sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Voadores


Em 1980, durante a 8ª edição do Festival de Cinema de Gramado (Ditadura a mil) foi exibido o filme Os Sete Gatinhos, dirigido por Neville D'Almeida (com roteiro dele mesmo e de Gilberto Loureiro). Uma adaptação para o cinema da homônima peça teatral de Nelson Rodrigues. Durante a projeção muita gente da plateia se retirou, bradando xingamentos à "pornografia" da obra.
O então Secretário de Esporte, Cultura e Turismo da Estado, Lauro Guimarães, foi um desses, chocado com a lascividade, a imoralidade que assistia ali, no "Palácio dos Festivais". Cobrou, em furiosa entrevista à imprensa, medidas que coibissem aquele tipo de permissividade, aquela afronta à família, aos bons costumes.
Resultado disso foi o sucesso comercial do filme, que conta com um baita elenco: Lima Duarte, Ana Maria Magalhães, Cristina Aché, Regina Casé, Cláudio Corrêa e Castro, Sadi Cabral, Maurício do Valle, Luiz Fernando Guimarães, Sura Berditchevsky, Ary Fontoura, Sônia Dias e Thelma Reston (que ganhou o Kikito de Melhor Atriz Coadjuvante naquele festival).
Thelma morreu ontem, mas por mim sempre será lembrada por essa genial sequência rodriguiana de Os Sete Gatinhos.

E o mundo não se acabou (pelo menos até agora)




Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar
Por causa disto a minha gente lá em casa começou a rezar
Até disseram que o sol ia nascer antes da madrugada
Por causa disto nesta noite lá no morro não se fez batucada

Acreditei nessa conversa mole
Pensei que o mundo ia se acabar
E fui tratando de me despedir
E sem demora fui tratando de aproveitar

Beijei a boca de quem não devia
Peguei na mão de quem não conhecia
Dancei um samba em traje de maiô
E o tal do mundo não se acabou

Peguei um gajo com quem não me dava
E perdoei a sua ingratidão
E festejando o acontecimento
Gastei com ele mais de quinhentão
Agora soube que o gajo anda
Dizendo coisa que não se passou
Ih, vai ter barulho e vai ter confusão
Porque o mundo não se acabou

Nestes momentos derradeiros que antecedem o final dos tempos, lembrei-me de um velho samba que há muito já tratava do The End. Conhecia-o desde a (tantas vezes referida aqui) era da eletrola Hot Point lá da minha infância/mocidade. O LP não tenho mais, mas, procurando nos meus CDs, achei uma coletânea (ótima, por sinal) do compositor baiano Assis Valente. E o mundo não se acabou foi gravado originalmente em 1938 e fez sucesso especialmente na voz de Carmem Miranda.
Descobri, agorinha, que Assis Valente tinha motivos de sobra para, de fato, desejar que o mundo se acabasse de uma hora para outra: é que, por causa de impagáveis dívidas contraídas, suicidou-se em 1958 (envenenando-se com formicida). Antes, em outras duas oportunidades, nos anos 30 e 40, já havia tentado se matar: na primeira, cortou os pulsos; na segunda, jogou-se do Corcovado.
No paletó do morto a polícia encontrou um bilhete dirigido a Ary Barroso, no qual pedia ao amigo que saldasse dois meses de aluguéis que deixara atrasar junto ao senhorio.
É óbvio que, ao tomar sua "decisão extrema", Assis Valente nem cogitava da existência do tal "Calendário Tim Maia".   

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Escolhas

O deputado Federal Ricardo Tripoli (PSDB/SP) apresentou um projeto de lei que pretende proibir a prática de maus-tratos a animais durante rodeios em todo o território nacional. Por aqui, o presidente da Confederação Brasileira da Tradição Gaúcha já está se movimentando no sentido de fazer com que nossos deputados votem contrariamente à proposta (que, segundo ele, atingiria nossa "cultura").
                                     
A gente ainda morava na Butuí quando, um dia, a Sylvia apareceu com um namorado. Como irmão mais velho, naturalmente não simpatizei com o cara. Um fanfarrão, de família "tradicional" de Jaguarão, que se apresentou com umas fitas VHS debaixo do braço. Sem cerimônia, o gajo já foi colocando uma das fitas no meu velho Philco-Hitachi, fazendo surgir na tevê suas proezas em provas de tiro-de-laço. Lembro-me bem do meu único comentário, já saindo de lado: "Estou torcendo para a vaquilhona!".

Felizmente, o tal namoro não durou mais que uma  semana. Pelo que sei, o chato anda por aí, cantando em castelhano, fantasiado de gauchinho. Deve, de vez em quando, dar uns tombos nuns coitados de uns boizinhos para não perder a prática.

A Sylvia? Casou com o Neneco, que nunca laçou novilho e que se for chamado agora, calça botas e vai salvar uns pinguins lá na Patagônia, uns lobos marinhos na Ilha da Páscoa...

Ponto para a humanidade!


segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Chapação

Há uma semana estou fora do ar. Fora do ar mesmo, à base de remédio forte, um tal Diazepan, que me faz dormir umas 20 horas por dia. Descadeirado, suportando insuportável dor na coluna... incapacitado, em suma, para toda e qualquer tarefa, a mais simples que seja. Terça passada, me arrastando, precisei recorrer à Unimed em busca de socorro médico. Resultado: dia inteiro de remédio na veia (incluindo impensáveis três doses de morfina).
Desde então, pilhas de audiências transferidas e, idem, as partidas das finais do futebol de mesa.
Determinação do neurologista: repouso absoluto. Deitado e grogue como boxeador que levou um direto no queixo, mal e porcamente acompanhei a vitória do Corinthians sobre os "ingleses" do Chelsea. Estupefato, vi o goleiro Cássio (refugo do Grêmio) ser escolhido o melhor do torneio!
À meia boca, assisti na tevê a notícia de mais um (anunciado) massacre de lourinhas crianças em escola de uma cidadezinha norteamericana. Observei na telinha, visão turva, a incontida tristeza de Obama, Bonner e Patrícia Poeta (ótimos atores!). A mãe do nerd atirador/suicida (morta por ele) tinha em casa um fuzil Bushmaster .223 e pistolas Glock e Sig Sauer. Todas elas legalizadas. Deviam ser para caçar esquilos.
Mais um Diazepan, please... Às 19 tem tomografia!

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Carta do Andrey

Estou em Santigo, Chile. Aqui, em um ônibus voltando para o hotel, um colega mexicano me mostrou em um celular a notícia divulgada via internet. Logo, outro colega, desta vez cubano, me abraçou e disse algo como “Lo vamos a extrañar”. Pela CNN Internacional confirmei o que não queria. A capa do El Mercurio de hoje é a seguinte: “Muere Oscar Niemeyer, el hombre que diseñó Brasilia e hizo de la curva un arte”. Agora vou para o aeroporto. Certamente outras manchetes irão me soquear... Somente à meia-noite chegarei a Brasília. Niemeyer terá passado por lá. Não nos encontraremos. A última vez foi maravilhosa. Ele me perguntou sobre o que os estudantes de arquitetura estavam lendo e se  eu gostava de sua arquitetura... Volto para o Brasil com e certeza de que ele continuará sempre vivo.
Andrey

domingo, 9 de dezembro de 2012

Puro Tom Waits

Fotografia do Alexandre Schlee Gomes

A casa do Oscar (por Chico Buarque de Hollanda)


       A casa do Oscar era o sonho da família. Havia um terreno para os lados da Iguatemi, havia o anteprojeto, presente do próprio, havia a promessa de que um belo dia iríamos morar na casa do Oscar. Cresci cheio de impaciência porque meu pai, embora fosse dono do Museu do Ipiranga, nunca juntava dinheiro para construir a casa do Oscar. Mais tarde, num aperto, em vez de vender o museu com os cacarecos dentro, papai vendeu o terreno da Iguatemi. Desse modo a casa do Oscar, antes de existir, foi demolida. Ou ficou intacta, suspensa no ar, como a casa no beco de Manuel Bandeira. Senti-me traído, tornei-me um rebelde, insultei meu pai, ergui o braço contra minha mãe e saí batendo a porta da nossa casa velha e normanda: só volto para casa quando for a casa do Oscar! Pois bem, internaram-me num ginásio em Cataguases, projeto do Oscar. Vivi seis meses naquele casarão do Oscar, achei pouco, decidi-me a ser Oscar eu mesmo. Regressei a São Paulo, estudei geometria descritiva, passei no vestibular e fui o pior aluno da classe. Mas ao professor de topografia, que me reprovou no exame oral, respondi calado: lá em casa tenho um canudo com a casa do Oscar.

       Depois larguei a arquitetura e virei aprendiz de Tom Jobim. Quando minha música sai boa, penso que parece música do Tom Jobim. Música do Tom, na minha cabeça, é casa do Oscar.

Flor, na Catedral do Oscar, na cidade criada pelo Oscar