terça-feira, 31 de maio de 2011

Meu boi barroso

Muuuuuu!
       Conforme notícia publicada hoje no Jornal do Comércio, os pecuaristas gaúchos estão muito descontentes com o quilo do boi-gordo.
      Segundo a matéria, os criadores locais descobriram que, na verdade, o quilo do boi-gordo está com 1.235 gramas. Atribuem a responsabilidade por essa diferença ao Inmetro, a quem acusam de tratar o assunto com um peso e duas medidas.
       Ouvida a respeito, a direção do Inmetro esquivou-se de qualquer culpa, repassando esta à Balança (Filizolla) Comercial - que foi flagrada com um imã sob um de seus pratos.
     Os pecuaristas asseguram que, para evitar mais prejuízos, recorrerão até as últimas estâncias.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Surfista calhorda

       Demonstram as cartas encontradas pela polícia durante a investigação do homicídio de Zeca Bezerra que o assassino, Alemão Caio, é reincidente.
       Quando escreveu as tais missivas, mostradas pela RBS, ele já tinha cometido um atentado contra a Língua Portuguesa. 

O triângulo que originou a tragédia no litoral gaúcho.
Zeca Bezerra, Ivanise e Alemão Caio

One Flew Over the Cuckoo's Nest

       Na recente convenção do PSDB as diversas alas partidárias acabaram aceitando a composição que reelegeu Sergio Guerra para a presidência da sigla.
       Antes, porém, houve um certo mal-estar. Enquanto discursava defendendo a descriminalização da maconha, o ex-Presidente da República Fernando Henrique Cardoso foi veementemente aparteado por Aécio Neves, que o questionou:
       " - Mas baseado em quê?"

      
       É que o mineirinho representa outra corrente no seio da agremiação: a dos bio-eco-alternativos, contrários à fumaça e defensores dos motoristas à álcool.
       A tendência "Carequinha e Sem-sal", de Serra e Alkmin, preferiu manter o bico (do tucano) calado. 

Gatas

No café-da-manhã
das jovens modelos
até o bule mia.

domingo, 29 de maio de 2011

Marianne Faithfull

       Está confirmada a presença da cantora, compositora e atriz britânica Marianne Faithfull no 18º Porto Alegre Em Cena, que acontecerá na capital entre os dias 6 e 27 de setembro. Sua apresentação será nos dias 16 e 17, no Bourbon Country.
       Com 64 anos de idade e 47 de carreira, Marianne foi musa inspiradora dos Beatles e dos Rolling Stones, namorou alguns deles (além de Bob Dylan e David Bowie!) e acabou sucumbindo à morfina (o que a tirou do ar por algum tempo). Retornou com força total em 1979, com o disco Broken English, que foi aclamado pela crítica, mas que não rendeu, entretanto, sucesso comercial. O mesmo aconteceu com Strange Weather , de 1987, considerado um de seus melhores trabalhos. 
       A propósito, Stranger Weather encontra-se na relação dos "1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer" (editado por Robert Dimery, pela Sextante). No livro, o texto a respeito do disco (e de Marianne) é do produtor inglês Bruno MacDonald:     

Broken English

       "Ela podia ter sido a mãe de Sid Vicious - literalmente. Depois de uma década desnorteada pelas drogas, Marianne Faithfull decidiu não aparecer no filme dos Sex Pistols, The Great Rock'N'Roll Swindle, mas canalizar sua fúria movida a punk para um álbum.
       A energia e a objetividade do punk foram uma influência direta em Faithfull. musicalmente, Broken English não tem nada a ver com sua linhagem - os Rolling stones e as bonitas baladas que a tornaram famosa. No álbum, o que há é a pulsação eletrônica de "Broken English", o blues espacial de "Brain Drain" e o soul branco de "Guilt".
       "Working Class Hero" é gelada, mas eletrizante, com vocais imperiosos que soam mais parecidos com o riso irônico de Maria Antonieta do que com a amargura do homem do povo do original de Lennon. "The Ballad Of Lucy Jordan" é uma mistura de melancolia com uma melodia que pereceria do Abba, não fossem os vocais selvagens.
       Mas a faixa que faz Broken English continuar essencial é "Why D'Ya Do It". Baseada num poema do dramaturgo Heathcote Willians, está repleta de guitarras no estilo de Robert Fripp. A estrela é Marianne: fora de si pela infidelidade de seu amante, ela varia o tom entre Patti Smith e Grace Jones para vociferar uma letra na qual o verso "Why'd you spit on my snatch?" está longe de ser o mais desagradável.
       O álbum foi o ponto de partida para a recuperação de sua carreira, que levou a obras-primas como Strange Weather, de 1987. Mas nem quando cantou com o Mettalica ela deixou o público de queixo caído como em Broken English.
       Eu só vim a "conhecê-la" quando vi o filme "Montenegro, Pérolas e Porcos" (1981), dirigido pelo iuguslavo Dusan Makavejev, com Susan Anspach, Erland Josephson e Svetozar Cvetkovic). A abertura desse filme muito louco (meu "cult") é conduzida por  "The Ballad Of Lucy Jordan", cantada "roucamente" por Marianne Faithfull (aliás, sobrinha-bisneta do barão Leopold Ritter von Sacher-Masoch, escritor austríaco cujo nome deu origem ao termo “masoquista” por causa de sua novela erótica A Vênus das Peles, de1870).
      

        Eu vou de chapéu de palha! 

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Maracangalha

         No tempo em que eu era pequeno, tínhamos uma eletrola Hot Point. Havia em casa muitos discos de poesia (com declamações dos melhores poemas de Fernando Pessoa, Nicolás Guillén, Jorge de Lima, Vinícius de Moraes, Manoel Bandeira, Cecília Meireles, que o pai usava nas aulas dele, de português e literatura) e poucos de música.
       Quando foi comprada a eletrola, de brinde ganhamos um disco do cantor Miltinho. Também havia a indispensável Misa Criolla (com Los Fronterizos) e as peças engajadas "Arena Canta Zumbi" e "Opinião". Não sei por que, junto com esses, estavam o primeiro LP do Martinho da Vila; um esquisito, cujo título era "Besame Pepita"; o do filme "Mondo Cane" (que começava com uma cachorrada latindo) e uma coletânea, as "14 mais" (com um foguete na capa, que tinha a faixa "Green Leaves of Summer").       
       Lembro-me, ainda, do disco da "Banda do Canecão"; dos três do inigualável "3º Festival da Música Popular Brasileira" (de 1967, com "Ponteio"; "Alegria, Alegria"; "Domingo no Parque"; a vaiada "Beto Bom de Bola" e muitas mais); os quatro da "Música Popular do Nordeste", do selo Marcus Pereira; um preto, do Mitch Miller e, por fim, um bolachão dos Platters.  The Platters!
       Eles mesmos, o grupo vocal americano que se consagrou, nos anos 60, com "Only You", "Smoke Gets in Your Eyes", "Harbour Ligths", "The Great Pretender" e tantas outras e que vem a Pelotas no próximo domingo. Vai se apresentar no Guarany. Claro que com uma "nova formação" (a esta altura, provavelmente a 90ª formação!) .

      
     Convidei a Fernanda para irmos. Ficou surpresa... e declinou do convite!
   Então, só me resta recordar o bom-baiano Dorival Caymmi:

Se Anália não quiser ir, eu vou só
Eu vou só
Eu vou só sem Anália, mas eu vou! 

O pai dos escoteiros (por Eduardo Galeano)*

Baden-Powell by Andy Warhol
          Arthur Conan Doyle recebeu o título de sir, e não por causa dos méritos de Sherlock. O escritor ingressou na nobreza pelas obras de propaganda que havia escrito a serviço da causa imperial.
       Um de seus heróis era o coronel Baden-Powell, fundador dos Boy Scouts, os escoteiros. Ele o havia conhecido combatendo contra os selvagens africanos.
       - Havia sempre alguma coisa de esportista em sua aguda apreciação da guerra - dizia sir Arthur.
       Habilidoso na arte de rastrear pegadas alheias e apagar as próprias, Baden-Powell havia praticado exitosamente o esporte da caçada de leões, javalis, veados. zulus, ashantis e ndebeles.
       Contra os ndebeles tinha livrado uma dura batalha na áfrica do Sul.
       Morreram duzentos e nove negros e um inglês.
       O coronel levou de lembrança o corno que o inimigo soprava para soar o alarme. E esse corno em espiral, de antílope kudu, foi incorporado aos costumes dos escoteiros, e passou a ser o símbolo dos rapazes que amam a vida saudável.

* extraído do livro Espelhos - Uma História Quase Universal (L&PM Editores)

- Diz pro tio Baden: em buraco de paca, tatu caminha dentro?
- Que isso titio, num vem bullyingná, não! 

       Ah, a vida saudável! Banho de cachoeira com os lobinhos, ensinar a petizada a armar a barraca... Chefe escoteiro é que nem padre católico e treinador de escolinha de futebol, sempre disposto a ajudar a garotada.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

... perigo constante!

       Satte Alam é a mais tradicional concessionária Ford da região. Foi onde adquiri meu carro atual (e quase todos os outros que já tive). O dono dessa empresa, o Cacá, é um "turco" que suscedeu o pai e o tio dele na "lojinha" da família, sempre comprando, vendendo, consertando veículos e, de quebra, fazendo todo tipo de negócio envolvendo "dinheiro" (se é que me entendem...). Lá sempre foi possível levar o último modelo da linhagem do velho Henry Ford sem muita cerimônia, ou seja, da forma como se comprava antigamente na venda da esquina, de caderneta. Dá-se um cheque, depois troca-se esse cheque por outro e, assim, até que a dívida seja saldada (ou, antes disso, renegociada, levando-se outro automóvel, novinho, de roldão).
       Desde que funcionava aqui no centro, a oficina do Satte Alam sempre primou por um atendimento muito "particular", através de um grupo de funcionários com longuíssimo tempo de casa. Por conta da minha renitência com os Ford, há muito passei a ser tratado por eles como quase mais um da tal casa. Ao chegar já me integrava no debate sobre o futebol local e, muitíssimas vezes,  dei "consultas" sobre os mais variados assuntos "jurídicos" (incluindo questões trabalhistas, previdenciárias, de guarda de menores ou, até, policiais).
       O procedimento, fraternal e desburocratizado, nem sempre resultava em um conserto bem feito, é verdade. Mas nem dava para ficar brabo com isso. "Trás aí depois, que a gente vê!" era o antídoto contra qualquer eventual desgosto por causa de um trabalho mal feito ou incompleto. E depois se resolvia, sem sobressalto.
       Hoje voltei ao Satte Alam para trocar um dos amortecedores da tampa traseira do meu carro.
      De cara não encontrei os meus conhecidos recepcionistas. Um, segundo consta, está de "férias"; o outro foi trocado de função (agora é "testador" dos carros). Depois fiquei sabendo que, por exigência da montadora, a empresa local está em fase de adequação ao Padrão Ford de Qualidade. Resultado: muitos funcionários com dezenas de anos de casa tiveram de ser despedidos e outros estão em vias de seguir o mesmo destino. Agora tornou-se imprescindível o agendamento prévio do serviço, cadastro, liberação etc. Tudo de impessoal!
       Quem me atendeu foi uma mocinha, que me avisou que o conserto do meu carro demoraria uns vinte minutos. Uma hora e meia depois ela me chamou, informando que o serviço estava pronto, me deu o preço e me encaminhou ao caixa, para o pagamento.
       Quando eu retornava do caixa, no caminho, ela  veio ao meu encontro e disse: "- Seu Aldyr, deu um probleminha no seu carro." E explicou que, quando foi manobrar, na oficina, "ninguém avisou que tinha outro carro atrás!". Em suma, amasssou a traseira do meu carro! Mas ressaltou que eu não me preocupe, pois o conserto vai ser feito sem custos para mim! Basta que eu o agende...

        Preferia o velho Padrão Cacá de Falta de Qualidade!    

Don Frutos em buena companhia*


Foto de Alexandre Schlee Gomes
.
        Foi divulgada ontem a relação dos finalistas ao Prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa - 2011. Obras dos escritores portugueses Gonçalo M. Tavares, Inês Pedrosa, João Tordo, E. M. de Melo e Castro, do angolano José Eduardo Agualusa e dos brasileiros Adélia Prado, Cristóvão Tezza, Dalton Trevisan, Aldyr Garcia Schlee (Don Frutos, Editora ARdoTEmpo), João Gilberto Noll, Marina Colasanti, Carlos Heitor Cony, Mariana Ianelli, João Paulo Cuenca, Lourenço Mutarelli estão entre os 50 finalistas do Prêmio nas diversas categorias.
       Foram escolhidos entre as 380 obras selecionadas de um total de 420 inscritas. Uma nova relação de dez finalistas será divulgada em setembro.

*Publicado originalmente no velhaguardacarloskluwe.blogspot.com

terça-feira, 24 de maio de 2011

DKW

Carro, para mim, é Fuca, Simca, JK, Gordini, Aero-Willys e DKW!
Ah, e caminhão? Caminhão é Fenemê!

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Teste da farinha? (por Lourdes Teixeira)

      Seu Aldyr,
      Parabéns pela perspicácia! O Ariovaldo tem cada uma! Eu que sou a esposa não havia percebido! O que mais o Valdo pode esconder?
      Mas a carta publicada pelo Diário traz uma bela mensagem. É verdade, ninguém mais sabe cantar o Hino Nacional. A brotolândia, nem mesmo sabe como ouvir o hino ou reverenciar nossa bandeira.
      Lembro de meu falecido pai na Liga de Defesa Nacional ao lado do Dr. Apodi, de pé e com a mão no coração. Papai era quem organizava a corrida do Fogo Simbólico até o Altar da Pátria. Ainda posso vê-lo dando comida para o papagaio cantarolando "Nossos bosques têm mais vida/Nossa vida no teu seio mais amores".
     Papai foi um bom militar e um grande patriota. Amava o Brasil. Enviuvou cedo e, desde então, se dedicou à instrução dos escoteiros. Nunca mencionou o tal teste da farinha, mas adorava o refrão: “És belo, és forte, impávido colosso...”
      Lourdes Teixeira

Quem se habilita?

Ariovaldo existe, sim!

       Infundadas dúvidas surgiram quanto à existência do simpático casal Teixeira, Ariovaldo e sua senhora, Dona Lourdes. Chegaram as más línguas a dizer que um era fruto da imaginação deste que vos fala (ou escreve) e que a outra era, na realidade, criação do mano lá de Brasília. Qual o quê! A prova cabal de que eles são seres de carne e osso está, mais uma vez, no nosso centenário matutino. Nas "curtas do leitor" da edição de hoje (p. 5) Ariovaldo voltou a se manifestar (desta feita sob o pseudônimo de Valdir Correa). Vale a transcrição, ipsis literis:
     
       "Esse desinteresse do governo pela modernização das unidades militares, no meu modo de ver as coisas, começou com os governos civis, que confundiram a democracia com falta de patriotismo. a maioria do povo não sabe cantar o Hino Nacional. Estamos sendo governados por pessoas que não amam a sua pátria. estou dizendo isso, mas não sou um militar. Penso que todos deveriam adotar o lema O Brasil primeiro para os brasileiros. O serviço militar complementa a formação do caráter dos jovens."...
      
       Ah, seu Ariovaldo, que nostagia do velho tempo da caserna, do rancho, da ordem unida. Ah, seu Ariovaldo, que saudade do teste da farinha...

Derrubando mitos

       Para aqueles que acham divino o chocolate "caseiro" de Gramado, esclareço: a massa básica da referida guloseima é mesmo proveniente do Espírito Santo, mas do estado-membro e não do membro da Santíssima Trindade.

domingo, 22 de maio de 2011

London

Fotografia de Andrey de Aspiazu

Convescote no Inbraja (por Lourdes Teixeira)

       Seu Aldyr,
       Não gostei do último comentário postado.
      Ontem, depois da leitura matinal do Diário Popular, o Ariovaldo retirou a capa de proteção do nosso carro e nos dirigimos para um programa no Inbraja. Antes almoçamos na Rural, que oferece comida caseira por quilo. Desde que se aposentou, o hobby do Ariovaldo tem sido montar árvores genealógicas de grandes pelotenses. Material que eu trato de ilustrar e ornamentar com técnicas de pintura a ouro e craquelet barroco que aprendi no Senac.
       É fato que a fila de automóveis era longa, mas isso só demonstra que os pelotenses, desde o glorioso tempo das charqueadas, são cultos e preservam as suas tradições.
       O Ariovaldo chegou a se emocionar frente ao retrato do Barão. Sobre a querida Sinhá Costinha, devo lhe informar que foi a primeira grande artista de Pelotas. Além de pianista, pintava muito bem. No antiquário de Ricardo Osório Magalhães o senhor poderá encontrar, e até comprar, um belo retrato da princesa Isabel, a Redentora, da lavra de Costinha. Ela merece o nosso maior respeito. Matriz das nossas melhores tradições!
       Mando um retrato de Costinha já idosa.


       Lourdes Teixeira

sábado, 21 de maio de 2011

Que quadrinho(s)!


     "Pelotas. Para manter a memória viva. Essa é a proposta do mais novo espaço inaugurado na tarde de ontem no Instituto Senador Joaquim Augusto de Assunção (Inbraja). A Sala dos Barões já expõe duas relíquias históricas, retratos de José Júlio de Albuquerque e Maria Francisca Maciel da Costa Albuquerque Barros.
       Doados por Lilian Maciel Lisboa, neta do barão e da baronesa pelotense, e família, os quadros pintados a óleo mostram características dos Barões de Sobral. (...) Em uma tela, Sinhá Costinha. Mulher reconhecida por seus dons artísticos. Na outra, seu marido. Cearense da cidade de Sobral que se tornou, em 1888, conselheiro da Princesa Isabel. Esses trabalhos já podem ser conferidos no local a partir de hoje, das 14 às 18h."

Vista da Av. Adolfo Fetter, às 15h, na altura do Leco Peteleco
        O que é o poder da imprensa! Bastou que o Diário Popular de hoje publicasse em sua página 8 a matéria acima transcrita para que, no período da tarde, nossa princesinha experimentasse (para desespero do secretário Gastaud) o maior de todos os engarrafamentos aqui já registrados.
       Quer parecer que o DP não foi previdente o suficiente, pois deveria saber que, com essa notícia, evidentemente todos os pelotenses teriam o maior interesse em acorrer à sede do glorioso Inbraja, a fim de saciar o desejo de travar contato com as figuras ímpares do Barão e da Baronesa da Puta que o Pariu. 

Descalabro II (por Lourdes Teixeira)

       Seu Aldyr,
       Complementando as informações que meu esposo encaminhou ao seu periódico – que só tem contribuído para enaltecer a comunidade da metade sul do nosso Rio Grande –, gostaria de informar o que segue.
       O Ariovaldo tem toda a razão quando se mostra preocupado com o ritmo das obras para o torneio futebolístico internacional, mas os problemas vão muito além do atraso. Como foi dito na missiva anterior, nossa excursão passou pelas principais cidades do Brasil. Fiquei encantada com o Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, que é coisa para todo brasileiro ficar orgulhoso! Limpo e bem decorado. A passarela da Fé é muito bonita.
       Mas, como dito, escrevo para complementar as informações do Ariovaldo. Mando três fotos para ilustrar alguns problemas de construção. Como vamos receber mais turistas com hotéis assim?
       Aproveito para mandar um abraço para as meninas da Bosembecker e para o pessoal do condomínio Largo Vernetti.
       Lourdes Teixeira



sexta-feira, 20 de maio de 2011

Descalabro (por Ariovaldo Teixeira)

       Sr. editor desse estimado periódico eletrônico:

       Venho através deste correio manifestar minha preocupação com assunto de interesse nacional. Urge que as pessoas de bem, as forças vivas da sociedade, unam-se no sentido de exigir dos governantes medidas fortes (ah, que saudades dos tempos dos generais!), que coibam práticas malintencionadas e o enriquecimento de oportunistas antipatrióticos.
       Copa do Mundo se avizinha! Estamos a pouco mais de três anos desse grande evento esportivo e a infraestrutura do nosso Brasil continua precária. Aeroportos, estradas, hotéis, tudo, enfim, se mantém no maior atraso. A menos que desde já seja alterado este quadro de inércia, faremos um papelão, seremos motivo de chacota dos povos-irmãos mundo afora!
       Peguemos como exemplo somente os estádios: as obras recém tiveram início e já há notícia de que os gastos serão muito superiores às previsões, aos orçamentos originais. A roubalheira será enorme e, nós, contribuintes, é que pagaremos o pato.
       Desfrutando de minha recente aposentadoria, fiz uma gira com minha senhora por algumas das capitais brasileiras (em supimpa ônibus-leito da Empresa Bosembecker), quando tive a oportunidade de verificar, in loco, o descaso com o dinheiro público.
       Vejam os retratos que bati com minha Instamatic:

São Paulo, a locomotiva deste país, parece não estar levando a sério sua responsabilidade. Eis o estádio da Portuguesa de Desportos (que substituirá o do Corinthians, clube que não cumpriu as exigências mínimas da FIFA). Os dirigentes do valente clube do Canindé por enquanto apenas ofereceram pouco mais do que um esplêndido gramado, comprometendo-se a, em tempo hábil, erguer um estádio à volta do relvado.

A Fonte Nova, na malemolente Bahia de Todos os Santos. Por ser mais fácil do que erguer um novo estádio, os engenheiros soteropolitanos optaram por cavar, o que ensejou o apelido da novel contrução: "Buraco do Caetano". 

O acesso principal do Mané Garrincha, na Capital Federal, está bem adiantado. Permitirá, após a colocação do reboco e de duas ou três demãos de tinta, que os torcedores das seleções que por lá jogarem entrem e saiam sem maiores transtornos.
 
Devido à rivalidade entre os gaúchos, nem o estádio do Grêmio, nem o do Internacional, serão palcos da Copa no sul. Então, Gravataí - devido às facilidades - será a sede de jogos do torneio mundial. Tijolos e telhas não serão problema à conclusão das obras no outrora acanhado estádio do Cerâmica.

       Aproveito o ensejo para cumprimentar os leitores e solicitar às autoridades municipais a colocação de quebramolas nas principais artérias da nossa cidade.

       Ariovaldo Teixeira (aposentado)


Grandes quadrinhos*

FRANK & ERNEST - Thaves  
- Minha filha fugiu para casar com um anão!
- Dos males o menor!

NÍQUEL NÁUSEA - Fernando Gonsales
- Tem um pernilongo no quarto!
- Durma Waldir!

- Tenho certeza! Vou acender a luz!
- Deixa disso Waldir!

- ARRÁ!
- Eu posso explicar, Waldir!
*Publicados originalmente na ZH, de onde foram recortados (com tesoura mesmo) e (mal) scanneados (razão pela qual houve a necessidade da colocação de "legendas"). Versão brasileira, A.I.C., São Paulo...

Rua "Uma Terra Só" (por Luiz Carlos Vaz)

Amigas e amigos
Recebi da Andrea, Diretora de Patrimônio da Secult/Jaguarão o mail abaixo.

Eu estou todo exibido pois a sugestão foi feita por mim ao prefeito Cláudio Martins, durante a Feira do Livro de 2010, que encampou a ideia na hora, e, no ato, convidou o Schlee para Patrono da Feira Binacional do Livro de Jaguarão, edição 2011.

Caro Vaz,
é com grande satisfação que informo que ocorreu nesta segunda-feira (16/05), na Câmara dos Vereadores, a aprovação do projeto que intitula a rua ao lado do Mercado Público de Jaguarão "Uma Terra Só". Merecida homenagem ao escritor Schlee e a sua obra!

Estamos tratando agora de comunicar e divulgar a notícia e, principalmente, de pensar em uma solenidade que demarque a nomeação. Quem sabe fazemos isso durante o Fórum Jaguarão Cidade Patrimônio, a realizar-se na cidade entre os dias 27 e 28 do corrente? O que achas? Gostaria, por gentileza, de ter o contato do autor para que o Prefeito Cláudio Martins possa contatá-lo tão logo chegue de viagem, se é que já não o fez...

Abs

Andréa Lima.


Secretaria de Cultura e Turismo de Jaguarão

Praça Dr. Alcides Marques, 89.

CEP 96300-000

(53) 3261 51 00
--
Luiz Carlos Vaz

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Bombar... quê?

NINGUÉMCONHEÇOQUETOQUEBOMBARDINO
       Minha filha anda com vontade de aprender a tocar um instrumento musical. Não sabe qual.
       Durante um almoço o assunto veio à mesa. Ela pediu nossa opinião (minha e da Fernanda) a respeito. Nem sei por que, sugeri, de pronto: "bombardino!".
       "Bombardino, pai? O que é isso?"
       Quando expliquei a ela, na verdade me equivoquei: descrevi-lhe o que acho, agora, tratar-se de uma tuba (aquele instrumentão cromado, de sopro, que sempre é tocado por um cara gordão, vai lá no fundão da banda e que faz um som grave e esquisito, algo como "fonf, fonf, fonf...".
       Depois, durante a noite, acabei perdendo o sono e o tal do bombardino me voltou à cabeça. Constatei no escuro silencioso: "não conheço ninguém que toque bombardino". Bah, que coisa!
       Na manhã seguinte minha primeira tarefa foi pesquisar sobre o tal. Encontrei, no Aurélio, a definição e, através do Google, diversas imagens do -  já próximo -  dino (que também atende por bombardão). É um baixo de sopro, com canos volteados, pistões e cornetão voltado para cima. Grandão, mas bem menor que a tuba  (sua prima).
colagem do degas
       Para por aí? Não! Hoje, no carro, colocando o CD Refazenda (maravilhoso disco do Gilberto Gil) descobri no encarte, casualmente, que na faixa 5, Jeca Total, Luiz Paulo toca bombardino! Quem será Luiz Paulo? Se conhecesse esse cara (que nem sobrenome tem!), conheceria alguém que toca bombardino...

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Devolva nosso dinheiro! (por Luciana Genro)*

       A notícia do fechamento da Azaleia em Parobé é uma tragédia, particularmente para a cidade e para as 800 famílias diretamente atingidas. Mas, infelizmente, não foi uma grande surpresa para quem acompanha a trajetória dessa empresa nos últimos anos. Em 2005, ela fechou a unidade de São Sebastião do Caí, desempregando 2,5 mil pessoas, e em 2008 foram 800 desempregados em Portão. Agora, o Ministério Público Federal decidiu abrir inquérito para apurar como o Grupo Grendene, que controla a Azaleia, se beneficiou de empréstimos do BNDES da ordem de R$ 3 bilhões a juros ínfimos (menos de 4% ao ano), promovendo demissões em massa. O BNDES é um banco público, controlado pelo governo federal, e portanto deveria estar financiando a geração de empregos.
       No Rio Grande do Sul, a Azaleia tem recebido tratamento privilegiado. Durante o governo de Antônio Britto (1995-1998), a Azaleia foi beneficiada com incentivos fiscais que somam R$ 53 milhões atualizados. Não por acaso, esse ex-governador, ao sair do Piratini, passou a exercer a função de conselheiro da Abicalçados (Associação Brasileira dos Calçadistas) e depois ganhou o cargo de presidente executivo da Azaleia!
       A guerra fiscal é uma desgraça para o Brasil. Entrar ou não nela é uma decisão que deveria ser tomada pelo povo gaúcho, através de um plebiscito democrático no qual os prós e contras fossem debatidos. Afinal, é o dinheiro de cada contribuinte que está em jogo, portanto justíssimo que todos decidam juntos se uma empresa deve ser brindada com a possibilidade de não pagar impostos que fazem uma falta enorme aos cofres públicos.
       Mas o mínimo que um Estado deveria fazer ao decidir destinar parte dos impostos pagos pelo seu povo para uma empresa é exigir que ela devolva o dinheiro se resolver ir embora depois. Vai embora? Então devolva tudo o que recebeu de nós! Tenho certeza de que assim esta visão "migratória" das empresas iria se modificar.
       O movimento lançado pela Ajuris (Associação dos Juízes do Rio Grande do Sul), reivindicando transparência na concessão dos benefícios fiscais, ganhou ainda mais importância diante do caso Azaleia. Vamos todos somar nesta campanha, agora agregando mais uma reivindicação: Azaleia devolva o nosso dinheiro!
*Publicado originalmente na edição de Zero Hora do dia 12.5.2011

       BF:
       Antônio Britto, por onde andará? O Britto é aquele cara que se criou como jornalista, na Rede Globo, e que, depois, ficou muito mais conhecido por ser o porta-voz do Tancredo Neves.
       Quem é um pouco mais velho não se esquece dele, na telinha da tv, informando o Brasil diariamente sobre o estado de saúde de Tancredo, que eleito Presidente da República, adoeceu antes de tomar posse. Ele iniciava os boletins sempre assim: "senhores, trago boas notícias!", apesar de saber que o quadro era irreversível. Em poucos dias teve que informar a morte do chefe.
       O desenrolar dessa pantomina sempre me remeteu àquela velha piada do português cuja sogra morrera, que, para dar a notícia à mulher sem grande choque, foi informando a ela: tua mãe subiu no telhado...
"Qué Melissinha?"
       E o Brito, depois de ter se tornado político e governado este Rio Grande, acabou assumindo o cargo de "presidente executivo" da Azaleia (com toda certeza devido a seu vasto conhecimento do ramo calçadista!). 
       Seria de bom-tom que a Azaleia fosse buscar o Britto de novo, antes de anunciar sua próxima onda de demissões, propondo a ele que, como seu porta-voz, discursasse aos funcionários, começando por: "senhores, trago boas notícias..."

terça-feira, 17 de maio de 2011

Martha (by Tom Waits)


Martha
(versão de Fernanda Schlee)


Operador, número, por favor: faz tantos anos
Ela lembrará da minha velha voz
enquanto eu combato as lágrimas?
Oi, olá, Martha?
aqui é o velho Tom Frost,
Eu estou ligando de longe,
não se preocupe com o custo.
Porque faz quarenta anos ou mais,
Martha agora por favor queira me ligar,
Encontre-me para um café, onde vamos
conversar sobre tudo.

E esses eram os dias de rosas,
poesia e prosa
E Martha tudo o que eu tinha era você
e tudo o que você tinha era eu.
Não havia amanhãs, nós
mandamos para longe os nossos sofrimentos
E nós os guardamos para um dia chuvoso.

E agora eu me sinto muito mais velho, e
você mais velha também,
Como está o seu marido? E as crianças?
Você sabe que eu casei também?
Sorte sua ter encontrado alguém
para fazer com que se sinta segura,
porque nós éramos tão jovens e estúpidos,
agora estamos maduros.

E esses eram os dias de rosas,
poesia e prosa
E Martha tudo o que eu tinha era você
e tudo o que você tinha era eu.
Não havia amanhãs, nós
mandamos para longe os nossos sofrimentos
E nós os guardamos para um dia chuvoso.

E eu era sempre tão impulsivo,
eu acho que continuo sendo,
E tudo o que realmente importa
é que eu era um homem.
Eu acho que o nosso estar junto
nunca foi para ser.
E Martha, Martha, eu te amo
você não consegue ver?

E esses eram os dias de rosas,
poesia e prosa
E Martha tudo o que eu tinha era você
e tudo o que você tinha era eu.
Não havia amanhãs, nós
mandamos para longe os nossos sofrimentos
E nós os guardamos para um dia chuvoso.

E eu me lembro de noites calmas
tremendo perto de você...

Gasparzinho

Andrey, um fantasma feliz na Librería Linardi y Risso

That's the question


NOAM CHOMSKY
pensador norteamericano

      "Como reagiríamos se um comando iraquiano invadisse de surpresa a mansão de George W. Bush, o assassinasse e atirasse seu corpo no Atlântico?"
      

segunda-feira, 16 de maio de 2011

É o destino, é o destino...

       O Diário Popular de hoje traz como manchete, na sua seção policial: Homem é preso na BR-392. Na chamada relata que Rio-grandino estava com 570 cartuchos e 120 comprimidos de origem uruguaia.
       A matéria: Rio Grande. A Polícia Rodoviária (PRF) prendeu neste sábado, por volta das 15h, um homem com 570 cartuchos de munição e 120 comprimidos uruguaios para disfunção erétil.
       Ao final, acrescenta: Destino. A PRF teve conhecimento da carga através de uma denúncia. O material foi apreendido e ainda não possui definição de qual será o seu destino.

       Ora, ora, para que essa apreensão, para que tanto alarde? Evidentemente o caso desse rio-grandino é típico de falta de bala na agulha! E mais, quanto ao "destino", é só perguntar à torcida do G. E. Brasil.

Presentão!

Tendo sido referidas na postagem anterior (Correntes), as inesquecíveis séries de tv
Os Gatões e Xerife Lobo voltam agora a este BF, que oferece aos fieis seguidores
e demais leitores eventuais, como um presente, as aberturas desses programas: 

Corrente


Roscoe P. Coltrane
       Circula na Internet um texto, sem autoria indicada, que dá conta da existência, em uma cidadezinha do interior do Arizona, nos Estados Unidos, de uma "cadeia-acampamento", dirigida pelo Sheriff  Joe Arpaio. O dito cujo - que já teria sido reeleito para esse cargo várias vezes - aparece em uma das fotografias que ilustram a "preciosidade". É um velho caipira, que se gaba de ser republicano (figura que lembra os policiais trapalhões e corruptos Roscoe P. Coltrane e Elroy P. Lobo, respectivamente desmoralizados nos antigos - e ótimos - enlatados "Os gatões" e "Xerife Lobo". Ele dirige a tal prisão, que fica no meio do deserto, sob fortíssimo calor, sendo constituída de tendas de lona, cercadas por arame farpado e guardas. Orgulha-se de ter retirado qualquer regalia aos presos e de forçá-los a, em chain gangs (acorrentados), trabalhar em estradas, em construções etc. Cortou tv a cabo (exceto canais de previsão do tempo e de desenhos animados), cigarros, livros, revistas e até o café.  Além do tradicional fardamento listrado, os presos são obrigados a usar roupas de baixo cor-de-rosa.
      Consta que, a título de argumento, diz:  "Nossos soldados estão no Iraque onde a temperatura atinge 50° C, vivem em tendas iguais a vocês, e ainda têm de usar fardamento, botinas, carregar todo o equipamento de soldado e, além de tudo, não cometeram crime algum como vocês. Portanto, calem a boca e parem de reclamar".
       O texto conclui (com a sapiência de um gorila), que "se houvessem mais prisões como essa, talvez o número de criminosos e reincidentes diminuísse consideravelmente", pois "criminosos têm de ser punidos pelos crimes que cometeram e não serem tratados a pão-de-ló, tendo do bom e melhor, até serem soltos pra voltar a cometer os mesmos crimes e voltar para à vida na prisão, cheia de regalias e reivindicações". "Muitos cidadãos honestos, cumpridores da lei, e pagadores de impostos não têm, por vezes, as mesmas regalias que esses bandidos têm na prisão."
       Culmina com a informação de que toda a baboseira foi extraída de um documentário da televisão americana e, por fim, propõe que "se achar que é uma boa ideia", o leitor ajude a divulgá-la (repassando o e-mail a seus conhecidos).
       Hoje, no glorioso "Domingão do Faustão", o ex-obeso apresentador entrevistou um idiota que deve ter achado boa a tal ideia. O sujeito foi até a prisão norteamericana e conversou com o xerife Joe. Mostrou as imagens que fez no local e respondeu às óbvias perguntas formuladas a ele no palco, entre um "ô loco, meu!" e outro. Logo em seguida o auditório foi consultado e opinou favoravelmente à iniciativa do "delega yankee".
       Cá comigo fico matutando: nós, aqui no Brasil, deveríamos observar seriamente o exemplo, essa proposta nazista-light de colocação de gente em neo-campos de concentração. Também seria de bom-tom lançar mão de trabalho escravo, numa releitura contemporânea do Antigo Testamento. Afinal, chega de tratar "a pão-de-ló" os nossos delinquentes! Não é possível continuarmos a fornecer-lhes tudo "do bom e do melhor", em instalações formidáveis, com cama, comida de primeira e roupa lavada. A tv a cabo que nossos convictos estão assistindo nas penitenciárias verde-amarelas está saindo muito caro para "os contribuintes"! Roupa fúcsia neles!
  
PS: nos presos, não nos contibuintes...

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Fundação do faroeste (por Eduardo Galeano)*

       Os cenários dos filmes do Oeste, onde cada revólver disparava mais balas que uma metralhadora, eram cidadezinhas de meia-tigela, onde a única coisa sonora eram os bocejos e os bocejos duravam mais que as festanças.
       Os caubóis, esses cavalheiros taciturnos, ginetes erguidos que atravessavam o universo resgatando donzelas, eram peões mortos de fome, sem outra companhia feminina que as vacas que comboiavam, através do deserto, arriscando a vida a troco de um soldo miserável. E não se pareciam nem um pouco com Gary Cooper, nem com John Wayne ou Alan Ladd, porque eram negros ou mexicanos ou brancos e desdentados que nunca tinham passado pelas mãos de uma maquiadora.
       E os índios, condenados a trabalhar como figurantes no papel dos malvados malvadíssimos, não tinham nada a ver com aqueles débeis mentais, emplumados, pintados, que não sabiam falar e ululavam ao redor da diligência crivada de flechas.
       A gesta do faroeste foi invenção de um punhado de empresários vindos da Europa oriental. Bom olho para os negócios tinham esses imigrantes, Laemmle, Fox, Warner, Mayer, Zukor, que nos estúdios de Hollywood fabricaram o mito universal de maior êxito no século XX.

* extraído do livro Espelhos - Uma História Quase Universal (L&PM Editores)

       A leitura deste texto de Galeano favorece o pleno entendimento do argumento de Tao Golin sobre a "imaterialidade da coisa", bem como de como se dá a manipulação do autenticamente tradicional pelo autoproclamado "tradicionalismo". Tivesse um conhecido cantor e compositor "tradicionalista" desta terra a chance de ler os dois últimos textos neste BF postados (e de compreendê-los!), jogando longe seu chapéu da Real Polícia Montada Canadense e o pala que traz dobrado - inverno e verão - sobre um dos ombros, proclamaria: "É aí que eu me refiro!"

A imaterialidade da coisa (por Tao Golin)*

       Algo assusador vem ocorrendo gradativamente no Rio Grande do Sul. Um movimento de pressão política e cultural está em vias de subverter completamente o princípio do patrimônio imaterial. A primeira cena dessa burla ocorreu no gabinete do prefeito José Fortunati, quando foi apresentado o processo para "tombar o tradicionalismo e suas manifestações como Patrimônio Imaterial", conforme notícia do Conselho Municipal de Cultura de Porto Alegre. O Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG) investe-se de elemento dessa aberração.
       Por óbvio, se poderia considerar "patrimônio imaterial" manifestações culturais, mas não "entidade" que as promove. Considerar o tradicionalismo, que é uma sociedade privada, organizada na sociedade civil, como "patrimônio imaterial" seria a mesma coisa que reconhecer o Grêmio ou o Internacional como únicas manifestações genuínas e autênticas do futebol. Certamente, se um clube sumir, isso não afetará a existência do esporte.
       O tradicionalismo é um movimento cívico-cultural organizado em rede, de forma associativa, e de caráter de massa, articulado pela indústria cultural e diversos interesses comerciais, políticos etc., que além de milhares de posturas sinceras, especulam com hábitos, costumes e elementos da tradição. Não existe imaterialidade no tradicionalismo. Duvidosamente, a imaterialidade poderia ser encontrada em algumas manifetações utilizadas pelo movimento, entretanto reinterpretadas, agregadas por sentidos contemporâneos, sem sustentação metodológica. Portanto, ainda assim, de forçosa "imaterialidade".
       A seleção, a reinterpretação, a reorganização, e o novo sentido agregado, adequado aos interesses do movimento, retiram a sua "imaterialidade". O motivo: não é mais autêntico; foi tradicionalizada.
       Desde os anos 1940, o tradicionalismo vem privatizando uma série de manifestações culturais, hábitos e costumes rio-grandenses. Muitos existiam isolados em regiões remotas. Da tradição foram retirados e re-elaborados em uma engrenagem de rede. Um eficiente marketing e práticas de adestramento comportamental encarregaram-se de "educar" os contingentes como se pertencessem a todos os grupos humanos. E que é pior: como se o RS tivesse um único gentílico formatador gauchesco.
       Praticamente todas as manifestações adotadas pelo tradicionalismo já existiam antes do seu aparecimento como entidade privada. Se o tradicionalismo, por sua vez, desaparecer, as realmente importantes continuarão existindo. Patrimônio imaterial é o mate (legado indígena), a culinária, determinadas músicas e danças regionais etc., e não o tradicionalismo.
       Com o sucesso de se transformar em "patrimônio imaterial", o tradicionalismo chegou ao extremo de sua usurpação da riqueza cultural regional. Ele se converte em "único, "legítimo" portador dos eventos da identidade. Ele passou a ser o próprio fenômeno. Parece evidente que esta nova expropriação não resiste à História e ao contrato republicano da sociedade contemporânea. A imanência tradicionalista o conduziu à crença de que ele é, em essência, a coisa...
       Nessa lógica, a "cidadania" ainda será acusada de crime contra o patrimônio se realizar qualquer crítica a um tradicionalista (em essência, a coisa imaterial), protestar contra seus hábitos de estercar as cidades nos meses de setembro; espancar animais nos rodeios; ou o poder público ficará impossibilitado de realizar alguma reforma urbana porque em determinado lugar existe um galpão com uma placa tosca na fachada escrito CTG, cujas atividades são de duvidoso interesse público.
       Passando à imaterialidade, só falta agora o tradicionalismo almejar ser o espírito do rio-grandense.

* Publicado originalmente na Zero Hora (edição de 30.4.2011)