quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Deprê

Foto do mural de Fabio Borges no facebook

sábado, 24 de setembro de 2011

Momento saudade


Otávio, Fernando Xavier, Celso, Birinha, Suly e Toinho;
Vanderlei, Cacau, Paulo Renato, Luis Fernando e Carlinhos.
GRÊMIO ESPORTIVO BRASIL

Eu não sei se no "livro do centenário" o Brasil vai publicar a foto desse timaço (no qual ainda atuavam o arqueiro Leal, o zagueiro Adilson Diniz e o meia Denner). Nem sei, exatamente, se o "livro do centenário" vingará. Por isso, provocado por um comentário do Ângelo, o BF se adianta e estampa o esquadrão que foi campeão invicto da Taça Governador de 1972. Naquela época o Ângelo atuava no juvenil do Xavante.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Aqui é assim mesmo (texto de Paulo José Miranda acerca de Contos de Verdades, de Aldyr Garcia Schlee)

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                Dedico este texto à minha querida amiga e jornalista gaúcha, Paula Russo
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Permitam-me, por favor, começar na Grécia Antiga, ao falar de Contos de Verdades, de Aldyr Garcia Schlee. Segundo Aristóteles, a diferença entre a história e a poesia é que a primeira debruçava-se sobre o que aconteceu e a última sobre o que poderia ter acontecido. Assim, desde esse tempo Grego, a literatura trata do que poderia ter sido. E a Atenas desse tempo fica tão longe da minha experiência quanto Jaguarão! Em verdade, o que poderia ter sido, muito mais do que o que realmente foi, é aquilo que nos leva à leitura. E parece por demais evidente o entendimento pleno de Aldyr Garcia Schlee acerca do ser da poesia, da essência da literatura.

A literatura começa com aquilo que o autor escreve muito bem no início do livro em “As Grandes Onças Brabas”: “(...) cada vez que venho aqui, perco um pouco o coração”. Este aqui a que o autor se refere é uma cidade fronteiriça, um vilarejo, um lugar mítico, como todos os lugares onde crescemos. Quando se cresce, nossa razão e nossa percepção nunca mais vão acertar com o que foi vivido aí, com o que continua subterraneamente a ser vivido alhures dentro de nós. Mas este aqui, que no caso é um cidade e um tempo que parece nunca ter existido, como tudo o que nos fascina, este aqui pode também ser uma aporia, pode também ser um modo de olhar a diferença do mundo e da injustiça. E é por esta injustiça que vamos começar, deixando o fascínio para mais tarde.

Permitam-me, então, por favor, e uma vez mais, uma pequena incursão à Grécia Antiga, desta feita a As Troianas. Porquê? Porque percorre ao longo deste livro de Aldyr Garcia Schlee uma clave humana que o liga ao grande poeta tragediógrafo Eurípides na tragédia As Troianas. Que tema é esse? A injustiça a que a mulher está votada neste mundo. Nesta tragédia, Eurípides mostra-nos algo mais do que mostra em outras poderosas e belas tragédias, mostra-nos que há ainda uma situação pior do que a situação humana: a situação humana da mulher (ao tempo de Eurípides). Contrariamente a outras tragédias que chegaram até nós, em que mulheres protagonizam a acção, como sejam os casos da Antígona, de Sófocles, ou da Medeia, também de Eurípides, a tragédia aqui não está ligada a uma má ou boa escolha na sua conduta (protagonizado por Antígona) ou à afectação de um tremendo pathos que nos leva a agir em direcção ao terror (protagonizado por Medeia). Tanto Medeia quanto Antígona poderiam ser homens, com algumas mudanças nas cenas, mas não Hécuba. Hécuba, protagonista de As Troianas, jamais poderia ser homem e esta tragédia mostra uma diferença essencial em relação às outras tragédias: a situação em que se está, em que Hécuba e as outras troianas se encontram, independentemente de ter sido ditada pela vontade dos deuses, ela não foi criada por nenhuma destas mulheres. Se Antígona traça seu destino ao dar um funeral digno ao seu irmão, contrariando tudo e todos, se Édipo traça seu destino ao matar o viajante que se lhe opôs no caminho e mais tarde a se deitar com a mulher mais velha por quem se apaixona, se Medeia traça seu destino ao se deixar vencer pelo ódio e seu destilado de vingança, Hécuba não teceu nada que a conduza a este seu fim. Para além dos deuses, foram os homens que a conduziram até aqui. Hécuba é vítima dos deuses e dos homens (não dos humanos em geral, mas dos homens em particular). E neste homens em particular, está ainda incluído uma mulher pérfida, Helena. Pois Helena não é aqui uma mulher, mas fraqueza dos homens.

Ora, é também isto que acontece nos livros de Aldyr Garcia Schlee. Como aquela expressão que se usa aqui no Brasil, o buraco é mais abaixo, com a apresentação da condição da mulher nos seus livros, a condição humana, o problema da condição humana é mais abaixo. A mulher aparece quase sempre como fraqueza dos homens, propriedade deles ou, no seu esplendor maior, o sofrimento humano para dentro, sofrimento humano calado, sofrimento humano profundo. Leia-se à pagina 18, ainda no primeiro conto do livro “A Flor da Aldeia”: “Inelda, sem surpresa, terá ficado sozinha como sempre, na estância. (...) mas o que quero dizer é que era apenas ela que ficava na casa, que nunca saia dali (ela só se lembrava de ter ido à cidade uma vez, quando o pai morreu) e que, desde a morte da cozinheira, desde que a filha dos caseiros tinha ido embora – desde muito – era apenas ela, sozinha, que se via com todo o serviço: fazia a comida: limpava, varria e espanava tudo; lavava e passava; cozia pão; costurava, cerzia e bordava...” A contraposição da solidão da mulher, deixada sempre em casa, sempre, para sempre, com a solidão do homem sozinho vagando pelas terras do mundo e sentado com ninguém nos bares das vilas e das terriolas mostra bem a miséria maior da mulher nesta vida. Para além da solidão humana, daquele que caminha pelo mundo entregue a si próprio e à incompreensão da vida, acresce ainda a solidão do abandono votado pelo homem, solidão de prisioneira, de mulher casada com um homem, presa na casa dele para sempre. E tem ainda pior, porque nesta vida tudo pode ser sempre pior. Leia-se agora à página 20: “Nunca seria diferente. Desde a primeira vez, desde a primeira noite, Inelda fora usada pelo marido como por obrigação. E era ocupada por ele, ainda, de quando em quando, aos trancos, depressa, sem um sorriso, sem um gesto, sem uma palavra de carinho. Como se tivesse por cima, a cobri-la, um animal.” Sem dúvida, não esperar um sorriso na vida é muito triste e pode atingir homem e mulher, mas ser ocupada é foda! Ser ocupada e nada poder fazer, sem nada sequer pensar que pode ser feito é a solidão máxima a que um humano pode ser votado. E este sentimento, que o autor nos atira à cara sem piedade, surge logo nas primeiras páginas do livro. O livro começa logo a violentar a nossa sensibilidade. Não faço mais citações, porque isso levaria a ler-vos o conto por inteiro.

Em “Luíza Vinha de Noite”, a mulher é nos relatada como algo que preenche o vazio da vida. Vazio que é tão somente não se saber o que fazer do tempo, sentir o tempo a sufocar-nos, por dentro, por fora, por todos os lados. Leia-se à página 29: “De cada vez que Luíza não vinha, deixava-me sozinha com o tempo: o tempo imenso que não tínhamos, alargando-se sobre mim a cada instante (...)” Mas Luíza, esta mulher, traz também o único poder que as mulheres deste livro têm: assombração! A mulher assombra a existência do homem, o querer do homem, a vontade dos homens. Luíza é, foi e sempre será um sonho! Quando a mulher não é prisioneira, escrava do homem, exerce sobre ele o seu verdadeiro poder, o poder de nos fazer sonhar. Mas a mulher é também violentada pela mulher, violentada na sua liberdade, nas suas escolhas, não só pelas palavras de outras mulheres acerca das suas decisões, mas até pela mãe, essa primeira mulher. Leia-se em “Amor Amor Amor”: “Ali no carro-motor, voltando para casa e levando a filha de volta como um traste sem préstimo, fazendo força para não chorar junto com a filha, a mãe de Celeste lutava para parecer calma e não discutir com a menina.” Mas uma pergunta irá repercutir em nossos corações, em nossas consciências: quem faz com que Celeste seja aos olhos da mãe um traste sem préstimo? Será que são as outras mulheres? Será que são os homens? Será que é o mundo?

E porque uma mãe precisa tanto de forças para não chorar? Porque é que uma mãe precisa, tantas e tantas vezes nesta vida, de ter forças para não chorar? E porque é que uma filha tem de mentir com tamanha veemência a uma mãe, gritando: “– É mentira, mãe! Eu nunca andei com esse homem... Te juro, te juro, te juro!” Porque chegam a Jaguarão, naquele dia, de carro-motor, uma mãe e uma filha abandonadas para sempre? Porque sentem que ao atravessar agora a Ponte, vindo de Pelotas, as vidas acabaram? Pelo desejo que um homem mais velho acalmou com a filha ainda criança de uma mãe? E mesmo que não se tenham tocado, se isso foi possível, a injustiça não foi feita? A injustiça dos homens sobre a decisão das mulheres?

Mas adentremos agora aquilo que me parece ser o núcleo duro da literatura de Schlee: o fascínio. E o fascínio de Schlee é pelo fascínio em si mesmo. O fascínio pelo humano, pela idade de ouro perdida que existe em cada humano, por esse estranho e inexplicável acontecimento que é a mudança de idade do humano, à imagem da mudança de pele das serpentes. O que é mais importante do que a verdade? O fascínio. Sem fascínio não tem poesia, não tem literatura. O fascínio por Jaguarão é a um mesmo tempo o fascínio pela poesia e o fascínio pelo humano que se perde de si mesmo, de cada vez que cresce.

Mas o que é propriamente isso a que chamamos “”fascínio”? Recuando uma vez mais no tempo, encontramos que a palavra latina fascinum tem de algum modo a sua origem na palavra grega βάσκανος, baskanos. Ora, baskanos era uma palavra usada pelos gregos no sentido em que alguém é atingido pela malícia ou pelo enganamento de outrem. O termo latino, fascinum, tem esta malícia como base, este ser levado no bico, como se diz em Portugal, ser levado na cantiga do outro, mas traz também uma novidade que a palavra grega não tinha: ficar sem querer ver outra coisa. Por conseguinte, o fascínio é ser levado na cantiga de alguém e ficar num estado de não querer outra coisa. Ficar encantado, ficar sob o efeito de uma qualquer coisa mágica, sob o efeito da cantiga do outro, à imagem do encantamento produzido pela flauta de Pan. Jaguarão e seu passado, o da história e o da poesia, isto é, do que foi e do que poderia ter sido, exerce um fascínio tremendo em Aldyr Garcia Schlee, e ele não quer ver outra coisa, outra cidade, outras paragens. Nenhum lugar do mundo exerce esse fascínio no autor, nenhum lugar o encanta como Jaguarão. E partindo da consciência deste fascínio, ele escreve e nos fascina, como quem se vinga. Literalmente, Schlee nos leva na cantiga dele, prostrando-nos num estado de não querer outra cantiga, pelo menos até que ela se acabe, até que o livro se feche na última página. Mas o fascínio de Jaguarão, com já se disse de passagem no início, não é somente o fascínio pelo lugar, mas pelo tempo. E o tempo, aqui, não é o tempo do lugar, mas o tempo de crescimento, o tempo em que o autor se deixava levar nas cantigas que lia, que via ou que lhe contavam, até mesmo várias vezes ao dia.

O tempo em que somos levados na conversa do outro e ficamos parados a escutar, como se nada mais importasse, é parte do fascínio que Jaguarão exerce sobre o autor. Não se confunda, contudo, isto, com a recorrente história do retorno à infância, ou a cantiga do fascínio pela infância perdida. O fascínio não é tanto pela infância perdida, mas pela consciência da existência de um tempo fascinante em nós. Leia-se à página 38, no conto “Missa por Rolando Vergara”: “(...) e toca-lhe um beijo na boca. // Foi tão rápido como não se imagina nem se consegue recordar por inteiro, mas até agora ela guarda na boca aquele beijo. Foi como se explodissem mil foguetes, revoassem dúzias de pombas, soassem todos os sinos lá na Praça da Matriz, em tarde de festa. Era como se ela ali tivesse despertado, tivesse acordado como num conto de fadas, porém – em vez de ter-se então quebrado o encantamento – foi então que começou o encantamento. // Quanto mais se precisa do tempo parado mais ele foge ligeiro. (...) Ah, o tempo! Ah o tempo que precisou de passar! Ah, o tempo!” Ao longo deste conto, o tempo surge quase sempre em itálico, em expressões exclamativas, como se se tratasse de um poema à parte, de um poema que acompanha o relato de Anita relembrando Rolando, de Anita perdida no encantamento, perdida no tempo e sua cantiga.

Ah, o tempo!  É aqui, nesta exclamação, que o fascínio se revela no seu máximo esplendor, porque o maior dos fascínios é o que nunca foi, que nunca é e que nunca será, como um poema. O tempo, a consciência do tempo será sempre a pele largada da serpente, que agora se olha e tudo faz parar, à excepção do que poderia ter sido, à excepção da poesia, da literatura, do fascínio. Há no humano, como condição ontológica, um lugar desconhecido que é, à falta de melhor expressão, uma vontade de fascínio, um desejo de ficar fascinado, um desejo de ficarmos nas mãos do outro; uma vontade de não nos pertencermos. É este constituinte do ser humano que Aldyr Garcia Schlee nos mostra, na sua tentativa de descobrir ele mesmo o que isso é e o que ele próprio é. Como escreve logo à página 11, acerca das grandes onças brabas, “Conta-se que elas atraíam e seduziam a gente com tal fascínio e encantamento que jamais qualquer um de nós pôde perceber que fora arrastado até ali a ponto de perder o coração.” E as onças brabas, aqui, além de serem o que são, também podem ser tudo o que esperamos que tenha acontecido ou que venha a acontecer.

Tem ainda, neste livro, as questões técnicas. Mais importante que isso: a consciência das questões técnicas. Só acerca disto, fosse eu outro que não eu, dava uma tese.

De qualquer modo, não quero deixar de salientar o conto “A Moça Dirundina”. Leia-se este conto e, se até aqui ainda não se tinha entendido o que era narrar, entenda-se agora de uma vez por todas, através das seguintes palavras com que o autor inicia cada pequeno parágrafo ou até algumas frases dentro desses parágrafos: “Imagine (...) Admita (...) Considere (...) Presuma (...) Figure (...) Pense no que terá feito o pobre do marido quando (...) Repare (...) Recorde que (...) Note ainda que (...) Se quiser, combinamos, que (...)”.

Mas este livro é, não devemos esquecer, um livro de fronteira: de vidas e lugares de fronteira. A única fronteira que conheci melhor ao longo da minha vida foi a fronteira entre ler e escrever: fronteira traçada por visões, e estas não têm identidade outra para além do que se vê e do que acontece. E foi só agora, com este livro de Aldyr Garcia Schlee, que compreendi por dentro, compreendi de compreender, que a leitura e a escrita são como Jaguarão: “Aqui é como do outro lado: manda quem canta melhor. Aqui, quando se vê as coisas acontecem.”

Sei que poderia terminar agora a minha apresentação, com a visão que pude, passando para o outro lado com estas palavras últimas de Aldyr Garcia Schlee acerca de Jaguarão, mas que eu leio, e sempre hei-de ler, como sendo palavras acerca do mundo: “Sei que é difícil acreditar, não é mesmo? Parece um mistério. Mas nunca se sabe direito o motivo.” De qualquer modo, prefiro acompanhar o autor, concordar com ele, e terminar precisamente com algumas palavras da última página do livro: “O tempo passou. E tudo que se conta talvez nunca se tenha sabido, assim como nunca se terá contado o que se pôde realmente saber. (...) a ponto de a gente não despertar para os idos, para o que foi, nem acordar para os havidos, para o que terá sido e já não saber o que é, o que poderá ser, o que será... a ponto de apagar-se até a imaginação.”

© Paulo José Miranda – edições ardotempo

Porto Alegre, 20 de Setembro de 2011
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Paulo José Miranda - Nasceu em 1965 na Aldeia de Paio Pires, a 16 km de Lisboa. É poeta, escritor e dramaturgo. Licenciou-se em Filosofia pela Universidade de Letras de Lisboa. É membro do Pen Club desde 1998. Viveu em Istambul entre 1999 e 2003, tendo viajado nesse período pelo Mediterrâneo e Médio Oriente.
Publicou três livros de poesia, cinco novelas (a mais recente em Junho deste ano), uma peça de teatro e um livro de aforismos acerca da América (EUA). O seu primeiro livro de poesia venceu o Prémio Teixeira de Pascoaes em 1997 e a sua segunda novela arrebatou o primeiro Prémio José Saramago em 1999. Recebeu uma bolsa de criação literária do Ministério da Cultura para escrever a sua terceira novela e uma outra da Fundação Oriente, para viver três meses em Macau e escrever a sua quarta novela (inserido no mesmo projecto que levou o escritor brasileiro Bernardo Carvalho à Mongólia e a escrever esse livro homónimo). Colaborou em revistas de vários países e há estudos acerca da sua obra em Portugal, Espanha, França e Brasil.
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Publicado em ARdoTEmpo e no velhaguardacarloskluwe.blogspot.com

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Marianne Faithfull em Porto Alegre

Ela veio.
Eu não fui.
Que pena!
       O público que encheu - mas não lotou - o Teatro do Bourbon Country na sexta-feira e no sábado recebeu o prometido pelo título do espetáculo de Marianne Faithfull: " uma noite íntima" com essa lenda da música pop internacional. Primeiro, entrou em cena o guitarrista Doug Pettibone - competente músico americano que já acompanhou nomes como Mark Knopfler, Joan Baez, Tracy Chapman e Jewel. Depois, foi a vez da dama, muito digna vestindo um terno preto e camisa branca, receber os aplausos. O concerto foi aberto pela canção que dá título ao mais recente disco de Marianne, Horses and High Heels (2011). Why Did We Have to Part, também desse álbum gravado em New Orleans,  foi o tema seguinte.
       - Estou feliz por estar nesta noite em Porto Alegre - saudou a simpática Marianne.
       Espiando as letras em folhas na estante, tossindo entre um trecho e outro, a cantora de 64 anos apresentou mais uma música de seu 23º disco: That's How Every Empire Falls.
       - Essa é uma canção antiamericana.  O império americano está no fim. Eles estragram tudo, e a gente não tem nada a ver com isso. -  justificou a dona da noite.
       O tom folk instaurou-se definitivamente com The Crane Wife 3, música original da banda The Decemberists que Marianne gravou em seu trabalho anterior, Easy Gome, Easy Go (2009).
       - Não se preocupem, eu vou cantar as músicas que vocês estão esperando - desculpou-se desnecessariamente  Marianne antes de cantar Love Song, também de seu novo álbum.
       Ao final da bela canção, anteriormente gravada por Elton John, beijou Pettibone e anunciou  o primeiro sucesso do repertório: Sister Morphine.
       - Esta música foi escrita com um cara chamado Mick Jagger - informou Marianne antes da interpretação visceral da música registrada pelos Stones  no disco Sticky Fingers (1971).
       Apesar da tosse intermitente, a vocalista acendeu um cigarro antes de interpretar a balada country Sing me Back Home, e ainda brincou:
       - Eu faço isso para atormentar vocês porque eu posso. Ser Marianne Faithfull tem suas vantagens.
       Broken English mereceu também uma versão rascante da intérprete, acompanhada pelo violão cheio de efeitos de Pettibone - que nas primeiras músicas chegou a se sobrepor à voz da cantora. O retorno aos hits antigos chegou então ao começo de tudo com As Tears Go By, de 1964 ("A primeira música que cantei em pública"). Working Class Hero, de John Lennon, rasgou o ar como navalha na voz áspera de Marianne, que em seguida atacou com Ballad of Lucy Jordan - infelizmente  prejudicada na sexta por um problema técnico que desligou na metade o som do violão. A melancólica Strange Weather, de Tom Waits, fechou o show de pouco mais de uma hora. No bis, Marianne cantou a capella Love Is Teasin', linda canção irlandesa registrada por ela  em um disco da banda The Chieftains.
        A cantora e pianista Cida Moreira, que apresenta hoje no Theatro São Pedro o show A Dama Indigna, também dentro da programação do 18º Porto Alegre Em Cena, resumiu assim o espírito dessa inesquecível noitada:
       - Ela não enfeita, ela é crua. A voz da  Marianne é maravilhosa! O que eu gosto é o estrago que a vida fez nela. Marianne sobreviveu a ela mesma.

*Texto de Roger Lerina, publicado na ZH de 21 de setembro.

Orgulho de ser Dilma (por Andrey Schlee)

       “Pela primeira vez, na história das Nações Unidas, uma voz feminina inaugura o Debate Geral. É a voz da democracia e da igualdade se ampliando nesta tribuna que tem o compromisso de ser a mais representativa do mundo. É com humildade pessoal, mas com justificado orgulho de mulher, que vivo este momento histórico. Divido esta emoção com mais da metade dos seres humanos deste planeta, que, como eu, nasceram mulher, e que, com tenacidade, estão ocupando o lugar que merecem no mundo. Tenho certeza, senhoras e senhores, de que este será o século das mulheres. Na língua portuguesa, palavras como vida, alma e esperança pertencem ao gênero feminino. E são também femininas duas outras palavras muito especiais para mim: coragem e sinceridade. Pois é com coragem e sinceridade que quero lhes falar no dia de hoje....”  (Dilma Rousseff, Presidente o Brasil, 21 de setembro de 2011)
       Tenho orgulho de Dilma! Estadista é isso! Como é bom ver um Brasil independente, senhor do que faz e do que diz. Com uma mulher eleita democraticamente abrindo a 66ª reunião da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). Uma mulher dizendo em alto e bom tom: "Lamento não poder saudar, desta tribuna, o ingresso pleno da Palestina na ONU. Assim como a maioria dos países nesta assembleia, acreditamos que é chegado o momento de termos a Palestina aqui representada a título pleno. O reconhecimento ao direito legítimo do povo palestino à soberania e à autodeterminação amplia as possibilidades de uma paz duradoura no Oriente Médio" ISTO É HISTÓRIA!!
       Para variar, a Rede Globo, no seu jornal noturno, esqueceu de “repercutir” (palavrinha deles) parte emocionante do belo discurso: "Sinto-me, aqui, representando todas as mulheres do mundo. As mulheres anônimas, aquelas que passam fome e não podem dar de comer a seus filhos, as que padecem de doenças e não podem se tratar, aquelas que sofrem violência e são discriminadas no emprego, na sociedade e na vida familiar. Aquelas que, no trabalho do lar, criam as gerações futuras. Junto minha voz às vozes das mulheres que ousaram lutar, que ousaram participar da luta política e da vida profissional, e conquistaram o espaço de poder que me permite estar aqui hoje. Como mulher que sofreu tortura no cárcere, sei como são importantes os valores da democracia, da liberdade, da justiça e dos direitos humanos". É que eles tinham que “repercutir” as baboseiras do Obama, o Nobel da Paz tapetão, que mais uma vez decepcionou! Eis a nova pérola: “A Paz não vem com resoluções das Nações Unidas”. É claro, para os americanos, e toda a turma desse engodo chamado Obama, a paz vem com bombas atômicas, com o terrorismo de Estado, e com o assassinato de milhares e milhares de civis na “Guerra contra o Terrorismo”...

Foto de Andrey Schlee
Cáceres - MT

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Carta do leitor

Seu Aldyr,
Como sua leitora fiel, venho, mais uma vez, tecer alguns comentários a respeito do Bipolar. Foi o Ariovaldo quem me alertou para o ar da matéria sobre Golbery do Couto e Silva. Papai também nasceu em Rio Grande e foi colega de Golbery no Ginásio Municipal. Foram grandes amigos nos tempos de meninice. Reuniam-se na casa da rua Paissandu para estudar. Certa feita, Golbery disse ao jornalista Elio Gaspari que foi matriculado no Lemos Jr. porque o reitor Luiz de França Pinto estava interessado em realizar uma experiência pedagógica. Mas ele nunca soube direito a que tipo de experiência fora submetido... Veja que mistério! Só sei que, mais tarde, ele passou a colecionar cristais venezianos com formas de passarinhos. Mando uma foto da turma do Ginásio Lemos Jr., em 1922, Golperi é o primeiro em pé, à esquerda. Papai está ao lado dele, de cabeça para baixo.
Um feliz 20 de setembro!
Lourdes Teixeira

Ai Jisuis!

No atletismo és um braço
no remo és imortal
no futebol és um traço
de união Brasil-Portugal
       Com base em documentos recentemente encontrados, pesquisadores da secular Universidade de Lisboa confirmaram que as descobertas marítimas de seus ancestrais não foram por acaso. Ao contrário, aconteceram de forma muito bem pensada.
       Cansados da monotonia na "terrinha", os intrépidos marujos deram um tempo nos tremoços e foram à cata das índias, que apesar das tetas meio caídas, davam mais caldo que suas cachopas bigodudas. Na volta, para engambelar as furibundas patroas, os lusos trouxeram a canela, usada por elas no arroz-de-leite, e o cravo, que, da mesma forma, integrou-se, como coadjuvante indispensável, ao sagu-com-vinho.
       De se registrar, por oportuno, que essas se tornaram as sobremesas favoritas (e a causa mortis) do Rei Dom João II, "o Diabético".
       Vasco da Gama, tua fama assim se fez!

Os patriotas (por David Coimbra)*

       Foram tantos os pedidos, tão sinceros, tão sentidos, que decidi escrever sobre o gauchismo e quejandos, candente assunto do Sala de Redação de quarta-feira passada. Que foi o Lauro Quadros encerrar o programa e já começaram a desaguar mensagens por todas as vias de comunicação possíveis. Gente me criticando, gente me apoiando, gente ponderando. O debate era sobre a execução ou não  do Hino Rio-Grandense nos estádios. Disse,  e repito, que expressões de nacionalismo e patriotismo são em prmeira instância ingênuas e, em segunda, nocivas.
       O nacionalismo nasceu, de fato, com a Revolução Francesa. Desde então é  que foram implantados os hinos, as bandeiras e a noção de fidelidade a um lugar interfronteiras. Antes, devia-se fidelidade a um rei ou a um senhor feudal. Os casos mais próximos do patriotismo moderno eram os das cidades-estados gregas e da república romana. Havia, nesses casos, fidelidade à classe, à condição de cidadão.
       As mais sangrentas guerras do mundo se originaram do nacionalismo. As maiores atrocidades cometidas no mundo se originaram do nacionalismo. Porque o nacionalismo, naturalmente, desvia-se para a exclusão. Você cultua o lugar em que nasceu, as suas tradições, os hábitos dos seus conterrâneos, e logo está achando que o seu lugar, as suas tradições e os seus hábitos são melhores do que os dos outros.
      Isso não significa, obviamente, que você não deva respeitar, entender  e estudar o seu lugar, as suas tradições e os seus hábitos. Sou um entusiasta da História com agá maiúsculo. Se você conhece a História, você entende o seu passado e, se você entende o seu passado, sabe o porquê das ocorrências do seu presente. É um dos princípios da psicanálise. Mas a História é diferente da  tradição e do folclore. A tradição e o folclore invadem o terreno da mitologia. Donde, a propriedade do verbo "cultuar", quando se fala em tradição e folclore. O "culto", a "veneração" dos heróis pátrios. A tradição está repleta de heróis. A História, se estiver repleta de heróis, talvez não seja mais História, seja lenda.
       Há que se respeitar as tradições, mas o verdadeiro civismo é o respeito às pessoas. É compreender que todas as pessoas são iguais, mesmo que nasçam diferentes, tenham cores diferentes, religiões diferentes e que cantem hinos de letras diferentes. Aliás, gosto dos hinos porque, se você estudar as letras deles, de quaisquer hinos de quaisquer países, constatará que todos ressaltam as qualidades guerreiras dos povos. Todos são bravos, são corajosos, são impávidos colossos, todos cometem façanhas que servem de modelo a toda a  Terra. E, se todos são assim tão valentes, todos, afinal, são iguais.
       De certa forma, esse amor-próprio elevadíssimo é positivo. Nós aqui, no Rio Grande, nos ufanamos de ter a mulher mais bonita do mundo, o clássico de futebol com maior rivalidade do mundo, o mais belo pôr do sol do mundo, o melhor centroavante do mundo e, agora, a mais linda rua do mundo. Pode ser tudo bobagem fátua, mas não faz mal acreditar. O mal se faz quando a tradição prende o homem ao passado e, pior, a um passado que nunca existiu. O mal  se faz quando o regionalismo se transforma em exclusivismo cego. O mal se faz quando não se percebe que há muito para se ver lá fora e que, aqui dentro, é preciso olhar para a frente, não para trás.

*Crônica publicada originalmente na Zero Hora de sexta-feira passada, 16 de setembro.

domingo, 18 de setembro de 2011

“Sirvam nossas façanhas... " (por Andrey Schlee)

        Agora a história é outra, mas igualmente verdadeira.
       O último desfile de 20 de setembro que assistimos foi ainda quando vivíamos em Santa Maria. A Avenida Medianeira estava cheia. Muita gente, crianças por todos os lados, e fazia calor. A cavalhada foi longa. Cada CTG com sua bandeira. Cada escola com seu piquete e, já no fim do desfile, algumas carroças alegóricas. Como sempre, havia de tudo: gordos em cavalos magros, gigantes montando petiços, primeiras prendas só com beleza interior, senhoras portando chiripá e bigode. Gente que sabe montar, gente que nunca havia visto um cavalo antes (a turma do Hipoglós!). Um cusco manco e vários orgulhosos guaipecas.


       Mas o que chamava atenção era um bêbado que teimava em atravessar o samba comentando, em alto e bom som, o longo festejo. Foi quando viu se aproximar uma representação do Negrinho do Pastoreio. Uma triste representação é claro! Um negro velho de bermudinha branca sobre um matungo igualmente branco (a ideia deveria ser um menino negro, escravo, nu, aproximadamente quatorze anos, montado em um belo cavalo baio). Não deu outra! Ao presenciar a cena, o bêbado comentarista gritou:
       – É ISSO AÍ!! NÃO TE MICHA, NEGRÃO!!!!

Lady Gaga vai casar! (por Andrey Schlee)

        As revistas de fofocas de toda Europa não falam de outra coisa! O casamento de Lady Gaga!!!! Os espanhóis sempre gostaram de acompanhar as bodas da nobreza. Mas nunca viram algo igual. Desta vez, a felizarda é a conhecida Lady Gaga, ou simplesmente Dona María del Rosario Cayetana Alfonsa Victoria Eugenia Francisca Fitz-James Stuart y Silva, mais conhecida como Duquesa de Alba, a vovó boca mole... Mãe de seis filhos, a Gaga já assoprou 85 velinhas e vai casar com o garotão Alfonso Diez Carabantes, 24 anos mais novo (que de gaga não tem nada!). A duquesa é uma das mulheres mais ricas da Europa, proprietária de uma fortuna de bilhões de dólares em imóveis e obras de arte. Tem 5 títulos ducais, 18 marquesais, 20 condais e é 14 vezes Grande de Espanha. Apenas ela pode entrar a cavalo na Catedral de Sevilha e não necessita prestar reverência ao Papa... Segundo afirmou Lady Gaga: “Alfonso não quer nada. Ele renunciou a tudo, só quer a mim”. O casório será em outubro e o irmão da noiva, o também conhecido Garibaldo, será o padrinho (Brasil!!!!!!!!!!!!).

sábado, 17 de setembro de 2011

Aiô, Silver!

"Vinte de Setembro,
data tão festiva,
foi a independência
desta terra tão querida."

       Lá nos idos dos anos 60, aluno da Dona Núbia na 3ª série primária do Santa Margarida, participei de uma encenação em homenagem à Semana Farroupilha.
       Era mais ou menos assim: depois de cantarmos a musiquinha aí de cima, alunos previamente selecionados levantavam-se e, um a um, representando os heróis farroupilhas, diziam um versinho a respeito de cada um dos diversos ditos cujos. Eu, para meu desespero, fui escalado para encarnar David Canabarro. Laço azul (é, azul clarinho!!) no pescoço, nervoso, na hora agá, "declamei" o texto decorado tão baixinho que ninguém ouviu! Que trauma!
       Daí, provavelmente minha aversão intrínseca a esse gauchismo de bunda assada que se vê por aí (especialmente nesta época do ano).
       Não tenho nada a ver com essas manifestações de júbilo a uma guerra (perdida) da qual meus antepassados não participaram. Eles chegaram depois de Ponche Verde.

Em tempos de CTG (por Andrey Schlee)

       A história pode até parecer inventada. Mas não foi...
       Na última segunda-feira entrei em um taxi rumo ao IPHAN. Ao informar  meu destino, o motorista, nascido em Brasília, logo questionou: – O senhor é gaúcho? Para, ato contínuo à minha resposta positiva, completar: – E o senhor é gremista ou colorado? Como sempre (e para encerrar o assunto...), respondi que era Xavante, e expliquei: – Sou Brasil de Pelotas. Mas, para minha surpresa, o motorista passou para um segundo tema preferido: – Mas de churrasco o senhor gosta? (como se torcer pelo Brasil significasse odiar futebol...). Novamente respondi que sim, e informei ao curioso condutor que, em Brasília, havia um CTG onde, no primeiro domingo de cada mês, é servido um saboroso costelão. Muito interessado, o motorista perguntou se ele poderia entrar no CTG. – É claro! Retruquei imediatamente. Acrescentando que não era necessário ter nascido no Rio Grande do Sul para frequentar um CTG. Foi então que ouvi o inacreditável: – O senhor, não entendeu! Perguntei se poderia entrar porque sou mulato!?!?

      
       Curiosamente, um dia depois, participei da mesa de abertura do seminário Quilombo Vivo – Promover e Proteger o Patrimônio Cultural Quilombola, realizado pela Fundação Cultural Palmares, em parceria com a Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Olha a Mangueira aí, geeeeente!


A foto acima (de Eric Fefeberg - AFP) foi publicada na p. 22 do Diário Popular de hoje. Ilustra matéria (Saudações à "Líbia livre") que dá conta da visita do primeiro-ministro britânico, David Cameron, e do presidente francês, Nicolas Sarkozy, a Benghazi, "sede do movimento rebelde que derrubou Kadafi".
Como se percebe pelas expressões faciais das "otoridades" européias, Cameron e Sarkozy ficaram bastante impressionados com o avantajado da "Líbia livre, leve e solta".

Busto a Golbery do Couto e Silva: um contrassenso em praça pública (por Juarez Rodrigues Fuão)*


Fotografia que servirá
de modelo para a
confecção do busto
em homenagem a
Herr Doktor Golbery
no além São Gonçalo

       Ao longo dos anos, tenho desenvolvido e orientado estudos sobre construções de monumentos e suas peculiares relações com as sociedades promotoras. Durante tais processos é bastante corriqueiro encontrar significativas divergências históricas, questões “esquecidas”, glorificações ajustadas, forçadas, quando não inventadas, disputas e apropriações do bronze por grupos políticos ou intelectuais. Entretanto, todos esses estudos mostraram nitidamente um fio condutor que justificasse, ainda que de forma deliberada pelo contexto da época da edificação, a homenagem ao personagem escolhido. Foram momentos peculiares, em que parte da população buscava, ao longo de história, figuras que melhor pudessem representar seu passado e servir de modelo para a consolidação de uma nova identidade. Questões, como Bento Gonçalves era monarquista ou republicano?; Artigas era oriental ou uruguaio?, naturalmente permearam as discussões na imprensa e no seio das comissões responsáveis pelo planejamento das obras representativas desses personagens nas primeiras décadas do século 20. Hoje, separado por um século, deparo-me com uma situação diferente, inimaginável e insólita nos tempos atuais: uma homenagem à violência, à censura e à opressão.
       Ainda que a obra proposta se resuma a um simples busto de Golbery do Couto e Silva, não possuindo a magnitude de um conjunto monumental como o erguido a Bento Gonçalves ou ao brigadeiro José da Silva Paes, a sua efígie não trará um mero discurso inocente, despropositado e facilmente digerido e aceito pela comunidade rio-grandina. Ela causará uma cicatriz bem mais profunda e perene na memória local.
       Estranha-me muito ver uma instituição partidária que, se no passado lutou pela volta da democracia no Brasil, hoje participa com orgulho da perpetuação de um dos personagens com atuação demarcada pelo regime opressor instaurado com o Golpe de 64.
       Indigna-me o fato de que ali, em frente ao busto do homenageado, passarão dezenas e dezenas de cidadãos, rio-grandinos ou não, que um dia sofreram a violência de um regime que silenciava a todos aqueles que ousavam ter voz em um país que, para o bem do governo, deveria ser mudo.
       Repulsa-me o fato de imortalizar alguém que se constituiu em personagem basilar de um regime em que a palavra “assassinado” era substituída por “desaparecido”, quando a palavra “democracia” valia menos que um cano de revólver em uma sala escura ou em um porão.
       Com essa homenagem, estaremos dando um atestado contra o próprio movimento democrático brasileiro e sul-americano. Enquanto sociedades vizinhas, como a uruguaia e a argentina, estão alocando os antigos torturadores e ditadores no banco dos réus, nós, rio-grandinos, estamos alçando-os a um pedestal em praça pública.
       Por vários motivos o erguimento de um busto público homenageando uma das principais figuras de um regime opressor soa-me como um rotundo deboche àqueles que acreditavam e acreditam na consolidação da democracia brasileira. Os políticos e a sociedade de um modo geral, não precisam buscar naquele período sombrio, instaurado em 1964, figuras para serem imortalizadas no bronze. Tão pouco o Exército brasileiro precisa desenterrar da história um passado tão nebuloso em busca de uma figura exemplar (o que dizer daqueles mais de 25 mil brasileiros que, apenas duas décadas antes do golpe, embarcaram em portos brasileiros em direção à luta contra o totalitarismo na Europa?).
       Como rio-grandino, confesso estar envergonhado e impotente frente uma Câmara dos Vereadores que deveria, em primeiro lugar, zelar pelo regime democrático e pela memória de nossa sociedade.
       Já chegou a hora de pararmos de falsear tão estúpida e impunemente o nosso passado.

Juarez Rodrigues Fuão, autor desse texto publicado hoje no Diário Popular, é doutor em História e professor adjunto do Instituto de Ciências Humanas e da Informação da Furg. É, também, beatlemaníaco e grande botonista.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Brrrrr...

Um dia o homem acordou e atinou
o porquê de estar sempre gripado:
há anos dormia com
um mini-iceberg de 60 litros.

O (outro) 11 de Setembro

       No dia 11 de setembro de 2001 eu estava no foro, que era ainda no centro da cidade. Lembro-me que, excepcionalmente, vestia terno e gravata (porque estávamos sob a inspeção anual da Corregedoria). Perto do meio-dia, quando ia almoçar, fui interceptado na frente do prédio do Jockey Clube pelo Mogango, o fiel guardador de carros daquela quadra da Sete. Esbaforido, ele me disse: "Padrinho, tão bombardeando os Estados Unidos!". 
       Em casa, vi pela tevê o que o mundo testemunhava em tempo real e atônito: os prédios símbolos da pujança yankee se desintegrando impávidos, após terem sido atingidos por aviões de carreira desviados em pleno vôo por ninguém-sabia-direito-quem. E logo veio a notícia de que o Pentágono (é, o Pentágono!) também estava em chamas! Bumba!
       E o que se via na telinha, nas CNNs da vida, eram cenas de um verdadeiro pastelão. Nem toda a tecnologia militar de ponta dos norteamericanos - tão decantada nos filmes de ação por eles enfiados goela a baixo do terceiro mundo - foi suficiente para evitar que meia-dúzia de barbudinhos-kamikazes esculhambassem o castelo de cartas deles. Bumba! e bumba!
       Cobertos de poeira, bombeiros apatetados, sem saber o que fazer, se chocavam com paramédicos (eles gostam dessas figuras!) bundudos. Nem Robocop, Rambo ou Capitão América evitaram o fiasco defensivo do país das "stars and stripes" e não apareceram sequer para o resgate dos chicanos, dos portorriquenhos, dos coreanos e, com certeza, dos valadarenses que ficaram sob os escombros das torres de papelão. 
       Dez anos depois, terrorismo mambembe retalhado com terrorismo de estado, a "América" continua captalizando com esse fato histórico. Saíram à caça de tiranos-ex-parceiros, que deixaram  de ser-lhes convenientes. Querem, agora, o petróleo árabe sem fantoches intermediários. 
       E eu continuo aqui, sem gravata e sem um pingo de comoção pelo 11 de setembro deles. 

O 11 de Setembro


Allende, a morte de um homem *
      
       Até o ano de 1973, a república chilena era uma exceção na história política latino-americana. Ela não participara da triste crônica dos golpes militares da América Latina. Um regime civilista estável e forte, garantido pela constituição democrática de 1922, dominava os poderes tradicionais, fazendo com que as Forças Armadas chilenas, ao contrário dos seus vizinhos argentinos, se mantivessem numa tradição de respeito às instituições do estado. O Chile, junto com o Uruguai, formavam um dos regimes políticos mais estáveis do Continente. Então, a partir do dia 11 de setembro de 1973, tudo mudou. A derrubada do presidente Salvador Allende, obra de um violentíssimo golpe militar, conduziu o Chile a padecer por 17 anos sob uma ditadura – uma das mais cruéis e impiedosas da história latino-americana.
Chovia sobre Santiago

       "Não tenho condições de ser um mártir, sou um lutador social que cumpre uma tarefa dada pelo povo. Entendam, porém, aqueles que querem fazer a história retroceder e desconhecer a vontade da maioria do Chile: sem ter carne de mártir, não darei nenhum passo atrás...Somente a balaços é que poderão impedir a vontade que é fazer cumprir o programa do povo." Salvador Allende, alocução das 8:45 h., da manhã de 11 de setembro de 1973.
       O tom cinzento, pesado, daquele dia de 11 de setembro de 1973, parecia ser um prenúncio das coisas amargas e ruins que ainda estavam por vir. Chovia em Santiago, O pessoal do serviço de segurança do Palácio de La Moneda, sede da presidência chilena, ouviu pelo rádio às 5:30 h. de que a Armada do almirante Toribio Merino alçara-se na base naval de Valparaiso. Não demorou muito para que o presidente Salvador Allende chegasse ao prédio do executivo para organizar a resistência. Pensou-se, por primeiro, ser um motim só da esquadra. Uma rajada de metralhadora pesada vinda de bem perto, de uma das três esquinas que davam para o grande edifício, logo os sacudiu daquela ilusão.
       Diversos tanques fechavam as ruas próximas e logo o presidente, por telefone, foi intimado a render-se. Allende, pela rádio Magallanes, em voz tensa mas calma, pediu que os trabalhadores ocupassem as fábricas, mas sem fazer-lhes um apelo geral pelas armas. Pelo meio da manhã daquele dia tenebroso, o tiroteio corria solto entre os carabineiros, os soldados do regimento Tacna mobilizados pelos golpistas e os membros da GAP, a segurança pessoal de Allende. Parecia uma cena medieval, na qual os janelões do antigo edifício – sede oficial do governo chileno desde 1846 - serviam como seteira para os seus escassos defensores (eram menos de trinta). O projeto da "via chilena para o socialismo", tão caro a Allende, se esboroava, se encolhia, agachado atrás dos balcões-trincheira do La Moneda.
       Como o homem parecia não querer afrouxar, mesmo tendo-lhe ofertado um vôo seguro para o exterior, foi a vez dos caças à jato entrarem em ação. Cruzando como um raio num céu sem inimigos, os Hawker Hunter da força aérea chilena, lançaram seus foguetes, 18 ao todo, sobre o palácio. Pouca coisa então restava a fazer. A extrema esquerda, o MIR e outros grupelhos, que infernizara o governo da Unidade Popular, não deram o ar da graça, nem ousaram sair à ruas para gritar o seu slogan "Avançar sem negociar".
 
 
Pinochet assume o golpe

       Enquanto o cerco prosseguia, o exercito chileno, de perfil prussiano, igual a uma força de ocupação colonial, dava início à operações-monstro nos cinturões operários de Santiago e de outras cidades menores. O general Augusto Pinochet, sucessor do general Carlos Prats, que renunciara 18 dias antes à chefia do exército, assumira a liderança do levante. Cara de pedra, colarinho apertado no pescoço, peito amedalhado, óculos escuros escondendo os olhos, era a própria caricatura trágica do general golpista latino-americano. Câmara Canto, o embaixador do regime militar do Brasil, à tarde, foi o primeiro a estar presente para reconhecer a junta de oficiais que assumira o poder.
       Allende, antes disso, tendo nas mãos um fuzil AK (premonitório presente de Fidel Castro, quando visitara o Chile, em 1971), vendo tudo perdido depois de uma resistência de várias horas, convenceu os sitiados, um por um, a irem abandonando o palácio, prometendo a todos que ele sairia por último. Um pouco antes das dez horas, deu-se a sua última fala radiofônica. Os que restaram até o fim, rendidos, foram depois conduzidos aos quartéis onde os fuzilaram e, depois, os dinamitaram.
Allende se suicida

       Reiteradas vezes ele dissera que não repetiria o destino de Balmaceda, o presidente que acabou se suicidando na embaixada da Argentina, depois de tentar inutilmente resistir aos golpistas de 1891. Porém, foi isso mesmo que ele terminou por fazer. Quando, enfim, o general Javier Palacios penetrou em meio aos entulhos do La Moneda, encontrou o presidente constitucional do Chile sentado num sofá vermelho com o tampo da cabeça estourada. Reconheceram-no pelo relógio. Ao entrar no salão da Independência, reservara a derradeira rajada para si: os dois tiros disparados do fuzil AK espalharam os seus miolos pela parede. Com ele, foi-se a única e última esperança de um socialismo democrático na América Latina. Como Getúlio Vargas, quase vinte anos antes, decidiu que não iria conceder aos seus inimigos o gosto de verem-no humilhado, escondendo-se numa embaixada estrangeira ou acovardado, fugindo assustado do país. Allende não, morreu como um homem.


*Texto do historiador Voltaire Schilling 

A Reconquista do Chile*

       Uma grande nuvem se eleva do palácio em chamas. O presidente Allende morre em seu posto. Os militares matam milhares pelo Chile afora. O Registro Civil não anota os falecimentos, porque não cabem nos livros, mas o general Tomás Opazo Santander afirma que as vítimas somadas não chegam a mais do que 0,01% da população, o que não é um alto custo social, e o diretor da CIA, Willian Colby, explica em Washington que graças aos fuzilamentos o Chile está evitando uma guerra civil. A senhora Pinochet afirma que o pranto das mães redimirá o país.
       Ocupa o poder, todo o poder, uma Junta Militar de quatro membros, formada na Escola das Américas, no Panamá. Lidera-os o general Augusto Pinochet, profesor de Geopolítica. Soa música marcial sobre um fundo de explosões e rajadas de tiros: as rádios emitem decretos e proclamas que prometem mais sangue, enquanto o preço do cobre se triplica subitamente no mercado mundial.
       O poeta Pablo Neruda, moribundo, pede notícias do terror. De quando em quando consegue dormir, e, dormindo delira. A vigília e o sono são um único pesadelo. Desde que escutou pelo rádio as palavras de Salvador Allende, seu digno adeus, o poeta entrou em agonia.

*Eduardo Galeano (na trilogia Memória do Fogo - O Século do Vento, LP&M)

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

A "ferrovia do diabo" II

Fotografia de Mário Castello
(apresentada ao BF pelo Alexandre Schlee Gomes)


quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Engraçadinhos II (por Andrey Schlee)

       Recebi a foto abaixo do diretor do Sítio Burle Marx (IPHAN). Um dos jardins mais belos do Brasil e que acabei de visitar! Na imagem podemos identificar o cartunista americano Saul Steinberg (de óculos), o paisagista Burle Marx e a arquiteta Lina Bo Bardi (de camisa listrada). Atrás, vemos as folhas imensas de uma Aracea. Contam que índios usavam as folhas como “cache-sex”. Ao ouvir tal estória, Steinberg exclamou: "Eles deviam moderar suas ambições!"


PS.: a imagem foi capturada do documentário Steinberg, Aventuras da Linha (
http://blogdoims.uol.com.br/ims/saul-steinberg-as-aventuras-da-linha/)

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Engraçadinhos*

       Os homens são mais engraçados do que as mulheres. Essa é a conclusão de um estudo feito na Universidade do Novo México (EUA), que fez testes com 200 pessoas de cada sexo.
        A pesquisa também revelou que quem tem a capacidade de fazer os outros rirem é mais inteligente, já que a elaboração de piadas exige criatividade e raciocínio rápido.
       A revelação mais indiscreta a favor dos engraçadinhos é que  eles são melhores de cama, já que o bom humor é um excelente atrativo.

*"Revelação" publicada na Zero Hora de ontem.

Eu, moléstia à parte, sempre fui engraçadinho!

A construção de um xavante (por Ivan Duarte)*

Vereador Ivan
"Salsicha" Duarte
       Era março de 1975. Eu, com 15 anos, chegava de Bagé junto com cinco irmãos, para morar e estudar em Pelotas. Minha irmã mais velha alugou uma casa próxima da Zona da Várzea. Fui matriculado na única turma de oitava série do primeiro grau da Escola Municipal Carlos Laquintinie. Nome muito esquisito, francês e lê-se Lacantiní. Mas, de cara, simpatizei com o Colégio.
       Naquela época, as escolas públicas eram bem melhores, todos reconhecem. Deviam ser mesmo, porque, no ano seguinte, fui aprovado em quarto lugar no vestibular da ETFPel. E olha que eu nunca fui lá muito estudioso.
       O pequeno Colégio, em frente ao Porto, deixou marcas profundas em minha vida. A primeira namorada, o primeiro beijo, as bagunças com os colegas da oitava, as brincadeiras na garagem, que era como chamávamos as nossas baladas de então... Banhos nas doquinhas, sorvete no Maryland, a Polonesa, os ensaios da Telles e da Bruxa... Ah! e tinha os terríveis, enigmáticos e assustadores "bandidões" da zona: Sebinho, Pardal, Casacão e Diabo Loiro... Que nos causavam temor e admiração... Tinham fama de valentões, brigões e não podiam ser contrariados, senão...
       Mas o que a gente gostava, mesmo, era de jogar bola. Eu, apesar de muito magro, era um veloz e promissor ponta-direita. Cheguei a vestir as camisetas de dois times da Zona da Várzea: do Fiação e Tecidos e do Penharol. Em Bagé, na infância, sonhava jogar no Guarany e, depois, no Grêmio. Mais tarde, optei pelos estudos e, creio, o mundo perdeu um craque...
       Um belo dia, recebi de alguns colegas um convite emblemático. Formar um grupo com status de gangue, para pegar tijolos em obras e ajudar na construção do Estádio Bento Freitas. No início, fiquei com medo, mas, em seguida, o espírito de aventura juvenil e a adrenalina falaram mais alto. Além do que, Sebinho, Pardal, Casacão e Diabo Loiro, qualquer problema, estariam do nosso lado, acreditávamos...
       Juro que não lembro quantos, dos parcos tijolos que peguei . O que não esqueço é da alegria que sentia, junto com meus "colegas-comparsas", quando estregávamos nossa contribuição. Também não dá para esquecer os percursos intermináveis carregando dois ou três tijolos cada um, para construir o "nosso" estádio.
       Não me movia um fanatismo inconsequente. Tampouco alguma consciência das necessidades ou algum apelo de um ou outro dirigente do time. Era aventura... pura ingenuidade. Nos imaginávamos Robin Woods do Laquintinie, algo assim...
       Hoje, ciente do erro que cometíamos, estranhamente, ora me envergonho, ora sou invadido por sentimentos que misturam saudade e alegria. E até uma pontinha de orgulho. Espero, diante de tal confissão, que o "crime" esteja prescrito. Até porque, ninguém nunca nos viu cometendo-o. Éramos muito rápidos. Pelo menos, era o que achávamos. E outra, não foram tantas noites assim, nem tantos tijolos...
       De tudo, o que ficou, além das lembranças, é um gosto bom de torcer pelo time "da nossa zona" e sentir-se parte dessa imensa e contagiante torcida rubro-negra.
       E foi assim que me tornei xavante.

       Esta crônica foi publicada originalmente no DP de hoje e é de autoria do Ivan Duarte, que comigo regula de idade - fomos contemporâneos de universidade. O texto nos remete a uma época que, para mim, também foi muito especial. Por coincidência, como ele, eu morava na Várzea, só que bem perto do Bento Freitas. E, como o Ivan e todo mundo, tinha imenso temor dos famigerados Sebinho, Pardal e Casacão (já mencionados aqui no BF, na postagem "Salve, salve, ó Pelotas querida!", de 25 de abril). Nunca estive cara-a-cara com qualquer um deles (ainda bem!), e hoje nutro dúvidas acerca da real existência dessas possíveis "lendas urbanas".  
       Já a ampliação do estádio, essa aconteceu de fato, fui testemunha. E foi à custa do trabalho voluntário, com material "doado" pelos torcedores, num verdadeiro milagre, que se deu em tempo recorde, entre a inesquecível vitória xavante no Bra-Pel decisivo do Torneio Seletivo de 1977 (1x0, gol que, nos nossos corações, imortalizou o ponteiro Tadeu Silva) e o jogo inaugural do Campeonato Nacional de 1978 (0x1 Joinville, que se encerrou sob o maior temporal já visto nesta terra).

A "ferrovia do diabo" (por Andrey Schlee)

       Nas minhas atuais andanças, verificando o que temos preservado por todo o Brasil, acabei de conhecer uma coisa realmente incrível. Um cemitério de locomotivas!!! O que sobrou de parte da fantástica ferrovia Madeira-Mamoré em Rondônia. Também conhecida como Ferrovia do Diabo, foi construída entre 1907 e 1912, e ligava a então incipiente Porto Velho à insignificante Guajará-Mirim, na fronteira com a boliviana Guayaramerin. A proposta era estabelecer uma alternativa ferroviária para o transporte fluvial, em trecho encachoeirado do rio Madeira. A difícil obra foi bravamente executada. Centenas de trabalhadores faleceram. E a produção de borracha da Bolívia chegou a ser escoada até Porto Velho.
       Mas o empreendimento do americano Percival Farquhar não durou. Foi criminosamente liquidado, como todo o resto da malha ferroviária brasileira. Em 1966, a Madeira-Mamoré foi desativada pelo governo Castelo Branco.
       Agora, cabe ao IPHAN resgatar parte do que sobrou (estação, armazéns, oficinas e algumas locomotivas...).
       Voltaremos!!!!!



Fotos de Andrey Schlee
       A história da epopéia em que se traduziu a construção da ferrovia Madeira-Mamoré, em plena selva amazônica, ganhou maior destaque recentemente, com a apresentação, pela Rede Globo de Televisão, de uma minissérie baseada no grande livro Mad Maria, do não menos  grande escritor amazonense Marcio Souza. Na época da apresentação da minissérie surgiram diversas publicações oportunistas a respeito da saga. Recomendável, porém, além do livro de Marcio Souza, é o álbum Ferrovia e Fotografia no Brasil da Primeira República (Metalivro, 2008), com pesquisa e texto de Pedro Karp Vasquez, que dedica mais de 70 de suas páginas à apresentação de cenas colhidas pelo fotógrafo norteamericano Dana Merrill durante a construção da "ferrovia do diabo", entre 1907 e 1911).