa,
período no qual ficou sem ver a cor da bola.
Um estudo do Hospital Real de Edimburgo, na Escócia, revelou que pessoas com vida sexual ativa representam ter de cinco a sete anos a menos do que sua idade real.
Henry O'Gaddon, ex-diretor de psicologia do hospital, estudou por dez anos a vida sexual de homens e mulheres de diversas idades.
Constatou que aqueles com aparência jovial faziam em média 50% mais sexo do que os demais. A explicação biológica estaria na liberação de hormônios como a endorfina (que diminui o estresse e a ansiedade e combate a insônia) e o hormônio do crescimento (que aumenta a elasticidade da pele, reduzindo rugas). Além disso, sexo é atividade física, queima calorias e melhora a circulação.

*Artigo publicado nA Saúde da Mulher (edição de julho/13) 

sábado, 13 de julho de 2013

Falsas são as proparoxítonas

desatenta,
com a cabeça no seu clítoris,
perguntou a moça ao tabelião:
 - assino ou meto a rúbrica?

(Homenagem a Alvarenga e Ranchinho)

sexta-feira, 12 de julho de 2013

12 de julho

O tucano Luiz Henrique Vianna propôs, a Câmara aprovou e o "prefeito-bonitão" (de acordo com o DP, claro) sancionou: por lei, neste 12 de julho passamos a comemorar o Dia do Poeta Pelotense.

Constata-se, com essa oportuna iniciativa, que os edis locais estão atentos ao "clamor das ruas".

O próximo passo na senda de homenagens aos poetas desta terra será convencer o Conselho Deliberativo do Esporte Clube Pelotas a alterar o nome do estádio áureo-cerúleo, o qual deverá ser rebatizado de Boca do Lobo da Costa.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Mix chic

Enquanto se lamenta o incêndio ocorrido no Mercado Público de Porto Alegre, aqui em Pelotas nosso Mercado teve seus portões de ferro reabertos, depois de longo período de inatividade devido às obras de reforma do bonito prédio. Entretanto, somente três bancas encontram-se ocupadas: uma por um barbeiro, outra pela associação das doceiras e a terceira por uma peixaria. O resto... fechadas. Natural: a fim de evitar que o populacho voltasse a tomar conta daquela zona de comércio, a Prefeitura colocou os valores das luvas, dos alugueis e das taxas de condomínio lá em cima. Não quer venda de sapatos vagabundos, de artigos de umbanda, de pratos feitos, de cachaça, dessas coisas pobres por lá. Como disse o Secretário  Municipal de Desenvolvimento Econômico e Turismo, Fernando Estima, em entrevista à RBS, "foi difícil fazer a limpeza no Mercado Central, agora não vamos deixar voltar a ser o que era". Que venham as "micro e pequenas empresas", a fim de que, definitivamente, se transformem em boutiques e bistrôs as tradicionais bancas do Mercado. Que se lixem os sujos, feios e malvados. A eles, o gueto aí.



quarta-feira, 10 de julho de 2013

Três tigres: Mariana, Aquino e Leonard


O lindíssimo felino aí é uma das quarenta ilustrações feitas pelo Alfredo Aquino especialmente para o livro "Breves Anotações Sobre um Tigre" (Ed. Ardotempo), da jornalista, poetisa e escritora Mariana Ianelli. O livro contém exatamente quarenta crônicas (em prosa poética) publicadas originalmente no site literário Vida Breve. Ganhei o livro domingo passado, do próprio Aquino, que é pai de Mariana (e editor dela e do meu pai). Muito bom! Entre os textos, selecionei o seguinte para aqui compartilhar, eis que dedicado a um mito contemporâneo que a mim agrada - e intriga - muito.

Quem é Leonard Cohen


Leonard Cohen era ainda um menino quando foi seduzido por essa mulher de sensualidade litúrgica, pestanas orvalhadas e perfume de vinhas floridas. Devia ter oito ou nove anos quando isso aconteceu, quando a poesia desabou sobre ele dentro de uma sinagoga em Montreal. Desde muito cedo pensou que podia ser escritor, mas nunca esteve absolutamente seguro disso. Foi assim que se mudou para a torre da Música, duvidando sempre. Foi assim que se viu atado a uma mesa, fadado a esperar por anos a fio até encontrar a palavra certa, o verso perfeito, porque essa era a sua religião.

Poeta, monge, cantor, amante são títulos que dizem pouco sobre Leonard Cohen. Melhor dizer que ele já abdicou de muitas coisas, que elegeu um país solitário e içou uma bandeira branca, que discutiu com a Eternidade e uma vez se deitou com uma mulher de ancas infantis em um quarto em Los Angeles. Que adormeceu a meio de um salmo, jejuou em segredo e foi um dos filhos da neve, esse mesmo filho que depois dos cinquenta teve saudades da mãe e desejou levá-la para a Índia e vê-la maravilhar-se com a cinza do Mar Arábico.

Leonard Cohen é esse homem pouco nostálgico, que não pode ser confortado nem guarda remorsos, o que teve o coração desfeito e ficou acordado a noite inteira pensando em alguma forma de beleza. É esse homem que afundou feito uma rocha, que raspou a cabeça, envergou uma túnica e agiu generosamente mesmo remoendo de ódio por dentro. É esse admirador das belas mulheres de Bombaim, o que espera que haja música no Paraíso, o pequeno judeu com sua Bíblia, que escreve sobre as sombras do Holocausto e sobre uma nuvem em forma de cogumelo, aquele que ama Joana d’Arc como uma de suas últimas mulheres.

Leonard Cohen é o estrangeiro que navega numa barca de asas mutiladas, o que compõe um longo poema chamado Isaías, o apaixonado que, mesmo tendo esquecido metade da sua vida, ainda se lembra das coxas de uma mulher escapando das suas mãos como cardumes de peixes assustadiços. É esse homem que uma vez sentiu o seu corpo tão cheio de ternura que se dispôs a perdoar a toda gente. Esse poeta que escreveu durante anos poemas em uma mesa entre ervas daninhas e margaridas no fundo de uma casa em uma ilha do mar Egeu. Esse amante da lua que já tentou remover com seus óleos o feitiço do rival sobre a memória da namorada.

Leonard Cohen canta para o vento porque o vento é amigo do seu espírito de pluma. Ele sabe que os insetos são como os místicos por mal distinguirem entre vida e morte. Sabe que as possibilidades estão aí para serem derrotadas. Sabe também que o seu tempo está se esgotando e que nunca entenderá completamente esse vale de lágrimas. Não espera vitória nem honrarias. Conhece muito pouco do seu próprio nome. Um dia reuniu suas partes todas em torno de uma súplica, desejou morrer na cruz por um amigo, hesitou entre abandonar um amor e acompanhar os peregrinos, deixou sua túnica pendurada no gancho de uma velha cabana de um mosteiro e levou uma mulher até a beira do rio para amá-la, como qualquer outro homem teria feito.

Leonard Cohen está sentado debaixo de uma janela onde a luz é intensa. Está muito perto das coisas que perdeu e sabe que não terá de perdê-las novamente. É esse homem que melhor se sente quanto menos sabe quem é. Esse que agora sobe ao palco para cantar, no auge dos seus setenta e seis anos, com seu chapéu de feltro e seu terno impecável, provando que ainda existe neste mundo uma nota de elegância. Que ainda existe alguém que sente e pensa com elegância. Isso ele nos diz sem palavras, com um sorriso de doçura, apenas.

E.T.: o tigre que ilustra a postagem foi "escaneado" da Zero Hora (coluna "contracapa" de 1º/7). No livro não aparece colorido (em razão da proposta gráfica da obra, evidentemente).  

34 anos depois (por Pedro Jaime Bittencourt Jr.*)

Em novembro de 1978, na Rua Botafogo, Bairro Menino Deus, em Porto Alegre, teve início o caso que ficou conhecido como “sequestro dos uruguaios”, acontecimento que ganharia repercussão internacional nos anos subsequentes.

Em 1979, o Governador Sinval Guazelli, da Arena (Aliança Renovadora Nacional, partido dos militares golpistas de 1964), esteve em visita à Faculdade de Direito da Universidade Federal de Pelotas, trazido pelo então Diretor daquela instituição, Prof. Silvino Joaquim Lopes Neto.

O sequestro de Lilian Celiberti e Universindo Diaz, ativistas políticos do Uruguay, refugiados no Brasil e retirados a força da sua residência na Capital do Estado, tornou-se célebre em toda a América do Sul, por se tratar do primeiro caso, quiças o único, devidamente comprovado do “colaboracionismo” militar existente entre os regimes ditatoriais do Cone Sul, visando a captura e “troca” dos refugiados políticos no Brasil, no Uruguai, na Argentina, no Chile e no Paraguai, dentro da chamada “Operação Condor”.

Com a manobra, os regimes de exceção impediam que os ativistas políticos de qualquer um desses países pudessem colocar-se a salvo das forças policiais de outro, o que implicou em prisões arbitrárias, na tortura e na morte de um sem número de pessoas ao longo dos anos 1970.

Sequestrados os uruguaios, e levados à pátria oriental pelas forças repressoras que faziam parte da Operação Condor (policiais do Brasil e do Uruguay que trabalharam juntos no caso), tiveram início alguns movimentos de protesto no país inteiro.

A vinda do Governador a Pelotas, viria a proporcionar uma rara possibilidade de indignação diante do crime consumado pelo Estado, ainda que não fosse seguro a ninguém protestar naqueles idos de 1979, quando, diga-se de passagem, muitos dos arautos da democracia de hoje eram meros sabujos dos ditadores da época.

Sem saber ao certo o que fazer, nós, jovens estudantes da UFPel, fomos até as escadarias da Faculdade de Direito esperar pelo Governador; de repente, um grupo tomou a dianteira e passou a receber o Guazelli com calorosos abraços e prolongados apertos de mão, entusiasmando a autoridade maior do Rio Grande do Sul.

A turma da qual eu fazia parte – um grupo de não mais que quatro ou cinco estudantes – ficou atônita, mas uma coisa nós já havíamos decidido: não cumprimentaríamos o Governador do Estado sob hipótese alguma, seria a nossa forma de “protesto” contra a presença dele na Cidade e na própria instituição.

Para surpresa geral, entretanto, o Ângelo Alfonsin “Zanatta”, um dos mais agudos do nosso grupo, resolveu fazer diferente, e espichou a mão para cumprimentar o Guazelli. Perplexos, nós pensamos que ele havia enlouquecido, afinal era um dos “nossos”, e estava agora de braço estendido para o Governador.

Percebendo a proposta de cumprimento, o Guazelli também ofereceu a mão para cumprimentar o Ângelo, que, ato contínuo e surpreendentemente, recolheu o próprio braço, desferindo a frase que me acompanha todos esses anos: – Eu só vou te apertar a mão no dia em que tu me devolveres a Lilian e o Universindo – disse, para espanto e constrangimento do visitante, que, puxado pelo Diretor, se encaminhou rapidamente para o interior do prédio da Faculdade, tentando se livrar do mal-estar causado pela expressão e pela reação do nosso pequeno grupo.

Pois na sexta-feira passada (28/06), no prédio dessa mesma Faculdade de Direito da UFPel, mas no auditório, não nas escadarias, eu pude conhecer a Sra. Lilian Celiberti e contar-lhe essa pequena história; a história de um gesto simples, mas que, como tantos outros que ocorreram no mundo inteiro, serviu para denunciar o arbítrio do Estado-sequestrador, sendo suficiente, na palavra da própria Lilian, para salvar-lhe a vida e trazê-la novamente, como cidadã livre, ao nosso País, onde atualmente acontecem centenas de protestos democráticos, agora, 34 anos depois...

Pedro Jaime e Lilian, na nossa Faculdade, 34 anos depois,
sob os olhares do Bruno, do Delfim e da Gilda
*Pedro Jaime é um velho amigo, desde a época em que estudamos juntos, no 2º Grau do finado Santa Margarida. Depois, fomos contemporâneas na Faculdade de Direito. De Arroio Grande, é Xavante e tem o Tino como referência futebolística. Aliás, é autor de "O 'Clássico' - Uma História de Paixão", sobre o futebol de sua terra, bem como responsável pelo excelente blog Auto Retrato (http://autoretratopedro.blogspot.com.br/).

A alternativa (por Luis Fernando Verissimo)

Iotti
Envelhecer é chato, mas consolemo-nos: a alternativa é pior. Ninguém que eu conheça morreu e voltou para contar como é estar morto, mas o consenso geral é que existir é muito melhor do que não existir. Há dúvidas, claro.

Muitos acreditam que com a morte se vai desta vida para outra melhor, inclusive mais barata, além de eterna. Só descobriremos quando chegarmos lá. Enquanto isto vamos envelhecendo com a dignidade possível, sem nenhuma vontade de experimentar a alternativa.

Mas há casos em que a alternativa para as coisas como estão é conhecida. Já passamos pela alternativa e sabemos muito bem como ela é. Por exemplo: a alternativa de um país sem políticos, ou com políticos cerceados por um poder mais alto e armado.

Tivemos vinte anos desta alternativa e quem tem saudade dela precisa ser constantemente lembrado de como foi. Não havia corrupção? Havia, sim, não havia era investigação para valer. Havia prepotência, havia censura à imprensa, havia a Presidência passando de general para general sem consulta popular, repressão criminosa à divergência, uma política econômica subserviente e um “milagre” econômico enganador.

Quem viveu naquele tempo lembra que as ordens do dia nos quartéis eram lidas e divulgadas como éditos papais para orientar os fiéis sobre o “pensamento militar”, que decidia nossas vidas.

Ao contrario da morte, de uma ditadura se volta, preferencialmente com uma lição aprendida. E, se para garantir que a alternativa não se repita, é preciso cuidar para não desmoralizar demais a política e os políticos, que seja.

Melhor uma democracia imperfeita do que uma ordem falsa, mas incontestável. Da próxima vez que desesperar dos nossos políticos, portanto, e que alguma notícia de Brasília lhe enojar, ou você concluir que o país estaria melhor sem esses dirigentes e representantes que só representam seus interesses, e seus bolsos, respire fundo e pense na alternativa.

Sequer pensar que a alternativa seria preferível — como tem gente pensando — equivale a um suicídio cívico. Para mudar isso aí, prefira a vida — e o voto.

*Crônica publicada na ZH de 1º de julho

Em um dia os jornais do Brasil inteiro publicaram o resultado de uma pesquisa que indicava o nível, altíssimo, de satisfação da população com o governo da presidente Dilma. A mesma pesquisa informava que, em situações diversas, com candidatos de oposição diferentes, Dilma seria reeleita no 1º turno. Mais que isso, apontava que, na hipótese de Dilma não concorrer à reeleição, Lula seria levado pelo voto, sem necessidade de 2º turno, novamente à presidência.

Pronto! Os descontentes "com tudo isso que está aí" foram às ruas. Sem lideranças explícitas (mas superimplícitas), sem bandeiras, sem partidos...

Golpistas de todos os tipos, saudosos da ditadura, aproveitam os ingênuos/babacas "redessocialistas" para lançar "propostas" do tipo "pelo fim da Câmara e do Senado". Aí, na hora de votar, optam pelo candidato bonitinho...

ET: o Pastor Malafaia bota mais gente na rua que todos os "V de Vingança" juntos. Shame!