sábado, 12 de maio de 2012

A chave do tamanho (por Diana Corso*)

       Tardiamente, fui conhecer Brasília. Temos, eu e ela, certa identidade: de gêmeas separadas ao nascer, mesmo ano. Devo dizer que me inquietou ao vê-la, cinquentona como eu, meio caidaça. Espero que os paralelos não sejam tão óbvios. Mas o que realmente me surpreendeu foi o tamanho dos prédios, aqueles que são ícones da nossa nacionalidade. Esperava muito ver ao vivo o Palácio da Alvorada, o Itamaraty, a Catedral, o Congresso. Suas imagens povoam minha memória, estampadas em jornais, selos, moedas, na televisão. Desde que me entendo por gente, são sinônimo do país, erguidos para encarnar o progresso e a grandeza da pátria. Cresci acreditando nisso. Eles são mesmo bonitos, mas surpreendentemente menores do que supunha. Entenda-se: não são pequenos, minha imaginação era superlativa. Vivi sentimento idêntico ao entrar em lugares da infância, aos quais a memória preserva a grandeza. Espichamos e esquecemos que crianças sofrem de nanismo, para elas tudo é grande e inacessível. Alguém se lembra, por acaso, como é não saber o que há em cima da mesa?
       Impossível não evocar A Chave do Tamanho, de Monteiro Lobato. Nessa história, tentando acabar com a guerra (foi publicado em 1942), a boneca Emília vai para a Casa das Chaves, reguladoras de todas as coisas do mundo. Queria achar e desligar o controle do conflito bélico que, além de mundial, parecia não ter fim. Por acidente, acaba ativando uma chave que controla o tamanho dos seres humanos, que ficam reduzidos a dois centímetros de envergadura. Entre os inúmeros perigos, a pior das desventuras da boneca ocorre com duas crianças que ela encontra, cujos pais acabam sendo devorados pelo próprio gato da família, na frente dela. “A mudança de tamanho da humanidade vinha tornar as ideias tão inúteis como um tostão furado”, filosofa a boneca. Aliás, ela sobrevive graças à esperteza de perceber que tudo deve ser avaliado em outra escala.
      Depois que crescemos, pessoas, objetos e lugares encolhem. Só mesmo nosso desamparo mantém a envergadura. Ele não desaparece quando alcançamos os trincos das portas. Quando pequenos, há pessoas grandes, que supomos protetoras; depois, tudo e todos perdem o porte. Assim, quem olhará por nós? A pequenez nos angustia, preferimos delirar a grandeza. Mas grande mesmo é a sabedoria da Emília: a chave é o tamanho. Mostrar aos homens que na verdade são insignificantes é uma ótima ideia para acabar com as guerras. Afinal, elas nascem da onipotência, de se achar maior que os outros. Escalas são pontos de vista e variam. Um dia é do dono, outro é do gato.

*Crônica publicada quarta-feira (9/5) na Zero Hora


     Achei ótima essa crônica da Diana Corso, publicada na quarta-feira passada na Zero Hora. Cinquentão como a autora, experimentei a mesma sensação dela quando, há somente pouco mais de três anos, conheci (a também cinquentona) Brasília. Nada, lá, é tããão monumental como sempre imaginei! A escala real não corresponde à escala criada no imaginário de quem cresceu como contemporâneo da Capital Federal.
     No mais, "A Chave do Tamanho", de Monteiro Lobato, foi o primeiro livro que li na vida! Não sei o porquê, li-o antes mesmo do "Sítio do Pica-pau Amarelo", o qual já tinha ganho de presente em aniversário anterior (pois é: naquele tempo as pessoas davam livros de presente de aniversário às crianças).




     Então, hoje de manhã, fui lá na casa dos meus pais, ver se ainda encontrava "A Chave  do Tamanho" na biblioteca. Somente com a ajuda do pai (a organização dos livros nas estantes está caótica), achei  o que procurava. Junto, encontrei outro livro, companheiro de infância: "História do Brasil para Crianças", de Viriato Corrêa. Folheando as páginas amarelecidas dessa obra cujas ilustrações me são, ainda, familiares, deparei-me com algo de arrepiar. É que, entre as páginas 226 e 227, exatamente no capítulo "Treze de Maio" (sobre a Abolição da Escravatura) encontrei uma pétala de rosa (que um dia foi vermelha), seca. Incrível: essa pétala está dentro desse livro há mais de quarenta anos. Foi minha mãe que me deu, dizendo "guarda dentro de um livro e quando a vires sempre vais lembrar da tua mãe". Na época, gurizinho, isso me impactou, me entristeceu, pois entendi o que ele quis dizer (muito além do que disse). Hoje, mais do que a coincidência da data e seu outro significado (13  de maio/Dia das Mães), fico feliz de ter encontrado acidentalmente a pétala seca e ter podido, com a mãe, compartilhar esse momento impressionantemente mágico.


2 comentários:

  1. A tua crônica é melhor do que da Diana, engoli seco antes do fim.

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