segunda-feira, 12 de setembro de 2011

O 11 de Setembro


Allende, a morte de um homem *
      
       Até o ano de 1973, a república chilena era uma exceção na história política latino-americana. Ela não participara da triste crônica dos golpes militares da América Latina. Um regime civilista estável e forte, garantido pela constituição democrática de 1922, dominava os poderes tradicionais, fazendo com que as Forças Armadas chilenas, ao contrário dos seus vizinhos argentinos, se mantivessem numa tradição de respeito às instituições do estado. O Chile, junto com o Uruguai, formavam um dos regimes políticos mais estáveis do Continente. Então, a partir do dia 11 de setembro de 1973, tudo mudou. A derrubada do presidente Salvador Allende, obra de um violentíssimo golpe militar, conduziu o Chile a padecer por 17 anos sob uma ditadura – uma das mais cruéis e impiedosas da história latino-americana.
Chovia sobre Santiago

       "Não tenho condições de ser um mártir, sou um lutador social que cumpre uma tarefa dada pelo povo. Entendam, porém, aqueles que querem fazer a história retroceder e desconhecer a vontade da maioria do Chile: sem ter carne de mártir, não darei nenhum passo atrás...Somente a balaços é que poderão impedir a vontade que é fazer cumprir o programa do povo." Salvador Allende, alocução das 8:45 h., da manhã de 11 de setembro de 1973.
       O tom cinzento, pesado, daquele dia de 11 de setembro de 1973, parecia ser um prenúncio das coisas amargas e ruins que ainda estavam por vir. Chovia em Santiago, O pessoal do serviço de segurança do Palácio de La Moneda, sede da presidência chilena, ouviu pelo rádio às 5:30 h. de que a Armada do almirante Toribio Merino alçara-se na base naval de Valparaiso. Não demorou muito para que o presidente Salvador Allende chegasse ao prédio do executivo para organizar a resistência. Pensou-se, por primeiro, ser um motim só da esquadra. Uma rajada de metralhadora pesada vinda de bem perto, de uma das três esquinas que davam para o grande edifício, logo os sacudiu daquela ilusão.
       Diversos tanques fechavam as ruas próximas e logo o presidente, por telefone, foi intimado a render-se. Allende, pela rádio Magallanes, em voz tensa mas calma, pediu que os trabalhadores ocupassem as fábricas, mas sem fazer-lhes um apelo geral pelas armas. Pelo meio da manhã daquele dia tenebroso, o tiroteio corria solto entre os carabineiros, os soldados do regimento Tacna mobilizados pelos golpistas e os membros da GAP, a segurança pessoal de Allende. Parecia uma cena medieval, na qual os janelões do antigo edifício – sede oficial do governo chileno desde 1846 - serviam como seteira para os seus escassos defensores (eram menos de trinta). O projeto da "via chilena para o socialismo", tão caro a Allende, se esboroava, se encolhia, agachado atrás dos balcões-trincheira do La Moneda.
       Como o homem parecia não querer afrouxar, mesmo tendo-lhe ofertado um vôo seguro para o exterior, foi a vez dos caças à jato entrarem em ação. Cruzando como um raio num céu sem inimigos, os Hawker Hunter da força aérea chilena, lançaram seus foguetes, 18 ao todo, sobre o palácio. Pouca coisa então restava a fazer. A extrema esquerda, o MIR e outros grupelhos, que infernizara o governo da Unidade Popular, não deram o ar da graça, nem ousaram sair à ruas para gritar o seu slogan "Avançar sem negociar".
 
 
Pinochet assume o golpe

       Enquanto o cerco prosseguia, o exercito chileno, de perfil prussiano, igual a uma força de ocupação colonial, dava início à operações-monstro nos cinturões operários de Santiago e de outras cidades menores. O general Augusto Pinochet, sucessor do general Carlos Prats, que renunciara 18 dias antes à chefia do exército, assumira a liderança do levante. Cara de pedra, colarinho apertado no pescoço, peito amedalhado, óculos escuros escondendo os olhos, era a própria caricatura trágica do general golpista latino-americano. Câmara Canto, o embaixador do regime militar do Brasil, à tarde, foi o primeiro a estar presente para reconhecer a junta de oficiais que assumira o poder.
       Allende, antes disso, tendo nas mãos um fuzil AK (premonitório presente de Fidel Castro, quando visitara o Chile, em 1971), vendo tudo perdido depois de uma resistência de várias horas, convenceu os sitiados, um por um, a irem abandonando o palácio, prometendo a todos que ele sairia por último. Um pouco antes das dez horas, deu-se a sua última fala radiofônica. Os que restaram até o fim, rendidos, foram depois conduzidos aos quartéis onde os fuzilaram e, depois, os dinamitaram.
Allende se suicida

       Reiteradas vezes ele dissera que não repetiria o destino de Balmaceda, o presidente que acabou se suicidando na embaixada da Argentina, depois de tentar inutilmente resistir aos golpistas de 1891. Porém, foi isso mesmo que ele terminou por fazer. Quando, enfim, o general Javier Palacios penetrou em meio aos entulhos do La Moneda, encontrou o presidente constitucional do Chile sentado num sofá vermelho com o tampo da cabeça estourada. Reconheceram-no pelo relógio. Ao entrar no salão da Independência, reservara a derradeira rajada para si: os dois tiros disparados do fuzil AK espalharam os seus miolos pela parede. Com ele, foi-se a única e última esperança de um socialismo democrático na América Latina. Como Getúlio Vargas, quase vinte anos antes, decidiu que não iria conceder aos seus inimigos o gosto de verem-no humilhado, escondendo-se numa embaixada estrangeira ou acovardado, fugindo assustado do país. Allende não, morreu como um homem.


*Texto do historiador Voltaire Schilling 

A Reconquista do Chile*

       Uma grande nuvem se eleva do palácio em chamas. O presidente Allende morre em seu posto. Os militares matam milhares pelo Chile afora. O Registro Civil não anota os falecimentos, porque não cabem nos livros, mas o general Tomás Opazo Santander afirma que as vítimas somadas não chegam a mais do que 0,01% da população, o que não é um alto custo social, e o diretor da CIA, Willian Colby, explica em Washington que graças aos fuzilamentos o Chile está evitando uma guerra civil. A senhora Pinochet afirma que o pranto das mães redimirá o país.
       Ocupa o poder, todo o poder, uma Junta Militar de quatro membros, formada na Escola das Américas, no Panamá. Lidera-os o general Augusto Pinochet, profesor de Geopolítica. Soa música marcial sobre um fundo de explosões e rajadas de tiros: as rádios emitem decretos e proclamas que prometem mais sangue, enquanto o preço do cobre se triplica subitamente no mercado mundial.
       O poeta Pablo Neruda, moribundo, pede notícias do terror. De quando em quando consegue dormir, e, dormindo delira. A vigília e o sono são um único pesadelo. Desde que escutou pelo rádio as palavras de Salvador Allende, seu digno adeus, o poeta entrou em agonia.

*Eduardo Galeano (na trilogia Memória do Fogo - O Século do Vento, LP&M)

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

A "ferrovia do diabo" II

Fotografia de Mário Castello
(apresentada ao BF pelo Alexandre Schlee Gomes)


quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Engraçadinhos II (por Andrey Schlee)

       Recebi a foto abaixo do diretor do Sítio Burle Marx (IPHAN). Um dos jardins mais belos do Brasil e que acabei de visitar! Na imagem podemos identificar o cartunista americano Saul Steinberg (de óculos), o paisagista Burle Marx e a arquiteta Lina Bo Bardi (de camisa listrada). Atrás, vemos as folhas imensas de uma Aracea. Contam que índios usavam as folhas como “cache-sex”. Ao ouvir tal estória, Steinberg exclamou: "Eles deviam moderar suas ambições!"


PS.: a imagem foi capturada do documentário Steinberg, Aventuras da Linha (
http://blogdoims.uol.com.br/ims/saul-steinberg-as-aventuras-da-linha/)

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Engraçadinhos*

       Os homens são mais engraçados do que as mulheres. Essa é a conclusão de um estudo feito na Universidade do Novo México (EUA), que fez testes com 200 pessoas de cada sexo.
        A pesquisa também revelou que quem tem a capacidade de fazer os outros rirem é mais inteligente, já que a elaboração de piadas exige criatividade e raciocínio rápido.
       A revelação mais indiscreta a favor dos engraçadinhos é que  eles são melhores de cama, já que o bom humor é um excelente atrativo.

*"Revelação" publicada na Zero Hora de ontem.

Eu, moléstia à parte, sempre fui engraçadinho!

A construção de um xavante (por Ivan Duarte)*

Vereador Ivan
"Salsicha" Duarte
       Era março de 1975. Eu, com 15 anos, chegava de Bagé junto com cinco irmãos, para morar e estudar em Pelotas. Minha irmã mais velha alugou uma casa próxima da Zona da Várzea. Fui matriculado na única turma de oitava série do primeiro grau da Escola Municipal Carlos Laquintinie. Nome muito esquisito, francês e lê-se Lacantiní. Mas, de cara, simpatizei com o Colégio.
       Naquela época, as escolas públicas eram bem melhores, todos reconhecem. Deviam ser mesmo, porque, no ano seguinte, fui aprovado em quarto lugar no vestibular da ETFPel. E olha que eu nunca fui lá muito estudioso.
       O pequeno Colégio, em frente ao Porto, deixou marcas profundas em minha vida. A primeira namorada, o primeiro beijo, as bagunças com os colegas da oitava, as brincadeiras na garagem, que era como chamávamos as nossas baladas de então... Banhos nas doquinhas, sorvete no Maryland, a Polonesa, os ensaios da Telles e da Bruxa... Ah! e tinha os terríveis, enigmáticos e assustadores "bandidões" da zona: Sebinho, Pardal, Casacão e Diabo Loiro... Que nos causavam temor e admiração... Tinham fama de valentões, brigões e não podiam ser contrariados, senão...
       Mas o que a gente gostava, mesmo, era de jogar bola. Eu, apesar de muito magro, era um veloz e promissor ponta-direita. Cheguei a vestir as camisetas de dois times da Zona da Várzea: do Fiação e Tecidos e do Penharol. Em Bagé, na infância, sonhava jogar no Guarany e, depois, no Grêmio. Mais tarde, optei pelos estudos e, creio, o mundo perdeu um craque...
       Um belo dia, recebi de alguns colegas um convite emblemático. Formar um grupo com status de gangue, para pegar tijolos em obras e ajudar na construção do Estádio Bento Freitas. No início, fiquei com medo, mas, em seguida, o espírito de aventura juvenil e a adrenalina falaram mais alto. Além do que, Sebinho, Pardal, Casacão e Diabo Loiro, qualquer problema, estariam do nosso lado, acreditávamos...
       Juro que não lembro quantos, dos parcos tijolos que peguei . O que não esqueço é da alegria que sentia, junto com meus "colegas-comparsas", quando estregávamos nossa contribuição. Também não dá para esquecer os percursos intermináveis carregando dois ou três tijolos cada um, para construir o "nosso" estádio.
       Não me movia um fanatismo inconsequente. Tampouco alguma consciência das necessidades ou algum apelo de um ou outro dirigente do time. Era aventura... pura ingenuidade. Nos imaginávamos Robin Woods do Laquintinie, algo assim...
       Hoje, ciente do erro que cometíamos, estranhamente, ora me envergonho, ora sou invadido por sentimentos que misturam saudade e alegria. E até uma pontinha de orgulho. Espero, diante de tal confissão, que o "crime" esteja prescrito. Até porque, ninguém nunca nos viu cometendo-o. Éramos muito rápidos. Pelo menos, era o que achávamos. E outra, não foram tantas noites assim, nem tantos tijolos...
       De tudo, o que ficou, além das lembranças, é um gosto bom de torcer pelo time "da nossa zona" e sentir-se parte dessa imensa e contagiante torcida rubro-negra.
       E foi assim que me tornei xavante.

       Esta crônica foi publicada originalmente no DP de hoje e é de autoria do Ivan Duarte, que comigo regula de idade - fomos contemporâneos de universidade. O texto nos remete a uma época que, para mim, também foi muito especial. Por coincidência, como ele, eu morava na Várzea, só que bem perto do Bento Freitas. E, como o Ivan e todo mundo, tinha imenso temor dos famigerados Sebinho, Pardal e Casacão (já mencionados aqui no BF, na postagem "Salve, salve, ó Pelotas querida!", de 25 de abril). Nunca estive cara-a-cara com qualquer um deles (ainda bem!), e hoje nutro dúvidas acerca da real existência dessas possíveis "lendas urbanas".  
       Já a ampliação do estádio, essa aconteceu de fato, fui testemunha. E foi à custa do trabalho voluntário, com material "doado" pelos torcedores, num verdadeiro milagre, que se deu em tempo recorde, entre a inesquecível vitória xavante no Bra-Pel decisivo do Torneio Seletivo de 1977 (1x0, gol que, nos nossos corações, imortalizou o ponteiro Tadeu Silva) e o jogo inaugural do Campeonato Nacional de 1978 (0x1 Joinville, que se encerrou sob o maior temporal já visto nesta terra).

A "ferrovia do diabo" (por Andrey Schlee)

       Nas minhas atuais andanças, verificando o que temos preservado por todo o Brasil, acabei de conhecer uma coisa realmente incrível. Um cemitério de locomotivas!!! O que sobrou de parte da fantástica ferrovia Madeira-Mamoré em Rondônia. Também conhecida como Ferrovia do Diabo, foi construída entre 1907 e 1912, e ligava a então incipiente Porto Velho à insignificante Guajará-Mirim, na fronteira com a boliviana Guayaramerin. A proposta era estabelecer uma alternativa ferroviária para o transporte fluvial, em trecho encachoeirado do rio Madeira. A difícil obra foi bravamente executada. Centenas de trabalhadores faleceram. E a produção de borracha da Bolívia chegou a ser escoada até Porto Velho.
       Mas o empreendimento do americano Percival Farquhar não durou. Foi criminosamente liquidado, como todo o resto da malha ferroviária brasileira. Em 1966, a Madeira-Mamoré foi desativada pelo governo Castelo Branco.
       Agora, cabe ao IPHAN resgatar parte do que sobrou (estação, armazéns, oficinas e algumas locomotivas...).
       Voltaremos!!!!!



Fotos de Andrey Schlee
       A história da epopéia em que se traduziu a construção da ferrovia Madeira-Mamoré, em plena selva amazônica, ganhou maior destaque recentemente, com a apresentação, pela Rede Globo de Televisão, de uma minissérie baseada no grande livro Mad Maria, do não menos  grande escritor amazonense Marcio Souza. Na época da apresentação da minissérie surgiram diversas publicações oportunistas a respeito da saga. Recomendável, porém, além do livro de Marcio Souza, é o álbum Ferrovia e Fotografia no Brasil da Primeira República (Metalivro, 2008), com pesquisa e texto de Pedro Karp Vasquez, que dedica mais de 70 de suas páginas à apresentação de cenas colhidas pelo fotógrafo norteamericano Dana Merrill durante a construção da "ferrovia do diabo", entre 1907 e 1911).

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Alerta do Zé Celso

Sem cultura, não tem como
erradicar a miséria.
A religião vem ocupando
o espaço da cultura.
Se deixar, os evangélicos
farão do Brasil
um Irã de Jesus.

Passagem de entrevista concedida por José Celso Martinez Corrêa  à revista Época, hoje reproduzida na Zero Hora.