quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Limpa com jornal...


Peru
 
Aqui em casa, o desafio é saber quanto tempo durará o peru. Costumamos recber gente para jantar na véspera do Natal, mas mesmo com a  ajuda de amigos e familiares, nunca conseguimos liquidar o peru de uma vez só. Sempre sobra peru para o dia seguintre, e o dia seguinte, e o dia seguinte... Às vezes, chega o Ano Novo e nós ainda estamos comendo o peru do Natal.
 
Nada nos restos do bicho lembra a majestosa ave que saiu do forno dias antes, cheia de si e de sarrabulho. Sua última aparição na mesa costuma ser na forma de tiras de carne branca ou escura misturadas com arroz, um melancólico risoto de despedida. Adeus, até que enfim, peru. Mas sempre há a possibilidade de que ele ainda volte à mesa como croquetes.
 
Uma vez fizemos uma contagem e descobrimos que havia mais judeus do que cristãos ou góis e ateus no nosso jantar de Natal. Mas nem o esforço concentrado de povos irmãos pode acabar com o peru numa única noite.
 
Já se cogitou comprar um peru menor, ou substituir o peru por outra coisa. Mas por que ir contra uma tradição familiar?
 
E, afinal, o Natal vem só uma vez por ano.
 
Graças a Deus.
 
BF: a tira é do Laerte e a crônica é do Veríssimo. Ambas publicadas hoje na Zero Hora. Geniais!

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Rescaldo dos 7


Tal qual agora...
 
Em 1974, quando da Copa da Alemanha, eu tinha 13 anos de idade. O Brasil era o campeão do mundo (e tinha vencido a "Mini-Copa" em 72). Portanto, eu não sabia o que era a Seleção perder jogo valendo. Quando aconteceu a nossa fatídica derrota por 2x0 para a Holanda, fui parar na cama, com febrão e tudo. Sequer me interessei em ver a final, muito menos a decisão do terceiro lugar (em que voltamos a perder, então para a Polônia do Lato e do Gadocha).
 
Dizia a imprensa da época: "é hora de repensar o futebol brasileiro!". Impunha-se, segundo se lia e ouvia, acompanhar os novos métodos de trabalho, copiar os conceitos do "futebol total" apresentados pela Holanda (que, entretanto, não ganhou aquela Copa - nem qualquer outra até hoje!). O Brasil, por sua vez, voltou a ganhar em 1994, foi vice em 1998, e ganhou novamente em 2002, seguindo nossos padrões "caóticos".

Anteontem perdemos feio, muito feio, para a Alemanha. Naturalmente eu não tive febre por causa da derrota, mas, confesso, fui para cama bem cedo (e foi custoso conseguir dormir). Cá entre nós, ainda com um pouco da resistência do guri de 13 anos que fui, será meio contra a vontade que assistirei aos jogos restantes desta linda Copa.

Consciente de que nunca haverá outra derrota tão medonha como essa dos 7, constato que, como em 74, os profetas do "eu já sabia" voltaram, agora, à tona. E têm, cada um deles, a fórmula mágica para "os novos rumos" que  tornarão nosso futebol vitorioso novamente.

A propósito, a ESPN propôs uma enquete: "quem deve ser o novo técnico do selecionado?" As opções eram Mano Menezes, Tite, Muricy ou... um estrangeiro ("qualquer um!", disse o apresentador). A Zero Hora sugeriu o Tite ("o gaúcho!") e, dentre vários cabeças de bagre, aponta, desde já, Luan, Grohe, Mario Fernandes, Sandro, Giuliano, Pato como candidatos às vagas para a Copa da Rússia. O PVC, aquele chatíssimo rei da estatística inútil, quer a contratação do Guardiola para técnico da Seleção.

Todos, sem exceção, dizem que nosso "modelo" está ultrapassado, que os europeus estão anos luz à frente. Opa! Como explicar, então, a classificação da Argentina à final, tendo ela uma estrutura administrativa semelhante à nossa. E como explicar, também, o fracasso rotundo de países do "1º Mundo", como a favorita Espanha, a gloriosa Itália e a Inglaterra, do campeonato nacional mais importante do planeta?

Ah, quanta asneira foi dita antes dos 7. E quanta asneira mais prosseguirá a ser proferida solenemente daqui por diante...
Eu, por meu turno, simplifico as coisas. Ainda que não haja justificativa para os 7 sofridos frente à Alemanha, a verdade é que nosso time é fraco. Foi o que viu em todos os jogos anteriores. Mas, em favor do técnico deve ser lembrado também que, desta vez, não há como reclamar a ausência, entre os 23 convocados, de algum jogador que tenha "feito falta". A crise é, antes de tudo, técnica.

E em 74 nós tínhamos Jairzinho, Rivelino e Ademir da Guia!

*Achei nos rascunhos do BF esse texto que escrevi durante a Copa entre as derrotas para a Alemanha e a Holanda. Não o havia publicado porque achei que tratava do óbvio ululante. Mas na época eu não tinha como prever que Felipão/Murtoza viessem a ser substituídos por Dunga/Gimar Rinaldi (!) e, muito menos, que a imprensa esportiva tupiniquim comemorasse entusiaticamente, com base nos jogos amistosos pós-Copa, o "belo trabalho de renovação" implantado pelos novos comandantes. Bah!

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

A TURMA DE LECH WALESA (por Moisés Mendes, na ZH de ontem)

Lech Walesa virou uma figura repulsiva. Nos anos 80, o eletricista polonês mobilizou os operários do porto de Gdanski contra o comunismo e deu os primeiros empurrões para que o muro caísse sobre o Leste Europeu.
Foi paparicado, ganhou o Nobel da Paz em 1983 e se elegeu presidente da Polônia. Depois, encaramujou-se na insignificância e hoje é um feroz militante homofóbico.
Walesa odeia gays por se considerar um homem extremamente religioso, assim como alguns brasileiros odeiam pobres, negros, índios e prostitutas, principalmente se tiverem o amparo de cotas e do Bolsa Família.
Essa figura patética, há muito desmascarada como arremedo de líder mundial e desprezada no próprio país, é o contraponto do atraso ao crescimento da militância política dos gays na Polônia, inclusive com representação parlamentar. Walesa faz a ameaça clássica de que os gays são um perigo para a humanidade.
No documentário Entreatos, sobre a campanha à Presidência em 2002, Lula diz, em conversa dentro de um avião, que Walesa era “um pelegão”. Não seria um democrata, mas um anticomunista útil aos americanos e à conservadora Igreja polonesa.
Há um exagero no desprezo de Lula. O polonês construiu a imagem de libertário, no contexto da Guerra Fria, porque vivia num país amordaçado. Só depois fracassou como presidente e como referência política e investiu no reacionarismo. Se viesse ao Brasil, poderia dar curso de preconceito aos incomodados com os avanços sociais dos últimos anos.
A extrema direita brasileira repete o que suas similares fazem pelo mundo. Como ocorre agora na reação conservadora republicana à iniciativa de Obama de legalizar a situação dos imigrantes.
Incomodados têm afinidades universais. Os ataques ao Bolsa Família são parte do mesmo desconforto causado pelas cotas e pelo ProUni. Aterroriza muita gente a hipótese de que um dia a empregada negra possa entrar na casa e anunciar que um filho será médico.
A ascensão social é perturbadora e logo ficará pior para os incomodados. A primeira geração de filhos que terão estudado mais do que os pais pobres está se formando agora. Depois, virão os filhos e os netos deles. É a amplificação do incômodo causado no final do século 19 pela extinção do escravismo. 
Os perturbados nacionais aprenderiam muito com Walesa. Ele oferece lições práticas. Entende, por exemplo, que os gays eleitos para o parlamento do seu país devem sentar-se nas cadeiras dos fundos, para não se misturarem aos heterossexuais.
Há na Polônia um partido que sustenta tipos com o perfil de Walesa, o KNP. Um dos líderes é o racista Janusz Korwin-Mikke, membro do Parlamento Europeu.
Korwin-Mikke diz que as mulheres não deveriam votar. Que é preciso acabar com os hospitais públicos. Que Hitler nada sabia do Holocausto. Que jovens que cometem delitos têm de ser chicoteados. E que Walesa, claro, é seu ídolo.
Se tivéssemos partidos como o KNP e outros que existem na Europa, a extrema direita não precisaria pulverizar seus apoios no Brasil em siglas que talvez nem a representem. Ou o PRTB de Fidelix representa os que abominam gays? Ou Fidelix é apenas uma figura grotesca, sem refinamento para atender às demandas de camadas mais sofisticadas dos incomodados?
Um partido permitiria a organização do pensamento à direita da direita, daria consistência ideológica a um discurso ainda desorganizado e revelaria a face de seus simpatizantes _ como já faz a esquerda da esquerda. 
A extrema direita brasileira, que talvez não seja pequena como se pensa, tem muito a aprender com as colegas francesa, alemã, polonesa, americana. Se perder a timidez e abandonar os disfarces, poderá abrir caminho para líderes semelhantes a esse Nobel da Paz que odeia gays.
 
BF: Moisés Mendes é o cara que está pronto para assumir o espaço há um milênio e meio ocupado pelo patético Paulo Santanna na Zero Hora. Já vem escrevendo ali na penúltima página do jornal duas vezes por semana (mas o moribundo reacionário é duro na queda!). Sou fã do Moisés. Acho que, além de escrever bem, sempre é muito lúcido nos seus artigos, chegando a entrar claramente em choque com a "linha" do jornal. Espero que não se deixe corromper pelo meio errebeessiano. 

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Aviso aos navegantes

Depois de muito tempo sem dar as caras por aqui, resolvi reler as coisas que vinha, até antes da Copa (malditos alemães!), postando no BF. É que, no carro, quando voltávamos para casa, mais cedo, comentei com a Fernanda e a Flor que tinha resolvido sepultar definitivamente o blog. Surpreendi-me com a reação das duas, ambas contrárias ao fim desde que sobrevive apenas por aparelhos. Morte cerebral? Não foi confirmada.
 
Li as postagens mais recentes. Não, não me envergonho delas. Meio bobas, meio simplórias, mas bem no espírito bipolar-flexibiliano.
 
Decidi, então: 14 de setembro de 2014 marca o início da segunda fase do Bipolar Flexível. Contrariando a placa castelhana aí de baixo, permitirei este retorno. Alô, Nanda e Flor! Alô Vaz e Ângelo, meus dois leitores abnegados! Câmbio...
 

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Tigre

Na noite de ontem sonhei com um tigre. Um tigre solto e furioso, que perseguia um monte de gente na rua (incrivelmente ali na Barroso, perto da esquina com a Butuí!). E eu tratava de me escapar do bichão. Acordei suado, mas aliviado por não ter sido engolido por aquele Shere Kahn do subconsciente.
 
No dia seguinte fui-me para o Google (que se presta para esse tipo de coisa) "pesquisar" a respeito dos significados do "sonhar com tigre".
 
Descobri muitas interpretações, umas indicando que sonhar com o grande felino é bom; outras, que é ruim.
 
As primeiras se baseiam no fato de que a imponente figura do tigre representa uma grande força, poder e beleza, conduzindo a uma perspectiva de superação de todos os obstáculos que se interpuserem pelo caminho da gente. Então, é sorte no amor e no jogo (chegando a  sugerirem números para se apostar no "bicho" e nas mais diversas loterias), ou que um grande ideal, cedo ou tarde, será alcançado.
 
Segundo as outras, ao contrário, sonhar com tigre revela um perigo iminente, uma traição impensável (no ambiente de trabalho ou no relacionamento amoroso), causado por uma "pessoa invejosa".
Chora, Kim Jong-un !
Eu, que não acredito nessas coisas e estou mergulhado de cabeça neste período pré-Copa, recebo o tal sonho como um aviso inconteste: a Coréia do Sul será campeã do mundo de futebol! Afinal, o tigre é o símbolo da Coréia, está lá (ou, mais precisamente, aí ao lado) estampado no escudo da federação deles.
 
Já revisei meus palpites nos mais diversos "bolões" que participarei, cravando vitória dos asiáticos até a final, dia 13 de julho, no Maracanã. Ninguém me segura (nem aos tigres asiáticos).
 
 

terça-feira, 3 de junho de 2014

Barbosa

Barbosa deixa a vida pública. Vai para a privada.
 
A medíocre classe média brasileira, que um dia imaginou um futuro collorido, agora se agita com a ideia de um negro porvir.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Brassica oleracea acephala


A RBS Pelotas (a sempre amada TV Tuiuti) brindou-nos hoje, no noticiário local do meio-dia, com interessantíssima reportagem sobre... um pé de couve gigante! É, não bastasse a matéria propriamente dita sobre essa verdura criada a Toddy no pátio do seu Augusto e que tem mais de cinco metros de altura (incluindo depoimentos do feliz proprietário e de vizinhos maravilhados com o portento), o jornalista ainda foi colher a abalizada palavra de um agrônomo sobre a peculiaridade.

Se é assim agora, imagina na Copa do Mundo!

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Provado (por Pedro Moacyr Pérez da Silveira*)

Está provado: é um pouco mais seguro viajarmos
em um avião bimotor do que em um bipolar.
 
 

*"Roubado" (descaradamente) do Facebook, sem autorização expressa (ou tácita) do autor.

Boring!

Estou em Porto Alegre. Sozinho, em um hotel da zona central. Na tevê, um jogo do Grêmio. Meu contato com o mundo, desde quarta-feira, tem-se dado através deste teclado. Explico: vim à capital para frequentar, por convocação superior, um curso de atualização em Direito e Processo Penal. Manhãs e tardes sentado, fazendo força para acompanhar, com um mínimo de interesse, assuntos técnicos que, daqui a pouco tempo (três anos), serão definitivamente deletados da minha cabeça, remetidos à lixeira dos arquivos inúteis da minha vida. A aposentadoria se aproxima.
 
Nesses dias tenho pouquíssimo falado. Um "bom-dia" a alguém no elevador ou na recepção do hotel; um pedido de um prato ao garçom que me atende no restaurante; um "obrigado" aqui, outro ali. De resto, silêncio. Nem com os outros que estão participando do curso acabo conversando. Não os conheço. Gente mais nova, que terá muitos outros cursos desses pela frente. Pobre gurizada, que usa uns ternos cafonas e muito gel nos cabelos. Pobres juizinhas feiosas (vai mal o Judiciáro Gaúcho no quesito beleza feminina)!
 
Amanhã volto para casa. Com muito assunto e vontade de conversar (menos sobre a nova Lei de Execuções Penais). 

quarta-feira, 19 de março de 2014

Elementar (Frei Betto)

Sabe por que nunca houve golpe de Estado nos EUA? Porque em Washington não tem embaixada americana.

segunda-feira, 17 de março de 2014

50 anos ontem (por Marcos Rolim*)

Março de 2014 está vocacionado à lembrança. O final do mês assinala 50 anos do golpe militar de 1964. Para as novas gerações, tudo parecerá uma referência remota; excessivamente longínqua para ser significante; demasiado abstrata para ser sentida. Uma parte importante dos problemas brasileiros, entretanto, deriva do fato de não termos sido capazes, como nação, de produzir um acerto de contas com a ditadura. Tudo se passa como se o Brasil tivesse escolhido não saber e, portanto, fosse incapaz de se apartar do mal produzido, do inaceitável e do absurdo.
 
A ditadura não pode ser lembrada pelos que não a viveram; espanta, entretanto, que a grande maioria da população não tenha, ainda hoje, as informações elementares a respeito daquele período e que nossas crianças não recebam nas escolas uma formação qualificada que valorize a democracia e que abomine toda e qualquer forma ditatorial de governo. Por estas e outras razões, o golpe militar que depôs um governo eleito democraticamente diz respeito a uma experiência ainda muito próxima de todos nós, dolorosamente próxima. Para todos os efeitos, a barbárie foi ontem.
 
A grande maioria dos países onde se viveu a experiência de regimes ditatoriais foi capaz de realizar um balanço efetivo e produzir uma verdade jurídica sobre as violações e crimes praticados pelos usurpadores. Nem sempre este acerto de contas implicou penas de prisão ou outras punições.
 
Lembrando a experiência de alguns de nossos vizinhos, Argentina, Uruguai e Chile já possuem vários casos de condenação de torturadores, assassinos e mandantes de crimes de lesa-humanidade. Em outras experiências históricas, como na África do Sul, a transição à democracia foi realizada com base em anistia, mas de forma substancialmente diversa daquela realizada no Brasil.
 
Desde a morte de Nelson Mandela, muitos foram os que se dedicaram a elogiar sua trajetória para reduzi-la à capacidade do perdão. Em tal conversa, tão autêntica quanto uma nota de 3 reais, os súbitos novos admiradores não mencionam o fato de Mandela ter sido considerado por muito tempo um “terrorista” por ter liderado a luta armada contra o regime do apartheid. Escondem, também, que a anistia construída por Mandela foi estruturada pela chamada “Comissão de Verdade e Reconciliação”, que concedeu o perdão, mas sob a condição de que os pretendentes relatassem seus crimes em sessão pública.
 
A anistia de Mandela, então, foi concebida e antecedida pela verdade. No Brasil, a ditadura se autoconcedeu uma anistia para assegurar exatamente o contrário. O principal, desde a ótica dos violadores, foi impedir que a verdade fosse conhecida. A meta foi facilitada, primeiramente, pela omissão histórica do Judiciário; conduta renovada, em 2010, pelo STF, quando do julgamento da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF 153), em que a Corte rejeitou o pedido da OAB para a responsabilização dos torturadores.
 
A manipulação sistemática produzida por grande parte dos órgãos de imprensa, entusiásticos apoiadores do golpe e sócios da ditadura, encarregou-se do resto. Em alguns casos, como fartamente documentado, órgãos da imprensa se somaram às tarefas da repressão clandestina, como a Folha de São Paulo, que emprestou viaturas ao DOI-Codi, para que os agentes as usassem em “campanas”.
 
Por este particular processo, seguimos diante de uma história mergulhada na opacidade. Lembrando Faulkner, penso que nosso passado, blindado oficialmente pela conveniência política e pela covardia, ainda sequer é passado. Tudo aquilo que há de triste e revoltante nesta história, entretanto, precisará ser revirado escrupulosamente se desejarmos que os fatos não sejam mais sombras e digam respeito, finalmente, ao que nunca mais será.
 
O fato de não termos responsabilizado os que torturaram, os que mataram pessoas sob a guarda do Estado, os que estupraram prisioneiras, os que sumiram com cadáveres, negando às famílias o direito de sepultá-los, entre muitos outros crimes, é uma das razões pelas quais, ainda hoje, a tortura e outras práticas abusivas são tão frequentes por parte dos agentes do Estado. Pela mesma razão, os que apoiaram a ditadura, assim como aqueles que enriqueceram com o regime liberticida – falam hoje em “democracia” sem qualquer vergonha. Seria até cômico, não fosse tudo isso expressão de uma ameaça que se torna mais real a cada vez que a ignorância e a estupidez – independentemente de filiação ideológica – depreciam o debate, desconsideram o interesse público, saúdam a intolerância e imaginam que a violência seja uma resposta, e não o apreço pela incapacidade de formular respostas.
 
*Publicada mo Extra Classe deste março/14

Precisava? (por Luis Fernando Verissimo*)

A volta do ioiô e do bambolê, tudo bem. Mas precisava voltar a Guerra Fria? Tantas outras coisas poderiam voltar em vez do equilíbrio do terror entre potências nucleares... Aquelas balas de coco que colavam no céu da boca, por exemplo. Baleiros nos cinemas. Filmes de caubói. Programas de auditório. “O vigilante rodoviário” . Os “Patrulheiros Toddy"!

Mas não, o que volta é a Guerra Fria. Pela Ucrânia, gente. (Dizem que nos Estados Unidos já tem gente tirando as bicicletas quebradas, os long plays e o resto da tralha acumulada dos abrigos antiaéreos, para o caso de o Putin atacar).

 
*Publicada hoje, na ZH

sexta-feira, 14 de março de 2014

Impunidade!

Há trinta anos um cara aguardava, no "corredor da morte", a execução da pena capital que lhe foi imposta pela prática de homicídio. Agora, numa reviravolta holiudiana, ficou comprovado que houve um erro judiciário, que o tal cara era inocente, não cometera o crime. Vai receber milhões de dólares de indenização. O cara é negro, claro. O fato aconteceu nos Estados Unidos, por supuesto, onde existe a maior população carcerária do mundo (e cuja maioria esmagadora é composta por negros, também por supuesto). Trinta anos na fila para ser executado... Se é assim agora, imagina na Copa do Mundo!

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

A sombra da maldade


Foto fantástica, publicada ontem no "The Independent". Faz lembrar o refrão de uma antiga marchinha de carnaval que minha mãe (só ela poderia guardar isso na memória!) me ensinou nestas férias:

Quem é que tem o cabelinho pro lado?
Um bigodinho que parece mosca?
Que cumprimenta levantando o braço?
Palhaço! Pallhaço!

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Guerra Fria

Há muito não via o Jornal Nacional. Faz mal para o meu fígado. Hoje (infelizmente) assiti ao tal "noticioso". E fiquei abismado em constatar que voltamos à Guerra Fria! O Bonner e Patrícia Poeta (grande atriz, que já sabe fazer a cara de cu que era especialidade da Fátima Bernardes) mostraram, na corrida, três notícias: uma sobre a situação na Ucrânia, dividida entre "o Ocidente" e o domínio russo; outra sobre manifestantes contrários à "influência cubana" na Venezuela e uma terceira acerca de parentes que não se viam há anos, porque separados à força quando da divisão das Coréias. No embalo dessa última, emendaram uma suposta foto de satélite que indica o contraste entre os dois países asiáticos: sobre o território da do Sul uma claridade, sobre o do Norte, trevas. Ressaltaram, os apresentadores, que a claridade, vista lá de cima, é sinal de desenvolvimento (de onde, concluo, os territórios mais desenvolvidos do planeta são as Farmácias Panvel).
 
 
 

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

O Peru é aqui!

No fim-de-semana passado estivemos em Porto Alegre. Eu, minha mulher e minha filha fomos ao Barra Shopping. Lá, momentos antes de sairmos, testemunhamos fatos dignos de envergonhar a torcida do Real Garcilaso.
 
Perto de onde fica um dos guichês para pagamento do estacionamento, em poltronas colocadas no centro do corredor, encontravam-se uns oito adolescentes e crianças que, pela aparência (cor, lógico, e roupas que vestiam), claramente não se enquadravam no "padrão xópim".
 
A presença delas foi o bastante para que, do nada, um segurança se postasse no acesso a uma loja de brinquedos. A ele, logo somou-se um outro. Mais adiante, uma moça, também da equipe (utilizando um walk-talk) se colocou, ostensivamente. Na porta de saída do prédio, provavelmente o chefe desse pessoal mostrava-se excitado com a situação, tratando com um subordinado, com certeza, da estratégia a ser usada para coibir eventual "rolezinho".
 
Quando, no pátio, chegamos ao nosso carro, por nós passaram dois dos adolescentes e uma das criança que eram objeto de toda aquela efervecência defensiva. Foram acompanhados de perto, por todo o estacionamento, até a rua, por outro segurança (que tripulava uma motocicleta).
 
Detalhe importante: TODOS os seguranças envolvidos no episódio eram negros ou mulatos. Certamente, quando mais novos, qualquer um deles que tivesse a ideia de visitar um desses locais destinados aos brancos, bonitos e cheirosos seria visto como potencial ameaça. Monitorado, constrangido, seria acompanhado até a saída, que ali não é lugar de negro, de pobre e de quem usa boné Nike falsificado.


 

À la Bandeira


 
Em 1943, Manuel Bandeira escreveu esta poesia, publicada no livro “Lira dos Cinquent’anos”. Leiam:
 
Pardalzinho

  O pardalzinho nasceu
Livre. Quebraram-lhe a asa.
Sacha lhe deu uma casa,
Água, comida e carinhos.
Foram cuidados em vão:
A casa era uma prisão,
O pardalzinho morreu.
O corpo Sacha enterrou
No jardim; a alma, essa voou
Para o céu dos passarinhos!
 
Quem me apresentou para Pardalzinho foi a Fernanda (que é do ramo das Letras), depois que submeti a ela o rascunho de um texto sobre uma caturrita que preparava para publicar aqui neste meio abandonado Bipolar Flexível. Tal texto, pela influência manueliana (quanta presunção!) acabou ganhando novo formato, ficando assim:
 
Habeas Corpus
 
Era uma vez uma caturrita.
Toda verdinha; claro, voava.
Alguém a caçou e vendeu para outro,
que passou a mantê-la - com as asas cortadas - em uma gaiola.
Nos gritos da caturrita
(desesperada, cumprindo pena
pelo crime de ter nascido livre e bonita)
seu carcereiro identifica: "puta! puta! puta!".
Eu, apesar de não entender bem a língua das caturritas,
juro que ouvi mais: "me soltem, filhos da puta!"

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Apelo à razão (por Félix Andrade Neves da Cunha S. Lopes*)


Não é possível! As pessoas de bem já não têm mais sossego! Quando se imaginava que na Princesa do Sul, de tantas e tantas tradições, o recentemente inaugurado shopping center serviria para, definitivamente, proporcionar  o necessário distanciamento físico entre nós, a nobreza descendente dos bravos charqueadores, e a negada em geral... eis que (como se observa na foto ao alto) um rolezinho se apresenta! Há que colocar a tropa na rua! Urge! Diário Popular nos funkeiros!!!!!!

*Ex-telionatário, agora é gente boa. Acredita na economia de mercado (desde que no "mix" exista pelo menos um bistrô e que as demais bancas não comercializem produtos para a chinelagem).

sábado, 11 de janeiro de 2014

Laerte


- Tem pecado velho? Hóstia amanhecida?
-Não.

-Quem era?
- Um pobre diabo.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Por um ano sem bordões (por Céli Pinto*)

Mesmo que se repitam ano após anos, os balanços são importantes, queiramos ou não, são momentos que paramos para nos perguntar o que aconteceu com as nossas vidas, o que aconteceu com o país e com o mundo. Mas, vou me eximir dos balanços e pensar no ano que entra, em 2014. E começo dizendo que este não é o Ano da Copa, não é o ano que ficaremos envergonhados frente aos estrangeiros porque haverá filas nos aeroportos, para tomar táxi e nos restaurantes. Este é apenas um ano que, em meio a múltiplas outras coisas, acontecerá no país uma Copa do Mundo de Futebol, durante um mês, promovida por uma organização privada, a Fifa. É um evento importante, trará turistas e divisas, sobraram estádios e talvez alguma melhora no transporte urbano. Mas é só isto. Um país com mais de 200 milhões de habitantes, com uma das economias mais importantes do mundo, com programas sociais que envolvem milhões de pessoas, não pode ficar paralisado à espera da Copa, com medo de que não vão gostar de nós. O bordão “imagina na Copa” revela que ainda não perdermos o complexo de vira lata tão bem cunhado pelo grande Nelson Rodrigues.

O ano de 2014 é um ano de eleições gerais no Brasil: serão eleitos presidente da República, governadores, senadores, deputados estaduais e federais. E, por isto é um ano especial. É um ano que necessita de muita reflexão, para não repetirmos outros tipos de bordão, que só mostram nossa imaturidade política. Este não é um ano para sair para as ruas dizendo que todos os políticos são iguais e que povo unido não precisa de partidos. Este é um ano para pensarmos politicamente, maduramente: sem políticos teríamos o quê? Sem partidos teríamos o quê? Ditaduras militares, tecnocráticas, teológicas? Há para todos os gostos.

Proponho para 2014 um ano sem bordões, um ano sem slogans, sem palavras de ordem vazias. Proponho para 2014 um ano político, um ano para refletirmos, para que discutamos durante o período eleitoral os nossos avanços e nossos grandes problemas. Precisamos reagir para que não haja uma campanha eleitoral medíocre dominada por moralismo de calças curtas, temas menores e bordões repetidos automaticamente sem nenhuma reflexão. E boa Copa para todos.
 
*Professora da UFRGS, pesquisadora visitante da Universidade de Oxford, Inglaterra.
Este artigo (que eu gostaria de ter escrito - tivesse condição pessoal para tanto) foi publicado na edição de hoje de Zero Hora.