sábado, 31 de dezembro de 2011

Silogismo

Freud queimava cubanos.
Hitler, judeus...
      Dia desses escrevi sobre a desconfiança do Hugo Chávez a respeito da "coincidência" de cinco presidentes sulamericanos (entre eles o próprio) terem sido acometidos recentemente pelo câncer.
       Lembrei-me, quando fazia isso, de já ter lido em algum lugar que os nazistas, quando se decidiram pela "solução final", terem descartado continuar a chacina dos judeus (e dos outros "inimigos do Reich") a bala. Afinal, balas deveriam ser reservadas a uso "mais nobre": às batalhas contra os exércitos aliados.
       Antes de partirem para o uso do Zyklon B, o gás empregado nos infames campos de extermínio, houve, por parte dos "cientistas" alemães, estudos (baseados em horripilantes experiências com cobaias humanas) considerando a hipótese da utilização de Raios X para fins de esterilização em massa. Mas, como o destino da Guerra já se invertia àquela altura, os gastos para tanto não compensariam os resultados, que seriam alcançados somente a longo prazo.
       Procurei entre meus livros esse assunto. Não encontrei o texto específico. Mas, em compensação, no livro Os Cientistas de Hitler - Ciência, Guerra e o Pacto com o Demônio (John Corwell, Imago, 2003), achei algo muito interessante: o registro da preocupação dos nazistas com o câncer. Essa preocupação chegou a ensejar, por parte deles, via de consequência, medidas contra o cigarro (foi à época que restou demonstrada estatisticamente relação entre o tabaco e o câncer de pulmão).
       Conforme Cornwell, "A batalha contra o hábito de fumar incluiu uma gama de medidas que só recentemente foram vistas nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, e que ainda avançam devagar na maior parte da Europa. Os nazistas proibiram o fumo em muitas áreas públicas, incluindo escritórios e salas de espera. Houve proibições à propaganda de cigarros, com referência especial ao fato de os fumantes parecerem varonis, esportivos ou sexualmente atraentes, e ubíquos avisos de saúde visando especialmente os jovens. Ofereceram-se vagões de não-fumantes nos trens, com multas legais. O presidente da Universidade de Jena, Karl Astel, diretor do Instituto de Pesquisas dos Riscos do Tabaco ali,  proibiu o fumo no campus e era conhecido por arrancar cigarros da boca dos alunos. Houve casos até de motoristas presos por causarem acidentes quando fumavam. O tabaco, segundo a propaganda, reduzia a energia para o trabalho, causava impotência nos homens; era um "epidemia", uma "praga", uma forma de "masturbação pulmonar"."
       Com essa, antes da virada do ano vou sair e comprar uma carteira de Minister curto. Nunca é tarde para se começar um hábito nocivo ao autoritarismo.
       (E que se danem - por tabela - a Globo, o Fantástico e o Dráuzio Varela!)

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Gênero

       Morreu a Chita. É, a Macaca Chita, dos filmes do Tarzan. Tinha mais de setenta aninhos e, na verdade... era macho! Isso mesmo: a Macaca Chita era Macaco Chico.
       Isso me fez lembrar coisa parecida que se sucedeu quando da morte de outra famosa personagem roliudiana, a Lassie. Pois é, o mundo ficou sabendo, pasmo, que a Lassie (amiguinha canina da Liz Taylor-criança) também era macho, era cachorro!
       Só falta revelarem, agora, que o Bambi não era viado... 

O feijão e o sonho

Fotografia (fantástica!) de Alexandre Schlee Gomes
(o título, lá em cima, vai por minha conta e risco)  

No creo en brujas, pero...

       Esta semana a Zero Hora publicou notícia - sob a chamada "Suspeita infundada" - de que o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, manifestou, na quarta-feira, desconfiança de que pode não decorrer de simples coincidência o fato de que, assim como ele, Fernando Lugo, Cristina Kirschner, Dilma Rousseff e Lula, terem, num período bem curto de tempo, sido diagnosticados como portadores de diferentes tipos de câncer.
       Sugeriu, com base nas leis das probabilidades, que essa sequência de doenças que acometeram presidentes de países sulamericanos pode não ser obra do acaso.
       Mesmo salientando não ter qualquer prova a respeito, levantou a hipótese de que os Estados Unidos estejam, de alguma forma, por trás de tudo.
       Lembrou os experimentos "médicos" realizados pelos norteamericanos na Guatemala na década de 1940, recentemente revelados (e que mereceram hipócritas pedidos de desculpas por parte do governo Obama).
       Chávez comentou, então, se não seria de se imaginar que os americanos já tenham desenvolvido tecnologia capaz de induzir o câncer e que isso somente venha a ser revelado daqui a uns 50 anos.
       Evidente que Chávez tem suas razões para nutrir a desconfiança que agora expressou publicamente. A paranóia do venezuelano justifica-se pelo manifesto interesse americano de que ele amanheça "com a boca cheia de formiga".
       De resto, como mera "teoria da conspiração", daria um bom thriller, um filme de suspense. O roteiro, para mim, seria bem verossímil (ao contrário do que "pensa" a Zero Hora, pelo que se depreende do título dado à matéria). 

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Boxing Day

       O dia 26 de dezembro, de acordo com a tradição dos países de colonização britânica, é chamado de Boxing Day. Embora nesses países seja feriado público e bancário, o comércio abre e todas as lojas fazem grandes liquidações, ofertando mercadorias com preços reduzidos.
       Aqui no Brasil, mesmo não se tendo nada a ver com essa tradição inglesa, nossas lojas ficam, no dia 26 de dezembro, cheias de gente. É o pessoal que vai ao comércio trocar os presentes que "não serviram" ou "não agradaram" os presentados.


       No Boxing Day o pessoal acaba saindo para tentar "recuperar o prejuízo". Na foto vê-se uma mocinha, coitada, que apesar de ser tamanho P, acabou ganhando de Natal um negão XXG.  

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Casamento (Ângelo Alfonsin)


kama sutra
cama surta

cama salta
cama pula
cama sonho

cama sono
cama calma
cama e mesa
cama ronca
cama engorda
cama quebra
cada um na sua

cama

*publicada hoje no Irresistivelmente inútil (aalfonsin.blogspot.com)

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Grecin 2000 no Bill Bonner

       Vocês viram? Viram a cara de preocupação do Bonner hoje, no Jornal Nacional, fazendo considerações a respeito do perigo que a transição do poder na Coreia do Norte, em razão da morte de Kim-Jong Il, poderá representar? Notaram as mãozinhas dele, se esfregando sofregamente enquanto lia/interpretava o texto que tratava da insegurança das relações entre as duas Coreias e do problema que um eventual acirramento dessas relações poderá gerar para a região "e para os 300 mil militares que os Estados Unidos mantêm por lá".
       Uau! Os Estados Unidos da América têm 300 mil mariners na península coreana! Lá no oriente, prontos para livrar o mundo do "arsenal atômico" nortecoreano (mesmo que para isso tenham que - de novo - fazer uso de um "Little Boy", de um "Fat Man"). Titia Hilária está atenta! Pai Obama não vai deixar barato

Que feio! Quem será que fez isso?

domingo, 18 de dezembro de 2011

Jingoubél, jingoubél...

Calvin & Haroldo - Bill Watterson 


* Quadrinhos colhidos no Facebook, compartilhados pelo amigo Cristian Costa.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Guantánamo

       A Zero Hora deste domingo publicou uma noticiazinha com o título "Flotilha de exilados parte para Cuba". Diz o texto que "Um grupo de exilados cubanos partiu dos Estados Unidos, na sexta-feira para Cuba, onde deve realizar um protesto em águas internacionais contra o histórico desrespeito aos direitos humanos promovido no país. Os manifestantes pretendem usar fogos de artífício para chamar atenção dos habitantes da ilha. Saída de Key West, na Flórida, a embarcação pretende ficar a 20 quilômetros de distância de Havana.".
       Ao ler a notícia fiquei pensando se tal manifestação, com o uso de fogos de artifício, não vai acabar perturbando os Mariners instalados em Guantánamo, campo de concentração mantido pela "maior democracia do planeta" em pleno solo cubano.
E o Obama, hein?! Bush colored!
       Sobre o assunto Cuba/Estados Unidos, o BF sugere a leitura do livro Os Últimos Soldados da Guerra Fria (Companhia das Letras), de autoria de Fernando Morais (que recentemente esteve aqui em Pelotas, autografando a obra na Feira do Livro).

domingo, 11 de dezembro de 2011

A foto de Dilma (por Moisés Mendes)*

Dilma: "Sabe por que gosto daquela foto?
Porque ela é verdadeira. Foi o que aconteceu."
        Enquanto alguém fotografava Dilma Rousseff naquele interrogatório da Auditoria Militar do Rio, você fazia o quê? Você que era jovem, com idade para duelar com a ditadura e cometer loucuras em nome da democracia ou de uma revolução, o que você fazia naquele novembro de 1970 enquanto Dilma encarava os militares com o nariz empinado e você nem sabia que Dilma existia?
       Admita: você, seus irmãos, seus colegas, seus vizinhos não faziam quase nada. Eu confesso: tinha 17 anos, dormia escutando as baladas da Rádio El Mundo de Buenos Aires e acordava pensando no milagre que eliminaria minhas espinhas da cara. Como nos empurraram para a alienação naquele 1970, em Alegrete ou em Porto Alegre!
       E agora você, que tem hoje a idade de Dilma em 1970, que tem 22 aninhos, que já postou mais de mil fotos suas no Facebook: você já tem uma foto síntese como aquela de Dilma? Tem a imagem que revele sua alma, que dispense legendas, que esteja para você como a Mona Lisa está para todas as mulheres e como a Guernica de Picasso está para todas as guerras? Você tem uma imagem que tenha condensado tudo de você?
       Se ainda não produziu a foto reveladora de sua presença neste mundo, não se penitencie. A foto de Dilma é única. Não acredite na conversa de que todos os jovens daquele 1970 enfrentavam a ditadura com o olhar de laser de Dilma. Os jovens de 1970 estavam anestesiados por quatro anos de regime militar, pelo Tri no México, pela censura.
       A edição número 115 da Veja, de 18 de novembro daquele 1970, trazia esta capa: Em quem os jovens votaram. A repotagem tratava de uma pesquisa com mil jovens de 18 a 22 anos, de São Paulo, Rio, Porto Alegre e Recife, que votaram pela primeira vez no dia 15  daquele mês para eleger senadores e deputados.
       Algumas revelações da pesquisa: 52% não sabiam por que os militares fizeram o golpe de 64; outros 25% disseram que o golpe evitara o comunismo; 71% achavam que o povo estava feliz com a situação do país; 51% dos jovens gaúchos votariam na Arena (o partido do governo) e 44% no MDB (da oposição); e 55% de todos os pesquisados no país votaram "por obrigação" (só 10% entendiam que votar era um direito). E quem tinha sido Oswaldo Aranha? 83% não tinha a menor noção. E qual seria a nota para o presidente Médici? Um 8,4. E assim por diante.
       Na eleição, de 70, o MDB levou uma lambada de dois votos por um da Arena. A Arena elegeu 41 senadores e 223 deputados federais. O MDB, apenas seis senadores e 87 deputados. No estado, Daniel Krieger e Tarso Dutra, arenistas, foram eleitos senadores com o dobro de votos dos emedebistas Paulo Brossard e Geraldo Brochado da Rocha.
       Foi uma goleada do partido do governo, com o voto faceiro dos jovens. Vão dizer que havia a campanha do voto nulo, que o país ainda estava confuso, que faltava coesão ao MDB, aos democratas e às esquerdas. Nessa confusão, os jovens eram, como escreveu Mino Carta, o diretor de Veja, "pouco politizados, muito práticos e eventualmente ingênuos".
       Éramos alienados, seu Mino. Jovens com o perfil de Dilma, comunistas, democratas ou anarquistas, que provocaram o confronto do regime com suas próprias vergonhas, eram quase todos da minoria da militância estudantil. Só leve a sério quem aparecer contando vantagem, com histórias de resistência e bravura naquele 1970, se conhecer sua trajetória.
       A foto de Dilma no interrogatório não é a síntese da juventude brasileira de quatro décadas atrás. É apenas a foto de uma moça destemida diante de dois homens torturados pela desonra.

*Jornalista da Zero Hora, na qual este artigo foi publicado (edição deste domingo, 11 de dezembro).

sábado, 10 de dezembro de 2011

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Eu hoje não tô bom...

Foto da Flor

Comemorar o medo

       Nascido em 1955, Mia Couto (António Emílio Leite Couto) é o mais famoso escritor moçambicano, já tendo publicado 28 livros (traduzidos e distribuídos em 27 países), que lhe renderam inúmeras premiações, especialmente no exterior. Quando jovem, abandonou o Curso de Medicina para se juntar à luta anti-colonialista em Moçambique. Após a independência do seu país, em 1975, trabalhou como jornalista em Maputo por mais de dez anos. Licenciado em Biologia, atualmente realiza pesquisas na área ambiental no seu país. 


       Em 2011, Mia participou das Conferências de Estoril, em Portugal, quando personalidades do mundo todo trataram do tema "segurança". Entre os participantes, foi o único escritor. E, por ser escritor, optou por ler o breve (mas preciso) texto que escrevera e ao qual dera o título "Comemorar o medo". Vale a pena ver, ouvir e ler o recado dele a todos:

       "O medo foi um dos meus primeiros mestres. Antes de ganhar confiança em celestiais criaturas, aprendi a temer monstros, fantasmas e demônios. Os anjos quando chegaram, já era para me guardarem. Os anjos atuavam como uma espécie de agentes de segurança privada das almas. Nem sempre os que me protegiam sabiam da diferença entre sentimento e realidade. Isso acontecia, por exemplo, quando me ensinavam a recear os desconhecidos. Na realidade a maior parte da violência contra as crianças, sempre foi praticada, não por estranhos, mas por parentes e conhecidos. Os fantasmas que serviam na minha infância reproduziam esse velho engano: de que estamos mais seguros em ambientes que reconhecemos. Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais protegido apenas por não aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura e do meu território. O medo foi, afinal, o mestre que mais me fez desaprender.
       Quando eu deixei a minha casa natal, uma invisível mão roubava-me a coragem de viver e a audácia de ser eu mesmo. No horizonte vislumbravam-se mais muros do que estradas. Nesta altura algo me sugeriu o seguinte: que há neste mundo mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas. No Moçambique colonial onde nasci e cresci, a narrativa do medo tinha um invejável casting internacional: os chineses que comiam as crianças, os chamados que turistas lutavam pela independência, e um ateu barbudo com um nome alemão. Esses fantasmas tiveram o fim de todos os fantasmas: morreram quando morreu o medo. Os chineses abriram restaurantes à nossa porta, os ditos turistas são hoje governantes respeitáveis, e Karl Marx, o ateu barbudo, é um simpático avô que não deixou descendência.
       O preço dessa construção de terror foi, no entanto, trágico para o continente africano. Em nome da luta contra o comunismo, cometeram-se as mais indizíveis barbaridades. Em nome da segurança mundial foram colocados e conservados no poder alguns dos ditadores mais sanguinários de toda a História. A mais grave desta longa herança da intervenção externa é a facilidade com que as elites africanas continuam a culpar os outros pelos seus próprios fracassos. A guerra fria esfriou, mas o maniqueísmo que a sustinha não desarmou, inventando rapidamente outras geografias do medo a oriente e ocidente. E porque se trata de entidades demoníacas, não bastam os seculares meios de ordenação, precisamos de intervenção com legitimidade divina. O que era ideologia passou a ser crença, o que era política tornou-se religião, o que era religião passou a ser estratégia de poder. Para fabricar armas é preciso fabricar inimigos. Para produzir inimigos é imperioso sustentar fantasmas. A manutenção desse alvoroço requer um dispendioso aparato e um batalhão de especialistas que, em segredo, tomam decisões em nosso nome. Eis o que nos dizem: “Para superarmos as ameaças domésticas, precisamos de mais polícia, mais prisões, mas segurança privada, e menos privacidade. Para enfrentarmos as ameaças globais precisamos de mais exércitos, mais serviços secretos, e a suspensão temporária de nossa cidadania”. Todos sabemos que o caminho verdadeiro tem que ser outro. Todos sabemos que esse outro caminho poderia começar, por exemplo, pelo desejo de conhecermos melhor esses que de um e de outro lado aprendemos a chamar de “eles”. Aos adversários políticos e militares, juntam-se agora o clima, a demografia e as epidemias. O sentimento que se criou é o seguinte: a realidade é perigosa, a natureza é traiçoeira, e a humanidade é imprevisível. Vivemos como cidadãos e como espécie, em permanente situação de emergência. Como em qualquer outro estado de sítio, as liberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode ser invadida, e a racionalidade deve ser suspensa. Todas essas restrições servem para que não sejam feitas perguntas, como por exemplo, estas: por que motivo a crise financeira não atingiu a indústria de armamento? Por que motivo apenas no ano passado se gastou um trilhão e meio de dólares em armamento militar. Por que razão os que hoje tentam proteger os civis na Líbia, são exatamente os que mais armas venderam ao coronel Kadafi? Por que motivo se realizam mais seminários sobre segurança do que sobre justiça?
       Se queremos resolver, e não apenas discutir, a segurança mundial, temos que enfrentar ameaças reais e urgentes. Há uma arma de destruição massiva que está sendo utilizada todos os dias, em todo mundo, sem que seja preciso o pretexto da guerra. Essa arma chama-se fome. Em pleno século XXI, um em cada seis seres humanos passa fome. O custo para superar a fome mundial seria uma fração, muito pequena, do que se gasta em armamento. A fome será, sem dúvida, a maior causa de insegurança do nosso tempo. Menciono ainda outra silenciosa violência: em todo mundo, uma em cada três mulheres, foi ou será vítima de violência física ou sexual durante o seu tempo de vida. É verdade que sobre uma grande parte do nosso planeta, essa é uma condenação antecipada pelo fato, simples, de serem mulheres. A nossa indignação porém, é bem menor que o medo. Sem nos darmos conta, fomos convertidos em soldados de um exército sem nome e como militar sem farda deixamos de questionar. Deixamos de fazer perguntas e discutir razões. As questões éticas são esquecidas por estar provada a barbaridade dos outros. E porque estamos em guerra, não temos que fazer prova de coerência, nem de ética, nem de legalidade. É sintomática que a única construção humana que possa ser vista do espaço, seja uma muralha. A Grande Muralha foi erguida para proteger a China das guerras e das invasões. A Muralha não evitou conflito nem parou os invasores. Provavelmente morreram mais chineses construindo a Muralha do que vítimas das invasões que realmente aconteceram. Dizem que alguns dos trabalhadores que morreram foram emparedados na sua própria construção. Esses corpos, convertidos em muro e pedra, são uma metáfora do quanto o medo pode nos aprisionar. Há muros que separam nações; há muros que dividem pobre dos ricos; mas não há, hoje no mundo, muros que separem os que têm medo dos que não têm medo.
       Sob as mesmas nuvens cinzentas vivemos todos nós: do sul e do norte, do ocidente e do oriente. Citarei Eduardo Galeano acerca disto, que é o medo global. E diz ele:“Os que trabalham têm medo de perder o trabalho; os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho. Quando não têm medo da fome, têm medo da comida. Os civis têm medo dos militares, os militares têm medo da falta de armas, e as armas têm medo da falta de guerras”. E se calhar, acrescento agora eu: há quem tenha medo que o medo acabe."

sábado, 3 de dezembro de 2011

Viagem mexicana (por Andrey Schlee)

         Ari:
       Voltei do México! Foram dez dias espetaculares!! Desta vez visitei Guadalajara e Zapopan (Jalisco) e Mérida (Yucatán). Participei de dois colóquios sobre patrimônio cultural como “conferencista magistral”. Foi realmente muito bom! Também compareci a 25º FIL – Feira Internacional do Livro de Guadalajara, a segunda maior do mundo (que só perde para a de Frankfurt). Entre milhares de livros, autores e leitores, pude encontrar algumas raridades. Entre elas os escritores Mário Vargas Llosa (Nobel em 2010) e Herta Müller (Nobel em 2009), que não são meus favoritos...
       Mas estou escrevendo para contar outra estória de avião. Desta vez, sentei na poltrona da janela. A central coube a um senhor mexicano engravatado que, cuidadosamente retirou e dobrou seu paletó, guardando-o, com o mesmo zelo, na parte superior do avião. Na hora do jantar, uma aero-gorda nos ofereceu: “– carne, frango ou massa?” Eu optei por massa, enquanto o meu vizinho atirou-se na carne com legumes. Ao abrir o escaldante pacotinho prateado, servido em bandeja com pão e “mantequilla”, percebi que se tratava de “penne” com molho branco gratinado (ou seja, uma paçoca branca...). Na primeira garfada que dei, ocorreu o desastre! O garfinho de plástico transparente, como uma poderosa catapulta, atirou um “penne” na camisa do hermano mexicano (que, felizmente, não percebeu a condecoração italiana...). Nervoso, continuei na batalha entre lágrimas de risos e nervosismo (afinal ele estava comento CARNE!). Muito simulado, bolei um plano. Quando o pessoal de bordo ofereceu a segunda rodada de bebidas, aproveitei o momento de desatenção do vizinho e apliquei-lhe um único e certeiro “pimbarote” (sic) jogando a massinha no espaço sideral... A operação foi um sucesso! Apenas sobrou uma gordurinha como prova de meu  involuntário crime (e que bem poderia ser da CARNE!).
       Trinta minutos mais tarde, quando já estava me preparando para dormir, eis que descubro, colada na calça de outro passageiro (sentado nas poltronas centrais do avião!), a minha velha, resistente e grudenta massinha... No mais, a viagem foi sem turbulências.
       Andrey
      PS: mando a foto da aeromoça mexicana conferindo a documentação.
Srta. Garcia

I'm free

Ken Russell
       Na semana passada, dia 27 de novembro, morreu o cineasta inglês Ken Russell, aos 84 anos. Nascido em Southampton, foi batizado com o pomposo nome Henry Kenneth Alfred Russell. Quando jovem chegou a engajar-se à marinha mercante britânica e, depois, teve uma passagem pela Royal Air Force. Nos anos 60 e 70 trabalhou na BBC (especialmente dirigindo documentários). Para o cinema, seu primeiro filme foi Mulheres Apaixonadas (uma "adaptação livre" do clássico de D. H. Lawrence). Sua obra contém outros títulos importantes, vários deles ligados à música e a grandes compositores clássicos.
       Foi Ken Russell que dirigiu (em 1974) meu filme favorito. Na verdade meu conceito de "filme favorito" é amplo, admitindo nesse singular um plural: meu filme favorito "são" vários (O Ouro de Mackenna, Jesus Cristo Superstar, Minha Vida de Cachorro, Vá e Veja, Um Dia Perfeito, Pulp Fiction, por exemplo). São os que revejo sempre e sempre gosto de rever.
       Estou falando de Tommy. Acho que vi Tommy, pela primeira vez, no Cine Pelotense, quando lançado por aqui. Adorei! Uma novidade aquela "ópera rock" do Who (conjunto inglês que conhecia através do Ângelo, amigo que carregava no porta-luvas do fusca branco dele um montão de fitas cassete, entre as quais algumas dos britânicos).
Tommy
       Tommy era diferente de qualquer músical visto antes. Roger Daltrey - vocalista do Who - interpreta o cara que, ainda criança, sofreu um trauma, ficando cego, surdo e mudo e, mesmo assim, se tornou um ídolo, campeão de fliperama e líder espiritual. Ótimos nos papéis coadjuvantes, Oliver Reed (o padrasto), Ann-Margret (a mãe) e Jack Nicholson (médico safado), cantam convincentemente. Rock a mil, pelo Who (leia-se Pete Townsend, Keith Moon e John Entwistle) e por mais um punhado de estrelas do nível de Eric Clapton, Tina Turner e Elton John.
       Em homenagem ao falecido, aí vai Pinball Wizard, com o Elton John e The Who (botando para quebrar, "literalmente"):


PS: aí Ângelo, o resto é contigo...